Às vezes paro à porta com o olhar perdido e habituado ao silêncio…

 

Pois de tudo fica um pouco. | Fica um pouco de teu queixo
no queixo de  tua filha.  | De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco  |  nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Carlos Drummond de Andrade

encontros e desencontros

 

Hoje eu vi S. rapidamente…
Percorria os meus caminhos de sempre… de volta para casa… dentro de um fim de tarde, quase noite — quando ela veio em minha direção com seus desenhos de ontem e seus contornos de sempre

Não acenei… apenas abracei o silêncio que se esparramou entre nós duas… recordei imediatamente suas falas — sempre tão generosas, dentro das madrugadas febris. Eu gostava imenso da ousadia que percebia em seu discurso… o que me fez revistar um a um os nossos parágrafos — trocamos correspondências durante várias estações. Foi como uma tempestade de janeiro, com seus muitos trovões…

Vivemos muitas madrugadas na companhia uma da outra… tantas linhas minhas se originaram em seus diálogos sisudos, agudos… e inúmeras foram as vezes que me encontrei dentro de suas frases incompletas. Era comum os nossos silêncios se encadearam um no outro…

Ela foi minha voz e eu a suas paredes brancas. Fui depositório de segredos esquecidos e ela foi a água para a minha sede…

Eu não tomei nota do horário, tampouco do dia ou estação do ano em que o encontro se deu… porque há coisas, que eu quero esquecer — não me lembrar, descartar — porque eu já tenho tanto em mim para medir-pesar-inundar… que me recuso a deixar a mala mais pesada do que já está…

Eu percebi que, até a tarde de hoje, não tinha mais pensado nela… nem mesmo nas vezes em que ouvi o nome dela ser pronunciado em voz alta — em outras bocas — junto a mim… e quando nossos passos percorreram caminhos iguais — dentro do crepúsculo desse dia — acontecemos dentro de uma condição imutável: duas estranhas… mas é melhor que seja assim, porque eu nunca gostei de ruínas…

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Uma mesa com seis cadeiras e uma personagem…

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…aprecio certos tipos de multidão porque quando detidas dentro de um invólucro, como em “um café entre esquinas”, por exemplo… são como hamster em gaiolas, e não se dão conta da real condição que as acomete.

É possível observá-las, aprendê-las, doma-las e fundamentalmente: sabê-las… movendo-as de um lado para o outro, feito peças num tabuleiro de xadrez.

De frente para mim… na outra ponta da mesa da qual comumente me aproprio… acontecia um par de movimentos inquietos. Duas moças escolhidas em si mesmas esperavam por alguém, que pela maneira como olhavam no relógio que traziam nos pulsos, estava atrasada. Silenciosas como uma tarde de verão, onde o asfalto arde e o corpo padece… engoliam suas próprias salivas, numa ilusória tentativa de preservar a paz, que nunca houve naqueles corpos.

Uma estranha de cabeços longos-castanhos-claros-cacheados finalmente chegou. Moça eufórica… uma espécie de tempestade branca… dessas e que o céu se inflama,
venta forte e se ouve trovões a fazer estremecer a pele, o lugar. Mas a chuva não acontece…
Trouxe um sorriso breve nos lábios, abraços curtos e um par de movimentos aleatórios de mãos. Apresentou suas desculpas convencionais: o trânsito insano da cidade. Esparramou tudo — caderno, livro, celular, apostilas — na mesa, em míseros segundos, disparando um diálogo que parecia acontecer desde sempre. Gesticulou palavras… acenou vontades e desfilou euforias muitas. O olhar, no entanto, vigiava cada movimento novo dos ponteiros, como se tivesse que estar a qualquer momento, em outro lugar.

Não prestei atenção ao diálogo, que ela imprimia junto as “suas meninas”… que esboçavam um dizer nos lábios, que em momento algum, teve permissão para existir… sendo um respirar incompleto, uma sombra que a luz recusa a forma.

Ela as tinha sobre seu controle… a força de seus gestos devorava as duas figuras menores, que pareciam presas por fios: marionetes.

Ela percebeu que eu estava a consumí-la e sorriu… lábios finos, olhos cor de mel, cabelos dourados — cor de tarde de sol a desfalecer nos últimos minutos. Figura longilínea, indócil. Mas, o que mais me fascinou em sua figura escarlate… foi seu time. Não existe nada mais sedutor que saber esperar — é uma arte para poucos! E ela esperou… pacientemente pelo momento certo para vir até mim, como se fosse eu o hamster de sua gaiola.

Trouxe nos lábios o seu melhor sorriso e um pedido… e eu quase inventei uma caneta apenas para mantê-la um pouco mais diante de mim. No entanto, não uso canetas. Sou uma pessoa de grafites… e não tenho o hábito de emprestar o que dá forma a minha escrita.

Ela suspirou como quem lamenta… e me disse com força e acidez “estou sentada ali”…  como se eu não a tivesse visto… sorri como sempre faço nessas horas e espiei com algum prazer a cadeira vazia, como quem toma posse do cenário, guardando-o  na memória para mais tarde. Gosto de espaços vazios, onde a presença humana é apenas uma lembrança… vaga e imprecisa. Me faz lembrar Edward Hopper e seus cenários, onde a solidão é personagem principal.

Nós duas, naquele instante, éramos dois corpos, como cachorros sem dono — abandonados… que não pertencem a ninguém, nem a si mesmos.

…ela voltou ao seu lugar com seu andar de nuvens. Mas não foi mais a pessoa-primeira… que se perdeu entre um sorriso e um pedido. Dentro da casa — esse meu corpo — as lâmpadas estão acesas e as janelas abertas. A mesa está posta e a água ferve na chaleira. Aguardo pacientemente pelo apito, enquanto aprecio essa personagem a bater palmas em meu portão…

Pela janela aberta…

um maço de nuvens.png

…abri a janela na primeira hora dessa manhã, para espiar a cidade e suas sombras. Ainda é verão lá fora… e os raios dourados de sol resvalam pesado sobre o asfalto, que arde a realidade e todas as suas coisas demasiadamente humanas.

Revirei um punhado de lembranças — antigas e recém-chegadas — movida que fui para dentro desse baú — ‘que já não se pode fechar de tão cheio’ — e fui espalhando por cima da cama as minhas memórias todas…

O cansaço se apoderou de minha superfície… busquei um saco grande de lixo e fui jogando tudo dentro: as verdades e as mentiras…

Fiz uma festa na garagem… vendi toda a mobília por um punhado de notas, que juntas, não conseguirão pagar o café que eu tomo ali entre esquinas.

A casa ficou vazia… o caderno é novo… e dizem por aí que o ano também. O corpo, no entanto, ainda insiste em transbordar esse velho ontem, que esvaziei…

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

mia couto