O que o café lhe faz lembrar?

 “AMANTE DA LITERATURA acreditou que bastavam: caneta, moleskine e uma xícara de café durante horas sobre a mesa do bar. Ela, ambiciosa, exigiu-lhe a vida inteira em troca de um bom livro. Foram felizes para sempre”.pág. 13 – amor expresso, Adriana Aneli

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O AROMA E O GOSTO DO CAFÉ DESPERTAM A MEMÓRIA
E PROJETAM NA IMAGINAÇÃO ANTIGAS SENSAÇÕES…

 

Ainda que o relógio não despertasse… ele acordava mesmo assim. A tarefa que o despertava toda manhã, o mio nono dominava como poucos: preparar o café. Era sua Arte favorita!
Antes de o sol apontar o dia, a chaleira cantava na cozinha e o cheiro ia levantando um por um da família. Alguns afobados, a correr contra o tempo. Para estes, ele deixava o café com leite pronto em cima da mesa. Enquanto havia os desprovidos de pressa, a meditar as primeiras horas sonâmbulas da manhã, numa calma invejável que apenas a infância permite… para esses, o café ficava um pouquinho de tempo a mais no bule.
A gente se servia à vontade da bebida fresquinha e ficávamos ali, se bobeasse o dia todo, de gole em gole, a papear a vida e suas coisas demasiadamente humanas…
De tudo fica um pouco, disse Drummond em sua poesia… e do café fica muito mais… porque assim como minha lembrança tem cheiro de café e me transporta para dentro de um tempo que segue a acontecer cá dentro, o mesmo acontece para muitos de nós.
Pergunte a qualquer um: o que o café lhe faz lembrar? E a resposta virá lentamente… tanto no paladar quanto na memória.
E ao ler o livro de Adriana Aneli – amor expresso – que tive o prazer de editar e costurar… comecei a folhear sensações conhecidas, mas não da pessoa e sim da autora, que descobriu nos Cafés entre esquinas das cidades, um lugar para o corpo, a alma, a memória e também as palavras. Quando dei por mim estava a fazer uma singular lista dos Cafés que ficaram em mim:


Em primeiro… Paris, na companhia dos meus pais… minha primeira viagem para a cidade de Baudelaire. Descobri que o que eles serviam em xícaras não era exatamente café… e era horrível. Eu tinha apenas nove anos. Fiz careta e cuspi fora!
Mas voltei inúmeras vezes ao Montparnasse para conversar-rascunhar e conhecer personagens… menos para beber a “chicorée“, uma bebida à base de raízes de chicória, que tem gosto similar ao do café, introduzida no país no período de grande desabastecimento provocado pelas duas guerras mundiais.

Em segundo… Starbucks Broadway, com Pr durante as férias de verão de noventa e sete… ele me apresentou a famosa ‘sereia de duas caldas’… “você que adora a baleia branca de Dick Herman, vai adorar esse lugar”…
Para variar, ele estava certo: me apaixonei pelo que veio a se tornar o meu lugar favorito em muitas cidades. O meu eterno “café entre esquinas”. Amor no primeiro latte

Em terceiro… certo dia C., me disse “hoje você não vai à escola, temos coisa melhor para fazer” e fomos a Barcelona… onde compramos um tapete para a porta e depois nos sentamos à mesa do “la caixa”… o café era servido na companhia de biscoitos de gengibre e gotas de chocolate.

Em quarto… São Paulo, uma padaria antiga no velho bairro do Bixiga… imediatamente ao dia seguinte a minha chegada a Paulicéia do Mário…
Eu e “meu menino” saímos para um café, caminhamos pelas ruas do velho bairro, esbarrando num punhado de curiosas anatomias… e enquanto tentava saber de onde o conhecia (totalmente clichê, mas e daí?) caminhamos até esse lugar que tinha as paredes revestidas por velhas fotografias da Metrópole antiga.
O café não era dos melhores, mas a companhia…

Em quinto… Café Cartola, em Coimbra… na companhia da minha eterna Mestra das letras, que me disse certa vez “a psicanalise entrará em ti, mas você não viverá para ela”… gostávamos de caminhar lado a lado até o velho na Praça da República com nossos livros, em silêncio… com os olhos a dizer o que os lábios não eram mais capazes. Sorriamos a cada gole e, depois fazíamos o caminho de volta… a passear por entre uma multidão inconsciente de nós duas. Ela fazia como o nono, provava o primeiro gole de café como se fosse sopa, para sorver melhor os aromas…
Em sexto… estávamos todos à casa e quase que ao mesmo tempo, decidimos em conjunto, como se fosse combinado… ir a Marrocos. E lá fui eu na companhia dos meus. Foi a última vez que estivemos todos juntos…

[uma pausa para respirar fundo que essa bateu forte cá dentro]

Brindamos o pôr-do-sol – o mais lindo que eu já vi em toda a minha vida – com uma caneca de café requentado (horrível) e prometemos nunca nos perder. Nos esquecemos, contudo, que promessas são feitas para não serem cumpridas.
Entre sorrisos espaçados-entrelaçados… silenciamos um a um, e guardamos para todo o sempre o momento. Foi a nossa promessa mais sincera. E queríamos que fosse uma conquista, mas não foi…
Não acredito que haja arrependimento, afinal, o momento sobreviveu. E nós também. Mas eu nunca mais consegui voltar ao Café de France, que é o mais famoso da cidade, cosmopolita de Marrakesh.

Em sétimo, [estou em dúvida] — mas fico com São Paulo (novamente).
Era uma tarde de terça e eu me preparava para deixar o lugar, quando uma figura recém-saída de uma tempestade adentrou o recinto do café entre esquinas. Ela fugia da chuva que caia forte pelas ruas… estava toda molhada e reagiu como um cão ao entrar. Acho que fui a única a não esbravejar dos respingos da chuva. Nos olhamos a distância. Eu sorri suas fisionomias inteiras: provei-devorei-e-a-decorei… ela devolveu o sorriso. E eu que estava de saída, com a desculpa de esperar a chuva passar: fiquei um pouco mais. Acabei surpreendida com um gesto. A estranha me propôs um brinde – ao erguer seu copo de latte no ar – e eu embarquei no gesto. Brindamos uma a outra… à distância. Duas estranhas numa tarde-quase-noite… e, ela nunca vai saber o que me deu. Parte dela foi embora… mas uma parte-inteira ficou comigo para todo o sempre.

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8 comentários sobre “O que o café lhe faz lembrar?

  1. Lua Nova disse:

    A primeira coisa que vem em minha mente é a casa de minha avó… lá tinha café a tarde, com pão fresquinho com manteiga. E café preto porque em casa criança não tomava café. Para minha sorte, a vó considerava isso uma grande bobagem. E como eu adorava aquelas tardes de mesa pronta, café e pão.
    Que delícia esse seu texto dona Catarina/Lu, fiquei a te imaginar na casa do tuo nono e as canecas de café na mesa da cozinha e essa sua viagem por todos esses cafés, menina. Você já esteve em tantos lugares, viu tanta coisa, mas não veio até Campinas e tem alguns cafés aqui que posso te apresentar. Venha.
    bacio

  2. Sandra disse:

    Gente… que delícia de post. Viajei aqui. Desde pequena eu gosto de café. Se o cheiro de um café perfuma a casa toda, imagina com erva-doce. Era uma delícia e dava água na boca. A sensação era de coisa gostosa, especial, que só tinha na casa da minha vó que colocava o café para torrar com um pouquinho de açúcar e mexia com uma espátula grande de pau até ele torrar. Depois que esfriava, juntava a erva-doce. Ela não fazia grandes porções. Até hoje sinto saudades daqueles meus dias de menina.
    Ah e você costura livros? Uau. Uau. Uau. Uau
    Quero. Quero. Quero
    Como faz?

    Beijokas Catarina|Lunna
    Adorei esse seu post

  3. Beth Q. disse:

    Eu tive uma amiga com quem tomava café todos os dias. Tomávamos na cozinha de casa durante os setes em que moramos juntas. Incialmente era coado, mas depois fomos variando, porque tínhamos cafeteira italiana e máquina de expresso. O que não mudava era o ritual. Uma esperava a outra e o café se tornava uma sessão de terapia e risadas. Hoje, eu moro em Brasília e ela em outro país, mas tenho saudades desse tempo. O gosto pelo café continuou e eu sempre me sento em algum desses cafés da cidade e resgato certas lembranças.
    Uma delícia esse seu post menina.

    Ps. Já estive no Café Cartola em Coimbra, também conhecido por Esplanada.
    bisous

  4. Adriana Aneli Costa Lagrasta disse:

    As sete lembranças de Lunna Guedes… nem todas as lembranças que o café evoca são boas, nem todos os cafés dos melhores momentos foram bons… mas este texto emocionante e emocionado traz em cada linha a prova de que sobrevivemos na memória de quem dividiu uma xícara com a gente. O que o café me faz lembrar, e o seu texto ainda mais, é de que estou MUITO VIVA e – melhor – rodeada de amigos especiais!!! Obrigada por me tornar parte deste seu imenso plural!

  5. Mariana Gouveia disse:

    Bambina,
    Saboreei seu texto como o café do meu pai. Na velha xícara esmaltada. Verde com florzinhas vermelhas.
    Puro, forte. Torrado e moído por ele. Lembrei das caminhadas que fazia com ele ainda menina, pelo cafezal em flor e ele dizia que aquele perfume inebriava a alma.
    Quando veio uma praga e foi destruindo o cafezal, vi meu pai ir minando com os pés de café – mas isso é uma outra história.
    O café mais recente que me lembro doce na memória, nem foi café. Mas teve gosto como se fosse.
    Eu, em teu café preferido, de frente pra você e riso bobo de quem estava sonhando.
    Taty me trouxe o copo e a emoção de fazer parte de tudo aquilo me deu a sensação de estar de novo entre o cafezal do meu pai.
    Grazie! tanto tanto!

    Bacio mille

  6. Frasco de Memórias disse:

    Adorei esta viagem pelas memórias perfumadas de café… e fiz a minha viagem também! Ai, o cartola em Coimbra! Será que nos cruzámos? 1994-1999?

  7. Lu Amorim disse:

    ☕ O café me reporta a infância… meu avô me colocava no colo e depois de ter trançado meus cabelos, colocava 1 colherzinha de margarina no meu café…. Recebi tanta ternura quando criança. Amooo café e com bombom muito mais ainda.☕

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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