Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

envelope 2

Caríssima M.,

…sentei-me aqui para responder sua missiva que há dias queima em minhas mãos. Mas eu tenho pequenos hábitos que preservo…

Para escrever uma missiva preciso que meu corpo anoiteça e que o som da chaleira se faça presente… ressoando sonoro pelos cantos da casa, me permitindo uma ilusão confortável de futuro — a única que eu aceito — através da fusão do chá.

Gosto de me sentar aqui, na mesa da cozinha… de frente para a janela para pensar a realidade que me atravessa a partir das linhas que me fizeram porto. É como bebericar um pesado gole de chá…

Já não dependo mais das manhãs de sábado para escrever… mas, as respostas que escrevo continuam a se precipitar dentro de mim, muito antes de eu estar diante da folha de papel — da qual ainda sou dependente, tanto quanto dos envelopes coloridos — sendo uma cor para cada correspondente, que já não são tantos quanto antes.

Também já não existe mais a questão da espera e confesso que sinto falta desse gesto. Era delicioso passar pela caixa de correspondência, no portão de casa, com a ansiedade típica de uma criança em véspera de natal. Era bastante singular ser surpreendida com certos envelopes.

Eu tive muitos correspondentes… um deles — um signore português — confeccionava seus próprios envelopes em papel de pão. Durante anos, ele foi o meu contato com uma pequena cidade do mundo, que antes dele, eu nem imaginava existir. Ele me contava da esposa, a bordo de seus sessenta e poucos anos, os netos que passavam os fins de semana em sua casa e da filha, sempre ocupada e distante.

Em tempos modernos, as missivas dispensam carteiros e caixas de correspondência. Chegam rapidamente através do e-mail, redes sociais, posts e livros. Não me aborreço com a modernidade, mas sinto falta da ‘espera convertida em surpresa’ daqueles tempos…

E eu ainda preciso sentir as palavras brotando da ponta do grafite junto ao papel. Preciso ser noite, xícara de chá, silêncio, folha de papel, envelope, selo…

É minha pausa nessa realidade insistente e também nesse imaginário sempre tão agudo e pulsante. É meu delicioso instante de silêncio em que posso ouvir o som do meu cuore badalar minhas reticências… como disse Tarsila em suas missivas ‘aí vai o mio cuore’

bacio
L

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11 comentários sobre “Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

  1. ana paula disse:

    Sempre quis saber se alguém escrevia cartas a lápis. Nunca tive coragem de fazer essa pergunta, mas aqui a resposta corre: “as palavras brotando da ponta do grafite”. Eu precisava disto para minhas missivas.
    Agora, papel, apontador e lápis!
    Amei! Beijo.

    • Lunna Guedes disse:

      Oi Ana Paula, boa tarde. Seja bem-vinda e grata pelo seu olhar. Passei rapidamente por sua página e a deixei aberta aqui para voltar mais tarde, dentro da noite, para ler-te com calma, já que os dias são ágeis demais.
      Sim, escrevo com uma velha lapiseira pentel 0,5 que me segue desde a faculdade de psicologia.
      Não sei escrever diretamente na tela, preciso dos meus papéis. É a minha maneira de me deixar cortar. Quem sabe você não se torne minha correspondente…

      bacio

  2. Darlene R. Faria disse:

    Sinto falta de escrever missivas. Quando era menina, ganhei uma caneta de pena. Adorava mergulha-la no tinteiro e traças pacientemente letra por letra. Era uma caneta bem antiga que eu tinha afeição e que me despertava uma certa nostalgia de épocas em que não vivi, Entre as mudanças da vida, de uma cidade para outra, uma caixa minha com alguns livros se perdeu, e a caneta estava nela. Hoje o e-mail acabou substituindo o papel, mas mantenho o hábito de escrever rascunhos em um caderninho antes de digitar. Sinto falta de aguardar os correios, de dobrar o papel cuidadosamente e imaginar que minhas palavras serão lidas, tocadas, guardadas (ou não) em algum recanto.

    Beijos no coração.

    • Lunna Guedes disse:

      Nada melhor que o cheiro de um envelope recém-chegado. Eu adoro. Vez ou outra, chega um envelope por aqui, da turma que me conheceu no blogue e sabe da minha paixão por missivas.
      Lamento por sua caneta, minha cara. Eu ganhei uma de presente quando me graduei em psicologia, esta em Genova, entre livros. Mas nunca a usei porque tem um significado estranho para mim. rs

      bacio

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