Um elogio ao silêncio… e a solidão!

 

“como o vento e o sossego
das tardes de um sempre e das noites
que nunca descobri no puro ou impuro canto”.

Paulo Plinio Abreu


Sempre as segundas dou corda a um antigo ritual: vou as prateleiras e volto de lá com um livro em mãos. Escolhi nesse dia cinza um conjunto de folhas costurados por mim. Uma breve reunião particular de poemas — apenas os favoritos — para os quais inventei capa e alinhavei com uma fita preta o exemplar único… uma espécie de caderno de poesias.

Encontrei o poeta no acaso do próprio acaso… uma leitura dentro da noite nos bosques do Campus de Coimbra. O poema ‘o barco e o mito’ ficou em mim com seus versos a me levarem nessa viagem que nunca se inicia, tampouco termina: ‘nau feita de vento e força de um pensar antigo. Tua quilha tem o sabor do sal das águas fundas e de um peixe que atravessou a garganta de um morto

Ao pesquisar a vida do homem por trás do poeta… esbarrei em uma realidade pouco comum para o cotidiano onde tudo gira ao redor do verbo “acontecer”.

Paulo Plínio Abreu viveu na contramão do desejo contemporâneo…sua poesia foi escrita na quietude de seus cenários. Suas palavras são sua biografia. Seu rosto é um verso. Seu passo é uma estrofe… como se ele tivesse escolhido responder aos anseios de Paul Valery: “morrer sem confessar” — em silêncio.

Paulo — em vida — não foi a muitos lugares… não era frequentado e pouco frequentava. Foi de poucas rodas… mas pertenceu a mesma geração de Mario Faustino e tantos outros. Fez excelentes traduções de Rilke, T.S.Eliot e Duineser Elegien… e teve alguns de seus escritos publicados após a sua morte pela Universidade Federal do Pará em 1978…

Paulo saiu de cena antes do fechar das cortinas… sem dizer adeus. Apenas foi embora… sem esperar para ver… sem ficar para ver acontecer.

 

“A luta do poeta não é com o anjo, mas com o verbo
que dissolve em poesia”

Considero sua realidade um mundo fascinante. É o direito ao silêncio. É ser outro sem ser ninguém… ser sombra… apenas uma faísca: absolutamente nada. É não olhar para trás depois que se atravessa a rua — mãos no bolso, olhar junto ao chão…

Algo totalmente inconcebível para os dias de hoje… em que é preciso ser visto, ouvido, percebido por todos num mundo de ninguém. Passar em branco é o mesmo que não existir, não viver a vida — que precisa ser narrada por outros para ser realidade.

É preciso desesperadamente se oferecer a um rótulo… aparecer — ser alguma coisa para uma meia dúzia de pessoas que se alimentam incansavelmente de vidas alheias…


A noite sacudia as árvores dormidas
e afagava a plumagem dos pássaros nos galhos.
Lembro que o vento espertava o silêncio no ar
e na quilha dos barcos afogados.
Noite que chamava os mortos
e fazia chegar a mim o seu chamado
do ermo em que jazia.
Noite em que do céu caiu o fruto da vida e não colhemos.
Noite despojada de todos os artifícios.
Despregada da grande árvore do nada
e carregada de tudo
em viagem para um tempo sem fim.

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17 comentários sobre “Um elogio ao silêncio… e a solidão!

  1. Lua Nova disse:

    Não conhecia esse senhor poeta. Mas sua descrição me deixou com água na boca. Agora não acho justo você dizer que tem um livro do cara que você mesma fez e costurou. E a gente? Fica como? Dá para dizer eu quero? Você faz? Só um para sua leitora favorita aqui. Nunca te pedi nada, amore. Pensa com carinho aqui na sua Lua nova.

    bisous

    • Lunna Guedes disse:

      Paulo Plínio é um senhor agudo, impiedoso, faminto e nos deixou seu melhor para degustar. Quando a amarração de poemas. Podemos pensar em um novo exemplar para o próximo ano.

      Bacio

  2. Cris Campos disse:

    Lunna,
    S E N S A C I O N A L!!!
    Tudo que disse fez muito sentido pra mim, na verdade desnudou meu momento. Realmente hj as pessoas fazem qualquer negócio pelos famigerados “quinze minutos”, mas definitivamente não são todas. Se dispensarmos um olhar um pouco mais atento, com certeza descobriremos que os grandes poetas e escritores que hoje são considerados grandes e realmente o são, escreviam sem qualquer pretensão quanto ao sucesso. E acho que é exatamente isso que os tornou GRANDES nomes da literatura.
    Maravilhoso Lunna!
    Gr. Bj.!

    Ah! Vou conhecer melhor o Paulo, ah vou!

  3. Cibele disse:

    Catarina, você exagerou nessa. Ninguém em sã consciência quer ser um estranho. Todos nós queremos ser reconhecidos. Desaparecer, muito menos.
    Aposto como você também não quer, ou então não seria escritora.
    Todo mundo quer seus segundos de fama, seu lugar ao sol, seu brilho intenso.
    E esse Paulo Plinio Abreu tem uma belissima biografia e só não conseguiu sucesso em vida porque morreu muito cedo, caso contrário, estaria no meio de todos os grandes.

    • Lua Nova disse:

      Ah Cibele, você é nova por aqui, né?
      Então deixa eu te explicar uma coisinha: a nossa Catarina/Lunna não dá a mínima para um lugar ao sol, ela gosta de sombra, o canto oposto as multidões, uma mesa de café para poucas pessoas.
      E se você conhece a biografia do Paulo Plinio Abreu, deveria saber, por exemplo, que os grandes, como ele, não tiveram sucesso em vida, mas não se foram, como a maioria de nós, meros mortais. A eternidade lhes pertence. Amém.
      Vou voltar ao Fernandinho agora. Outro que eternizou-se, já que a vida não lhe deu um lugarzinho ao sol.

    • Lynce disse:

      Ah Cibele, nossa menina Catarina gosta de água fresca, não de cair no lago. Nossa menina Lunna gosta de fechar os olhos e sentir. Ela é figurinha noturna, não gosta de sol não.
      Não conheço o Paulo, mas o Fernandinho da Lua nova eu desfruto e adoro.
      Vamos combinar que está todo mundo muito chato com esse negócio de querer aparecer e falar mais e mais e estar sempre certo.
      Que chatice.

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