Naqueles dias, eu só queria saber – inevitavelmente – do dia seguinte!

dia seguinte

Ele tinha belos olhos castanhos, agudos… os cabelos dourados de sol e o mais belo dos sorrisos. A., era um menino quieto, de poucas falas e, gentil… como poucos meninos sabem ser.

Nos encontramos em sala de aula… dividimos a mesma mesa e trocamos olhares enviesados-rápidos seguido por um cumprimento silencioso — quase mudo. Eu gostava de espiar a sua caligrafia arredondada e ele se divertia a observar a minha dificuldade de canhota, obrigada a escrever à mão direita. Para ele era tão fácil o movimento, enquanto para mim era quase impossível. A raiva amarrava os músculos e nervos tornando o movimento ainda mais complicado…

Certa vez A., — num gesto de menino — trouxe em mãos… uma margarida branca-miúda… a mais bela das flores. Tinha colhido em um jardim a caminho da escola. Não disse palavra… apenas realizou o delicado gesto: entregou a primavera em minhas mãos de menina…

Nos tornamos amigos-cumplices… dividíamos o lanche, o olhar, o sorriso e a vida mínima. Ele gostava de escrever versos, sabia rimar toda e qualquer palavra e eu achava divertido as invencionices que ele fazia. Mas eu preferia as frases inteiras, demoradas…

Éramos os únicos da turma de doze crianças a saber ler e escrever… os demais se limitavam ao monótono jogo de riscos e rabiscos…

Descobri através dele que gostava mais de meninos que meninas… elas eram barulhentas e brigavam por qualquer coisa ou motivo. Não gostavam de sujar as preciosas roupas e sapatos. E adoravam bonecas — objeto que eu sempre detestei.

Os meninos eram arteiros, audaciosos… e viviam com as roupas sujas, a pele rasgada e os sorrisos era imensos. Eles escalavam árvores… tinha brinquedos mais divertidos e combinavam artimanhas singulares. Vez ou outra tinha olhares furiosos, caretas engraçadas e troca de socos… com certeza eu gostava mais deles.

A., me dava a mão no caminho de casa e dizia que eu era a menina mais legal do mundo… eu corava e convivia com um sem-fim de pontadas na boca do estômago. O coração disparava. Os olhos arregalavam-se e as comichões se multiplicavam na pele, espalhando velozmente pelas veias, nervos e músculos.

Eu me alegrava facilmente em sua presença — o corpo todo era uma festa — mas, quando ele ia embora, deixava em mim o desespero do fim-do-mundo. Revia seus traços em minha mente… e me via imersa num confronto alucinado contra o tempo.

Naqueles dias, eu só queria saber — inevitavelmente — do dia seguinte!

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5 comentários sobre “Naqueles dias, eu só queria saber – inevitavelmente – do dia seguinte!

  1. Lua Nova disse:

    Gosto de te ler e pensar em mim enquanto o faço. Gosto de imaginar como seria você escrevendo minhas lembranças. Acho que seriam melhores. Eu quando penso na minha infância, juventude, é tudo tão comum. Você parece tão Jane Austen. rs
    Como você me diz: gosto imenso disso

    Bacio.

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