Ainda o ‘quase’…

‘tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
Fases de vir para a rua’…

Cecilia Meireles

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Eu sei dos calendários e dos dias em fila — mas não sei absolutamente nada das datas que anunciam. Conheço sua sequência, em idiomas vários. Gosto imenso de Lunedi — em italiano. Miercóles — em espanhol. Friday — em inglês. Dimanche — em francês… mas preciso dizer que vivo perdida da realidade demarcada por humanos. Amanheço e anoiteço sem Norte. Se Lunedi ou Mardi, Miercólis ou Friday, Dimanche… quase sempre, tanto faz para a minha realidade que se organiza a parir do pôr-do-sol…

Por onde eu passo, no entanto, há sempre um calendário… atrás das portas, fixados nas geladeiras, presos nas paredes, em cima de mesas… com ilustrações, fotografias — sempre dispostos a me lembrar do dia da semana… do mês… do ano.

Mas, confesso que sempre considerei um equívoco… essa estranha mania humana de medir o tempo. Para mim, seria o bastante amanhecer e anoitecer… sem fusos — apenas fases… como a Lua…

…porque hoje em dia eu não sei o que fazer com os dias de domingo e seu cansaço de horas. Os sábados já não me conduzem as ruas com sacolas jeans — feitas a partir de calças e saias velhas. Não acordo cedo e tampouco vou a cozinha para beber uma xícara de leite caramelado e me sentar a mesa… povoada por papéis, envelopes, cadernos, livros e lapiseiras. As terças e quintas não são dias de arremessos…

Mas as segundas seguem sendo o dia da lua, do incenso, da vela acesa, da xícara de chá, da música mais calma, do passo ainda mais lento, da meditação, do livro novo, da poesia, de estar dentro e fazer silêncio…

Não sei quantas segundas ainda irei amanhecer… quantos sábados anoitecer, mas espero ter tempo para mais uma xícara de café e um punhado de rascunhos. Eu sei que em algum desses dias inventados pelo homem… o fim se escreverá no rodapé da minha figura, mas enquanto isso, repito meu mantra em voz alta: quase quarenta…

E roda a melancolia
Seu interminável fuso!

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Amizade a primeira vista…

Aprendi através de uma menina de olhos amendoados que existe: “amizade a primeira vista” e que é mais ou menos como um “amor a primeira vista”: a gente se reconhece, se estremece e, pronto…

Eu ainda me lembro do nosso primeiro encontro… ela com suas agitações e precipitações várias a me dizer um punhado de coisas impossíveis e eu, a oferecer o que eu sempre oferecia as pessoas: indiferença…

Ela foi minha primeira tempestade em muito tempo… seu sorriso se misturava ao meu e, seu olhar as vezes não sabia outra direção, que não os meus olhos. Eu a amei com afinco, mas a odiei um sem fim de vezes…

Certa vez, ao ler “orgulho e preconceito”, ela me disse: somos uma espécie de Lizzie e Darcy… ela me enlouquecia com suas frases tolas –  a parte disso, ela reclamava com frequência da minha seriedade… me tirava do sério com suas atitudes insensatas.

Ela era uma tormenta e, eu… naqueles dias, era apenas calmaria. Eu gostava de dias de chuva e ela de dias de sol. Amava janelas fechadas e, ela as escancarava na primeira oportunidade que tivesse…

Ela dizia com alguma frequência, que eu precisava sorrir mais e, talvez por isso, hoje o sorriso seja uma espécie de marca registrada em meu rosto, sendo uma espécie de eco desses dizeres que ainda reverberam em mim…

Recentemente, fez dez anos que nos vimos pela última vez… ela vestiu meu corpo, naquele meio de tarde, com seu abraço demorado-pesado no qual eu aprendi a me deixar ficar… sem restrições. Depois… deitou em meu rosto um beijo e ao olhar no fundo dos meus olhos disse que me amava.  Eu que tinha dificuldade em acreditar em pessoas, acreditei nela sem restrições… sorrimos juntas pela última vez… e depois disso, foram muitas as vezes, em que desejei, que fosse apenas a primeira!

Ela se foi… desde então, há dias – como hoje – em que eu sinto falta da acidez de seus comentários ruidosos. De seu olhar junto as minhas laterais… de seu passo lado a lado ao meu. De seu silêncio durante minha fala sem entusiasmo… de sua quietude junto a minha anatomia quando a melancolia era minha única pele. E de seu entusiasmo canino ao me encontrar pelos caminhos que partilhávamos… ela estava sempre de braços abertos pra mim!

Éramos duas… mas fomos apenas uma muitas vezes! E sempre que tropeço em figuras pelo caminho, encontro algo dela nas pessoas que observo e, talvez por isso eu me afaste gradativamente.

Eu sei que são figuras estranhas e, jamais serão diferentes disso… eu não as amo e jamais amarei… não por não serem ela, mas por serem apenas elas mesmas… e nada mais!

Uma porta que leva a outro lugar

comboio porugal

Caríssima A.,

…enquanto folheio sua missiva, observo a realidade em movimento do lado de fora desse comboio e me dou conta de que é novembro — e de que já se foram um punhado de dias desse mês que é meu Porto-Norte…

Trouxe comigo alguns rascunhos para revirar enquanto atravesso a paisagem porque gosto do som dos trilhos — esse fio condutor que me leva direto a infância, quando eu grudava os olhos na janela para observar a realidade em movimento — tudo era uma grande festa para os meus olhos.

Hoje, me distrai com a algazarra de crianças — como se fossem pássaros — em suas maratonas particulares. Animados, dão o melhor de si. Tenho para mim, que o maquinista deve ter pensado seriamente em reduzir a marcha… e deixá-los vencer.

Mas há um horário a cumprir… e com um apito sonoro, o gigante acelera sobre os trilhos, pouco depois da curva, deixando para trás os humanos em miniatura — vencidos, mas não derrotados… conquistaram acenos dos passageiros, que por alguns instantes regressaram à infância e sentiram seus músculos povoados por cansaço-alegria-e-a-certeza-de-que-nada-é-impossível… seguem a viagem com uma alegria nova que não vai durar muito, mas está lá em olhares reluzentes e sorrisos imensos.

Eu volto o olhar para os meninos a beira da linha… e os vejo se curvar exaustos sobre os joelhos por alguns minutos… pouco depois, voltam percorrem o caminho de volta, arrastando suas fragilidades. Tenho para mim, minha cara que eles tentarão de novo… quando outro comboio passar.

Já reparou que a realidade sempre encontra um meio e nos levar de volta a infância? Como se nos pedisse uma pausa nas coisas demasiadamente humanas e nos lembrasse… é possível. Só basta acreditar. O que me leva a seguinte questão: em que momento da vida a gente simplesmente deixou de acreditar?

Me despeço por aqui, mas a viagem continua..
Au revoir

Caindo de si mesmo, em si mesmo…

‘pois estou só e quero que o olvido
devolva aos dias tua leve sombra
para esta já cansada ostentação
de umas palavras em que a tarde esteja’.

jorge lui borges

Jorge Luis Borges en Palermo, foto Ferdinando Scianna (1984)02

Caríssima A.,

…aconteceu novembro em mim, no meio dessa tarde, enquanto observava a janela e a cidade em seu estado de pausa. Às vezes, parece que o tempo para e a vida não se atreve a sair do lugar… permanece imóvel, como se aguardasse algo a acontecer… um estalo, um estouro.

Hoje aconteceu um punhado de pesadas nuvens… vindas do mar — lentamente. Cobriu toda a cidade em minutos. Um vento insano rasgou a paisagem, invadiu a casa e cobriu minha pele de arrepios. Fechei os olhos e me esqueci dentro da pele. Choveu pesado dentro, fora e por todos os cantos da pele, da casa, da cidade…

Choveu como não chovia havia tempos… exatos doze meses. Me lembrei de ler em tua missiva — ‘já é quase novembro’ — e com ela ‘em mãos’ eu apenas ri… eram apenas palavras suas numa folha de papel… uma espécie de caminhar que não te leva para casa, sabe?

Eu e o calendário não temos qualquer entendimento… não sei como se organiza essa sequência de números insana, rotulados com seus nomes equivocados. Eu tenho meus próprios ritmos de vida e não-vida… minhas somas, meus rituais de ir e vir. No final do mês será meu ano novo. No final do ano, será apenas troca de calendário. Não vou estourar champanhe, soltar fogos, fazer festa, promessas, pular sete ondas. Vou assistir de novo o mesmo filme, ler o mesmo livro e agarrar-me a pele daquele que já se acostumou aos meus desfeitos…

E Novembro — esse novelo de lã — aconteceu apenas hoje… justamente quando chovia fortemente por cima da cidade. Eu me encolhi em mim mesma… e de meu canto de mundo, revisitei cada um dos meses desse meu ano. Fui revendo meus lugares-paisagens… passando a limpo os fatos que a memória escolheu guardar…

São trezentos e tantos dias… você sabe… não há como guardar tudo. Algo sempre se perde, mas eu não faço idéia de como se orienta essa escolha. Você sabe? Deveria ser como os livros de poesias que trago comigo. Pela manhã, eu abri o livro de Borges — o outro, o mesmo — e a poesia da página ficou em mim.

Au revoir

L.

A pessoa que não somos…

 

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —


À você…

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente e quase me escapou do olhar… distraída que estava — como sempre. Alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco… e o desejo de ter em mãos um copo branco — venti — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa… a desviar do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis… você parece um daqueles malabaristas que esperam fechar o sinal para se apresentar a uma pláteia de desinteressados.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância segura… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro, que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim…

Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário. Me encantei com seus traços e a idéia de “desenhá-la”. Seus passos me fascinaram… seu olhar e sua intensidade — sempre um grau acima.

Você me fez perceber, que o não saber, é o melhor dos ingredientes… porque enquanto você esteve do lado de fora… a ocupar sua mesa e a embalar seu par de horas confusas — você era como o aroma do café, que seduz antes mesmo do primeiro gole! No entanto, depois que veio se juntar a mim, com suas confusões, palavras equivocadas e a realidade de todas as suas coisas: cruel e desumana — passou a ser uma xícara de café amanhecido, esquecido no canto da mesa…

Mas, ao percorrer uma mesma calçada tempos depois… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: quando foi que fomos algo diferente disso?

Deixei-te em tempo e espaço, e você fez o mesmo comigo…
Amém

Ps. Só me incomoda a sensação de perda… do que poderia ter sido um grande personagem.

Au revoir

L.