Abril é o mais cruel dos meses…

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> ao som de Sir. Elton…


Abril é o mais cruel dos meses, concebendo

Lilases da terra entorpecida, confundindo

Memória com desejo, despertando

Lerdas raízes com as primeiras chuvas.

O inverno aqueceu-nos, recobrindo

A terra na esquecida neve, alimentando

Um resto de vida na secura dos tubérculos.

O verão surpreendeu-nos, caindo sobre o Starnbergersee

Com pancadas de chuva; esperamos sob a colunata,
Depois seguimos, à luz do sol, para o Hofgarten,
Lá tomamos café, e conversamos um tempo.

T.S.Eliot

 


 

…fui até a prateleira em busca de um livro e depois e percorrer dúzias de exemplares, escolhi Eliot e sua poesia atemporal… coloquei a água para ferver, escolhi a mesma xícara de sempre, as ervas da estação e me sentei em minha mesa com suas bagunças de sempre. Eu a organizo as segundas, mas durante a semana tudo se desorganiza naturalmente. Folhas se acumulam, livros se amontoam… já cheguei à conclusão de que a escrita precisa de caos para existir.

Enquanto esperava pela sinfonia da chaleira que apita quando a água ferve… tentei folhear meus ‘abrils’ passados… mas não fui muito longe. O máximo que cheguei foi no ano passado, quando mudamos de casa. No mais…são ausências temporais que não se deixam prender… lembranças soltas, como as folhas do calendário.

Resmunguei o poema de Eliot que trago tatuado na pele: “abril é o mais cruel dos meses“… um verso-frase que assusta quem o lê, sem sabê-lo parte de um poema completo-inteiro-intenso ‘the wast land‘, que é considerado por muitos como sendo o mais importante poema do século XX.

Eliot ao escrever o primeiro verso ‘april is the cruelest month‘ faz alusão a chegada da Primavera…

Após pesquisar, descobri que no Brasil o poema ganhou diferentes versões… foi A Terra Inútil” para Paulo Mendes Campos, “A Terra Gasta” para Idelma Ribeiro de Lima, “A Terra Desolada” para Ivan Junqueira e Thiago de Mello… e Ivo Barroso preferiu “A Terra Devastada”…

Leio o poema e seus poderosos versos flutuam diante dos meus olhos… imagino as emoções na pele do poeta e um transbordar insólito de sensações. Eliot narra a realidade do pós-guerra e a condição do inverno que deixa o lugar para a primavera acontecer. Impossível não ponderar sobre a capacidade da Natureza de se reinventar após o inverno. Tudo volta a vida… pulsa. Mas e o homem em suas ações equivocadas a destruir a si e ao outro. O que sobra?

 

‘Teus braços repletos, teus cabelos úmidos, eu não podia

Falar, e meus olhos se turvaram, não me sentia

Nem vivo nem morto, e não sabia nada,

Olhando no âmago da luz, só o silêncio’.

 

Um gole de chá e mergulho nos versos originais do poema… o abril que tenho para mim não é cruel… é apenas um mês com seus trinta dias impossíveis de guardar…

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