3 – Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

“Quando a ausência de mim fizer presença em meu ser…
visitarei a mim mesmo para não me afastar de você”

Rubem Alves

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Caríssima A.,

…esperei por você na semana que passou, mas você não veio! O que me levou de encontro aos rituais, que coleciono dentro e aos quais voltei… um a um. O prédio tem uma dessas caixas de correspondências coletivas. E eu a visitei, consciente de que não encontraria ali… naquele cenário frio… um envelope seu. Toquei a superfície metálica daquela estranha caixa de correspondência, que são pequenas janelas desse lugar… onde atualmente vivo.

Não é um espaço para correspondências… apenas contas e pequenos panfletos publicitários tem lugar ali. E talvez por isso tenha sido possuída por uma vontade-remota: escrever uma missiva para cada uma daquelas “janelas”.

A criança que habita o interior de minha pele sorriu… e eu voltei a dar aos pés o colorido dos passos… pelos caminhos de sempre. Obviamente inúmeros desenhos foram feitos nessa folha de papel imaginária, que sou… e voltei a pensar em você, nas linhas que não foram escritas…

Não sei porque você não veio! Talvez por ser dezembro… esse mês insano, que nos priva de nós mesmos e obriga a tolerar excessos.

Eu tenho alguns dezembros talhados na memória… a maioria deles pertencem a minha juventude. Eram todos brancos e povoados por uma ansiedade ímpar… malas-bilhetes-de-viagem… a plataforma da estação, o sonoro apito da locomotiva ao se aproximar da estação e a voz grave do Guarda a dizer: ‘todos a bordo’. O som dos trilhos… as vozes dos diálogos e as paisagens em movimento junto as janelas. As muitas chegadas e partidas… eu gostava imenso desse ritual de dezembro que agora revejo e revivo, nesse nosso diálogo de linhas.

O mio nono não ligava para datas, caríssima… difícilmente sabia o mês do ano, o dia da semana. Ele nem mesmo era cristão. Por isso não me causou espanto sua confissão, feita a mesa, pouco depois de um brinde — ele não sabia a história do “tal menino Jesus”.

Eu precisei engolir o riso… diante da indignação dos demais habitantes da mesa – em plena véspera de Natal…

O nono se importava mesmo… era com a casa e a mesa cheia. Ele espiava — satisfeito — os olhares… provava um a um dos sorrisos  e ouvia — atentamente — os diálogos, em pares. Em sua generosa porção de mundo-vida — do outro lado da mesa — eu assistia e compreendia a sua felicidade — era como se sua vida inteira fizesse sentido.

Certa vez — durante uma caminhada — ele me confessou, que esperava por dezembro — desde a infância — com a mesma intensidade. E, enquanto caminhava ao seu lado… não consegui saber se o que o encantava de fato… era o momento ou o instante que o antecedia…

Saber esperar é uma arte, que nos permite inúmeros aromas! — não fosse a espera, talvez essas linhas ficassem aqui dentro para todo o sempre…

Au revoir

2 – Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas…

Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.

Georg Trakl, “Outono Transfigurado”,

 

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Caríssima AA,

…a paisagem amanheceu esbranquiçada por aqui e eu fiquei a espiar os prédios amontoados ao longo das vias por alguns segundos, enquanto percorria as linhas de sua última missiva, pela qual esperei, como no tempo de minha juventude…

Gosto de observar os elementos urbanos, embalada por frases que conversam comigo no silêncio de meu olhar e na quietude dos meus gestos… e me sentir conduzida por uma espécie de vôo pela paisagem. Já lhe disse que, às vezes, me sinto uma gaivota a zombar dos humanos em seus vôos sobre o mar? Essa é uma das lembranças antigas que trago na memória…

Mas, ao contrário dessa maravilhosa ave, meu mergulho se dá nas muitas janelas a dizer realidades infinitas e a narrar um punhado de histórias dissolutas. Imaginar as facetas que se escondem por trás de cortinas coloridas é o mesmo que tragar um pesado gole de vinho branco… pouco depois de um brinde, que não resvala em outra taça. Fica no ar… em suspenso… dentro dos olhos, como a gaivota, que sobrevoa sua unidade de ar…

É quase verão, minha cara… mas a chuva despejou qualquer coisa de outono por toda a cidade… que parece embriagada por essa fina camada de névoa-garoa, que me remete aos dias, em que dezembro era um mês branco… e pediam xícaras quentes entre as mãos, mantas aquecidas para os pés, luvas de lãs para as mãos e uma bela acha em chamas, na lareira.

É dezembro… quase natal, fim de ano… tudo isso junto, mas ao contrário de você, não penso pessoas… porque o calor tropical me causa imenso cansaço e acaba com a pouca paciência, que resta em meus flancos. Fica mais difícil aturar os humanos e suas tolices de ocasião…

Alguns já começaram a tecer as insuportáveis listas de fim de ano por aí… os melhores livros-filmes-lugares… do ano. Não entendo essa mania de somar o melhor e o pior da realidade… eu não seria capaz de te dizer o que foi melhor ou pior… em 2016. Me causa preguiça pensar em analisar tudo que fiz ou deixei de fazer. E daqui a pouco começam as promessas – aquelas que nunca serão cumpridas, mas que todo mundo faz.

Eu sei dizer pouco ou nada a respeito do ano que se esvai a cada dia… li bem menos do que eu gostaria. E não posso me limitar a dizer que foi por ‘falta de tempo’. Afinal, a leitura é parte integrante do meu trabalho. Faltou ânimo-vontade-disposição. Ver tantos livros coloridos… amontados nas ilhas das livrarias… foi fator determinante. Várias vezes eu saí com as mãos vazias das Livrarias Cultura, Leitura e da Vila… algo pouco comum a uma pessoa viciada em livros.

Fui poucas vezes ao cinema… porque a ‘sétima arte’ nesse ano par, resolveu contar as mesmas histórias, sob a perspectiva de diferentes diretores. Não foi o bastante para me fazer sair de casa  e enfrentar as ruas dessa São Paulo, cada vez mais habitadas por máquinas. Acabei por permanecer a casa, nas noites de sábado. Vi o que já tinha visto milhares de vezes e não lamentei. Me aconcheguei nos bons e velhos clássicos ‘singing in the rain’ e ‘an affair to remember’… e na versão francesa de ‘pride and prejudice’ um sem-fim de vezes… e confesso que preservo a sensação de ‘primeiríssima vez’.

Uma coisa, no entanto, ganhou imenso destaque nesse ano par, prestes a caducar… as pessoas estão cada vez mais pobres… imersas em falsas lógicas-certezas-conhecimentos-rótulos… limitadas ao próprio umbigo. O preconceito parece um vírus a infectar mais e mais pessoas, que continuam experts em apontar os erros e defeitos… nos outros. O dedo segue em riste. Os diálogos cada vez mais escassos e pautados por uma necessidade desconfortável de estar sempre certo.

A tão anunciada crise, só serviu para escancarar essa infeliz realidade que grita: ‘ainda somos os mesmos e vivemos’… mas não posso dizer ‘como nossos pais’. Tenho para mim, que eles não eram tão retrógrados.

O que me leva a questionar: como se desengata essa ré, minha cara?


Au revoir.

1. caminho… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

“Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei”

Álvaro de Campos

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Carissima A.

 

…quando acontece dezembro no calendário e vejo o sol tingir a cidade com o seu dourado gasto, demasiadamente iluminado… sinto o cansaço se apoderar dos meus músculos e nervos. Evito as ruas e suas multidões… evito o passo e, em alguns dias, evito também o pensamento porque tudo dói nessa estação… do corpo à alma — e eu me aborreço facilmente.

Recorro ao amigo-mestre Campos, lido tantas vezes ao longo dos últimos anos… ‘leitura perfeita’ para os dias de verão.

Minhas leituras são sazonais, minha cara.  Jane Austen é para o outono, assim como são os poemas de Emily Dickinson, Sexton… Mia Couto e seus contos… eu leio no verão, por me remeter as férias de minha infância, quando me juntava à mesa com os meus… e ouvia o nono tagarelar impassível suas histórias. Ele era um contador de causos… um ilustre marinheiro de si mesmo.

Campos e sua ‘passagem das horas’ aconteceu em minha realidade através de um menino-homem, que dizia ter sua dor tatuada nos versos desse homem-personagem de Pessoa. Ele rabiscou na própria pele alguns de seus versos: ‘é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas’…

Eu tinha preferência pela poesia de Caeiro até então… porque ele parecia falar, em seus versos, do homem que eu aprendia… enquanto crescia. Mas quando ouvi a voz rouca do meu menino-homem rasgar no ar,  os versos sagrados de Campos ‘trago dentro do meu coração, como num cofre que se não pode fechar de cheio… todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei, todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, ou de tombadilhos, sonhando… e, tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero’ — foi como compreender o abismo que trazia dentro. A escuridão se iluminou por um relâmpago, que surgiu pouco depois de um estrondo…

Foi no verão de dois mil e três que encontrei o meu livro sagrado de Campos ao andar pela Barão de Itapetininga… no velho centro paulistano. Esbarrei numa dessas livrarias que já não existem mais… e ao percorrer as prateleiras, me deparei com o livro recém-lançado pela ‘companhia das letras’… que já está velho e as páginas gastas. As poesias se misturaram as minhas anotações… e eu já troquei o plástico, os post it que marcam as minhas páginas favoritas, e ao ver as ruas ‘alagadas’ de sol… volto a ele e me tranco dentro, onde escrevo essas linhas a ti, porque o outro já não pode receber meus envelopes. Como se dizia na infância ‘virou estrela nesse céu de amanhã’

Au revoir

‘Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos,
de ficar no chão, de sair Para fora de todas as casas,
de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs’…

Álvaro de Campos

…último capítulo de 2016!

 

DD Sao Paulo, SP 10/ 12/2014 DECORACAO DE NATAL Pontos da cidade de SP com mais enfeites de Natal segundo a SPTuris. Avenida Paulista. Foto LUIS BLANCO / DIARIO SP

Noite de dezembro… a primeira — estranhamente fria, aconchegante. Starbucks, outra vez. O latte de sempre… o canto da mesa. Os livros ficaram a casa. Nem Borges, Eliot ou Baudelaire vieram comigo. O trabalho ficou para depois… outra semana-vida-momento. Para hoje apenas as missivas e nos intervalos das leituras… o pensamento no dia seguinte — o ano que vem, que será novo-e-velho, como de costume…

Senti, no meio da tarde, saudade de outros tempos, quando dezembro significava um mês em branco. Era tempo de descer as mantas e os casacos da parte alta do armário… sair para comprar lã e sentar-se na sala de leituras para confeccionar luvas. Chamar o signore T., e seu velho macacão jeans com os bolsos repletos de ferramentas, para reparar as janelas e a calefação da casa… e, finalmente, rever o silêncio da rua, das casas, da penumbra dos candeeiros.

Nesses dias, quando caia a noite… eu grudava os olhos nas vidraças e sentia crescer a vontade de vagar sem destino pelo meio da rua e seu cinza-noite… falsamente iluminado pelo dourado das lâmpadas no alto dos postes.

Era tempo de caldos quentes, taças de vinho, chocolate quente e todas aquelas receitas deliciosas da infância, que não posso fazer nesse dezembro tropical que só me faz pensar em saladas, caldos frios e bebidas geladas…

Dezembro desse lado do atlântico é um mês multi-colorido… aquecido e dissonante, que seguem sem ressoar em minha pele. Após uma década inteira em Sampa, eu me limito a fechar o livro e devolvê-lo a prateleira da memória. É ponto final nessa história, que se escreve em doze capítulos…