A menina que um dia eu fui,

“Meu lar é qualquer um | as noites translúcidas
uma esquina, a aurora | um cartão postal antigo
as palavras perdidas”

Cris Campos

 Lunna_thumb.jpg

Nasci em mil novecentos e oitenta e um… no primeiro minuto do dia vinte e nove de novembro. A lua estava em sagitário e, aparentemente, eu também. Chovia intensamente por toda a cidade… por isso cresci ouvindo que eu nasci “entre um trovão e outro”.

A cidade era Gênova, com seus sons de mar e seus caminhos de pedras. Ocupávamos uma casa antiga que tinha vista para o mar de um lado e, para os elementos urbanos do outro. Tinha varanda com mesa redonda e cadeiras de ferro para os fins de tarde regados a cantos de pássaros e pesadas sombras. Quintais de fruta e folhas para as manhãs por começar. Mesa grande para os dias domingos e, bancos para qualquer dia da semana…

Foi nessa casa que aprendi a ler e a escrever meu nome com suas cinco letras: duas vogais e três consoantes… e que ganhei meu primeiro “diário”. Na primeira página anotei o ano: mil novecentos e oitenta e oito e, na segunda folha: um poema de Emily Dickinson… poeta que ‘encontrei’ sob a mobília da sala.

Levei algum tempo para iniciar-me nas linhas seguintes do tal diário… mas quando o fiz foi na terceira pessoa do singular como se a menina a escrever ali — contasse a história de uma pessoa qualquer, que não ela-ninguém…

Escrevi em diários ininterruptamente até o dia vinte de junho de mil novecentos e noventa e quatro… até então o verão era a estação da minha alma: dias de festas, sol a dizer alegrias, realidade aquecida… vida que se expande em diferentes direções! Depois disso… o verão passou a ser qualquer coisa aborrecida-desagradável-cansativa… e extremamente extenuante. Não me lembro como se deu o fim do verão e também não me lembro dos verões dos anos seguintes… me lembro apenas, que encontrei outra estação para amar: o outono!

Não tenho saudades da minha infância, mas é como um livro que guardo na prateleira… sempre busco por ele para re-ler a história, que resultou nessa realidade atrevida, que sou. Gosto de correr os olhos sobre as páginas, que dizem a menina, a quem a mãe perguntava pela manhã, com um ar visivelmente preocupado e o olhar atento as poucas reações, que eu apresentava: “você dormiu?”. Eu sempre respondia com o olhar baixo, num quase sem voz: “uhummm” — era uma mentira necessária, que não convencia, afinal, o desenho escuro ao redor dos olhos denunciava as noites sem sono já naqueles dias.

Eu não dormia e ela sabia… mas fingia não saber. Entrava em meu quarto pontualmente às oito horas da noite para perguntar: “escovou os dentes?” e se dava por satisfeita com a rápida resposta, que eu lhe entregava. Colocava uma manta a mais no pé da cama e abria os braços para me receber em um abraço de urso, que parecia durar uma vida inteira. Me desejava boa noite com sua voz de veludo, apagava a luz… e fechava a porta len.ta.men.te.

Eu nunca tive medo de escuro… a noite foi sempre cenário das minhas invenções mais malucas. No começo eu não sabia se dormia ou se fingia que dormia. Não sabia se sonhava ou se inventava os meus próprios sonhos.

A dúvida entre o real e o imaginário teve início dentro daquelas noites… ao mesmo tempo em que a certeza de que seria alguém, pautado pela solidão, se estabeleceu. Quando a porta do quarto se fechava, a realidade era subtraída dos meus olhos, que se acostumavam facilmente ao breu… e eu me sentia agigantar.

A menina que eu fui, modelou todas as insanidades, que eu abraço… e sou e sempre serei grata a ela… vez ou outra, a espio nas páginas desse livro, que ela me ajudou a escrever. Preparo uma xícara de chá, sovo a massa, porque ela adora o cheiro de pão recém-assado… e conversamos. Ela me conta que gosta de sair para caminhar calçadas, depois das chuvas e eu de dormir pelas manhãs, quando as sombras recuam… e as luzes artificiais se acendem  no alto dos postes.

Nós duas ainda não conseguimos entender porque os dias — mesmo no outono — são muito mais longos que as noites… será que Freud explica?

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16 comentários sobre “A menina que um dia eu fui,

  1. Lua Nova disse:

    Catarina/Lunna,

    Somos eternos em alma, do dia em que nascemos até o dia em que morremos. Os estágios em nossas vidas são apenas fases, etapas, o que há de mais importante vigora em todos eles. A menina vive na mulher, que viveu na moça…

    Bisous,

  2. Cintia Tin Fumagalli disse:

    Depois de crescer parece que só queremos voltar, mas você diz não sentir saudades da sua infância. Eu acho estranho, né? Porque eu sinto muita saudades e tem dias que eu quero minha infância de volta porque a via adulta cansa.
    Mas você volta a ela como quem volta a um livro e talvez seja esse o seu segredo e deveria ser a nossa realidade, mas nem sempre é.

    beijinhos

  3. MAS disse:

    Melhor do que ler esse diário aberto que eu acompanho desde o tempo do sótão é poder perceber que suas palavras dizem exatamente o que imagino de ti aqui do outro lado da tela.
    Você é uma lua de fases e esse seu texto é simplesmente fantástico, real ou fantasiado, nos transporta até à nossa infância.

    Beijos menina ítalo-portuguesa-brasileira.

  4. Mariana Gouveia disse:

    Como já sabe, ler-te é entrelaçar minha história na sua. Parece sempre que é de mim que fala.
    É como resgatar os meus silêncios através de suas falas.

    bacio
    anche io mais e mais. Sempre.

  5. Madalena Barranco disse:

    E eu, Lu, adoro essa menina que faz meu coração sorrir sempre! Ah, Lu, você não tem um macacão vermelho hoje em dia?

    E a coragem de dizer não às convenções impostas para as meninas? Por que todas as meninas têm que gostar de rosa obrigatoriamente? Eu, confesso que adoro cor-de-rosa, mas não é por imposição, é porque de verdade eu gosto e assumo que gosto.

    E as sombras? Sim, querida, você aprendeu que os segredos para a vida residem nas sombras e desde pequenina teve essa verdade…

    Que lindo, antigamiga querida… Me pareceu ver essa menina iluminando o teto com a lanterna…

    Beijos, com carinho

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