A flor escura da realidade

Daqui de dentro, sem prazo para emergir em vida outra vez…

 

ed hopper

Caríssima A.,

 

…sua missiva chegou até mim como uma forte rajada de vento, daquelas que tiram tudo do lugar e causa algum tumulto na mesa que ocupo essa semana.

Não saí de casa — não vi pessoas e me espalhei pelos cantos desse lugar ao qual não pertenço. Sou hóspede temporária desse cenário, como fui de tantos outros, desde que cheguei à São Paulo. Sou hóspede em meu próprio corpo e o único lugar que reconheço como lar é a Noite — e os dias de chuva! Não posso — não devo — me esquecer dos dias de relâmpagos e trovões… é parte de minha anatomia.

A noite é, com certeza, o meu lugar… é aquela roupa gostosa que o corpo veste e nela se esquece — uma espécie de segunda pele. É o meu inverno. Minha xícara de chá de raízes-folhas-e-cascas. O livro que sempre volta as mãos para uma ‘última’ leitura.

Passei os últimos em mim, naquela porção mais funda, onde a realidade tenta, mas não consegue alcançar. Não é um refúgio onde me escondo — é apenas um lugar inventado durante minha estadia no templo da infância, por mim apelidado de ‘noite imensa’.

Como pode ver… eu nunca gostei dos dias. Desde sempre me causam fadiga, indisposição. Respiro fundo — como quem morre — um sem-fim de vezes e o verbo aborrecer se conjuga em minha pele feito tatuagem.

A realidade minha cara, nunca foi para mim… e quando ela tenta se apoderar e espalhar por minha matéria, feito um vírus… mergulho nesse abismo que sou e provo do sabor da queda. Sei que não existe fim e isso — como diz a canção de Marisa Monte — ‘me acalma, me acolhe a alma’.

Os abismos são assim… apenas queda — mas há quem prefira a realidade que curiosamente oferece a sensação de pés no chão.

Au revoir

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9 comentários sobre “A flor escura da realidade

  1. MAS disse:

    Menina, gostei imenso da música que sugeristes em tua bela missiva.
    Gostaria eu de ser teu correspondente, seria prazeroso receber notícias tuas.
    Te encanto

    beijos teus olhos

  2. Lua Nova disse:

    Eu estou adorando essas missivas de primavera. Já quero que seja primavera o ano todo só para ler essas missivas. Que título e que narrativa.

    Lu, quero os diários todos, posso pedir por aqui?
    bisous

    • Lunna Guedes disse:

      Oi amore, boa tarde, também estou a me deliciar com as missivas. Minha correspondente é uma provocadora deliciosa.

      Ps. Para você pode ser por aqui, por ali… já estou a providenciar seus diários.

      bacio

  3. Darlene R. Faria disse:

    Ler teus escritos é mais do que meramente juntar palavras em um coordenado que forma frases completas. É sentir cada linha como se estivesse ao teu lado enquanto escreve. Nesta missiva, além de sentir um eco das tuas sensações, me identifiquei com um trecho: “A noite é, com certeza, o meu lugar… é aquela roupa gostosa que o corpo veste e nela se esquece — uma espécie de segunda pele. É o meu inverno. Minha xícara de chá de raízes-folhas-e-cascas. O livro que sempre volta as mãos para uma ‘última’ leitura.”. Sou também uma pessoa que encontra maior abrigo e conforto na noite, mas jamais havia pensado compara-la a uma roupa gostosa e esta tua descrição me encantou.

    Beijos

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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