Não só de café vivem os loucos…

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Cecília Meireles


Caríssima A,

…sua missiva chegou num momento de caos. Estou sem tempo para pausas nessa minha realidade movido a agulhas e linhas. Há tanto para fazer antes de me sentar para me dedicar ao prazer de alinhavar livros. Não há tempo — como disse Cecília Meireles na última missiva enviado ao amigo Mário. Suspiro só de lembrar a despedida que ela entoa naquele punhado de linhas.

Não há tempo — insisto… e me sinto como se tivesse recebido uma sentença de não-vida, com dias contados nos dedos de uma das mãos — cinco — é o que diz o médico com seu olhar traiçoeiro a me impor urgências. Tudo é para ontem porque não há tempo e contamos os dias nos calendários e nos preparamos para as ansiedades que se misturam à minha figura.

Me preparo para viver contrários porque sou centauro e empunho o arco e disparo a flecha… uma semana sem sonos, repleta de ansiedades e pressa — justo eu que detesto certos movimentos, me vejo obrigada a eles mais uma vez.

Ainda é domingo e para me preparar para os dias que virão me deixei em estado de abandono. Li livros, vi alguns filmes e dormi horas inteiras no claro e no escuro.  E agora, enquanto aguardo a água ferver… escrevo-te e penso: quantas sentenças de não-vida recebemos ao longo da vida?

As pessoas se preocupam tanto com o ‘fim do mundo’… anunciam datas e conclamam estar próximo do fim.

Será que não percebem que o mundo se acaba todos os dias? Quantos de nós ficaram pelo caminho? Quantos de nós não conseguiram viver o dia seguinte as suas emoções mais agudas?

O mundo se acaba, minha cara… e nem sempre há tempo bastante para uma simples xícara de café preparar, porque o trabalho, a cidade e seus muitos elementos, a casa, a realidade, as pessoas — tudo isso no ocupa e povoa e suga e nos estraga, feito um vírus que anula a nossa imunidade.

E a gente se acostuma a deixar as pequenas coisas para depois — como se existisse algum prazer em dizer ‘não há tempo’. Mas aqui, eu me permito repetir as linhas de Cecília num abrir e fechar de aspas… enquanto sirvo o café feito na lentidão que existe dentro da espera.

Ao menos sou tua amiga…

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