A Construção da Primavera | Inverno

‘Ainda sobre a queda da árvore. Todos comentam que foi a consequência da reforma no imóvel antigo, onde plantada. Abalou suas raízes.

Não posso ignorar essa informação, já que propus a mim mesma uma reestruturação durante quatro estações. Medo de, ao final, desabar sobre meus próprios escombros’.

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A vida não para… por mais clichê que essa frase seja…  porque estamos sempre em movimento. Mesmo que abracemos a ilusão de não-ação… algo em nós sempre se movimenta. Seja o pensamento a impulsionar uma vontade. O coração a bombear o sangue. O cérebro a impor espasmos nos músculos e nervos… ou a boca em propulsão de falas inóspitas.

Pode existir uma vírgula, um ponto e vírgula ou até mesmo um ponto final… mas a vida, no essencial se assemelha a um monólogo… estamos sozinhos no meio do palco, diante de uma platéia de curiosos, prestes a se inflamar…

Com a cortina prestes a se abrir, entramos em pânico… não sabemos tudo que é preciso saber. ‘Não há tempo. Não há tempo. Não há tempo’ — é a nossa melhor fala. E a cortina se abre para um punhado de olhos impávidos-silenciosos-e-tirânicos. Sabemos o que esperam: o fracasso. Nada além disso… e a verdade é que é muito fácil agradar… porque é só o que temos.

Alguns de nós, no entanto, conscientes de tal condição… reage! E para surpresa e fúria da platéia — alcança o tal lugar a sombra, que é para poucos: o sucesso. Os aplausos explodem. Alguns replicam o famoso ‘bravo’. Há quem se levante, obrigando os demais ao mesmo movimento… mas, em pé, anunciam uns com os outros em conversas que são abafadas pelos aplausos: ‘foi sorte’.

não existe trabalho, dedicação, entrega, cansaço, tormento, desconforto. Apenas sorte… porque é tudo que precisamos.  Jogamos uma moeda no ar e escolhemos: cara ou coroa? E aguardamos pela sorte que pode ser minha ou sua…

Um autor quanto se debruça sobre o papel faz justamente o contrário… ele rompe com o ar, o tempo, o espaço. Discursa com a parede, o espelho, o travesseiro… observa os personagens contemporâneos e ‘fatia a realidade’… em cenas onde desfilam um sem-fim de fragilidades, que nos afronta e faz perceber, que a vida não para… mesmo que o ‘não-tempo, a não-ação’ tenha mais espaço em nós, que deveria…


‘Passo pela rua em que, há um ano, a parede de uma construção desabou, matando um homem que caminhava pela calçada. O mesmo fato se repete em outros bairros: são casarões do século XIX, derrubados para dar lugar a prédios comerciais ou estacionamentos. A fachada é preservada e o passado é descartado.

Progresso: nossa história em ruínas; sobrevivemos, como uma maquete oca’.


Trechos do livro ‘a construção da primavera’ de Adriana Aneli…  a platéia interessada, pode adquirir ingresso para o espetáculo clicando aqui…

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