A pessoa que não somos…

 

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —


À você…

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente e quase me escapou do olhar… distraída que estava — como sempre. Alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco… e o desejo de ter em mãos um copo branco — venti — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa… a desviar do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis… você parece um daqueles malabaristas que esperam fechar o sinal para se apresentar a uma pláteia de desinteressados.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância segura… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro, que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim…

Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário. Me encantei com seus traços e a idéia de “desenhá-la”. Seus passos me fascinaram… seu olhar e sua intensidade — sempre um grau acima.

Você me fez perceber, que o não saber, é o melhor dos ingredientes… porque enquanto você esteve do lado de fora… a ocupar sua mesa e a embalar seu par de horas confusas — você era como o aroma do café, que seduz antes mesmo do primeiro gole! No entanto, depois que veio se juntar a mim, com suas confusões, palavras equivocadas e a realidade de todas as suas coisas: cruel e desumana — passou a ser uma xícara de café amanhecido, esquecido no canto da mesa…

Mas, ao percorrer uma mesma calçada tempos depois… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: quando foi que fomos algo diferente disso?

Deixei-te em tempo e espaço, e você fez o mesmo comigo…
Amém

Ps. Só me incomoda a sensação de perda… do que poderia ter sido um grande personagem.

Au revoir

L.

Anúncios

4 comentários sobre “A pessoa que não somos…

  1. Lua Nova disse:

    Ai Catarina, seu texto me fez refletir muito sobre os que passaram por mim, deixaram sua marca e sumiram no espaço deixando apenas lembranças que o tempo se encarrega de desbotar. Também fico espantada com a naturalidade que isso se torna.

    Bj

  2. Mariana Gouveia disse:

    Quando vejo falar em mesa no canto me volto – e isso é um alento para os dias ruins – lá, há dois anos atrás a mesa no canto e todas as pessoas viraram personagens dentro de mim…
    Mas, uma das principais era você e aquele dia nunca foi descrito…

    Bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s