Às vezes paro à porta com o olhar perdido e habituado ao silêncio…

 

Pois de tudo fica um pouco. | Fica um pouco de teu queixo
no queixo de  tua filha.  | De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco  |  nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Carlos Drummond de Andrade

encontros e desencontros

 

Hoje eu vi S. rapidamente… e levei um susto ao reconhecer seus contornos vindo em minha direção. Eu percorria os caminhos de sempre… de volta para casa… sem pressa, mãos afundadas dentro do bolso da calça adidas. Era um fim de tarde, quase noite agradável e estava a pensar em ‘minhas meninas’.

De repente, ao levantar o olhar… alcancei sua figura e seus desenhos de ontem. Demorei um pouco a reconhecer o que era traço-reta. Não acenei… apenas abracei o silêncio que se esparramou entre nós duas. Ela desviou o olhar… fingiu não me ver, atravessou a rua.

Recordei imediatamente as nossas falas — sempre generosas, dentro das madrugadas febris. Eu gostava imenso da ousadia que percebia no discurso dela… o que me fez revirar um a um os nossos parágrafos. Trocamos correspondências durante várias estações. Foram muitas madrugadas na companhia uma da outra… tantas linhas minhas se originaram em suas falas irregulares-inexatas… sisudas-agudas. Ela era sempre tão triste-solitária e me fazia suspirar como quem morre tantas vezes. Inúmeras foram as vezes em que me encontrei dentro de suas frases incompletas. Era comum os nossos silêncios se encadearam um no outro…

Ela foi minha voz e eu a suas paredes brancas. Fui depositório de segredos esquecidos e ela foi a água para a minha sede…

E ao olhar para trás uma última vez… percebi que, até a tarde de hoje, não tinha mais pensado nela… nem mesmo nas vezes em que ouvi o nome dela ser pronunciado em voz alta — em outras bocas. E quando nossos passos percorreram caminhos iguais — dentro do crepúsculo desse dia — acontecemos dentro de uma condição imutável: duas estranhas.

Mas é melhor que seja assim, porque eu nunca gostei de ruínas…

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5 comentários sobre “Às vezes paro à porta com o olhar perdido e habituado ao silêncio…

  1. me perco em suas palavras e procuro seus personagens como se fossem meus.
    Revisito sua lembrança junto a mim, sempre, para nunca te perder.
    Amo tu!

  2. Amei o texto… e fiquei presa a imagem da outra pessoa que atravessou a rua.
    Meio triste isso. Já vivi algo mais ou menos assim e foi estranho, dificil.
    Mas seu texto foi tão poético e bonito que a tristeza ficou pequena.

    beijocas

  3. Estava com saudades de te ler e mergulhar em um mundo tão cheio de poesia.
    Seus escritos, às vezes, deitam imagens em meus olhos e são tão reais que é como assistir a um filme!

    Abraços!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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