1. caminho… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

“Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei”

Álvaro de Campos

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Carissima A.

 

…quando acontece dezembro no calendário e vejo o sol tingir a cidade com o seu dourado gasto, demasiadamente iluminado… sinto o cansaço se apoderar dos meus músculos e nervos. Evito as ruas e suas multidões… evito o passo e, em alguns dias, evito também o pensamento porque tudo dói nessa estação… do corpo à alma — e eu me aborreço facilmente.

Recorro ao amigo-mestre Campos, lido tantas vezes ao longo dos últimos anos… ‘leitura perfeita’ para os dias de verão.

Minhas leituras são sazonais, minha cara.  Jane Austen é para o outono, assim como são os poemas de Emily Dickinson, Sexton… Mia Couto e seus contos… eu leio no verão, por me remeter as férias de minha infância, quando me juntava à mesa com os meus… e ouvia o nono tagarelar impassível suas histórias. Ele era um contador de causos… um ilustre marinheiro de si mesmo.

Campos e sua ‘passagem das horas’ aconteceu em minha realidade através de um menino-homem, que dizia ter sua dor tatuada nos versos desse homem-personagem de Pessoa. Ele rabiscou na própria pele alguns de seus versos: ‘é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas’…

Eu tinha preferência pela poesia de Caeiro até então… porque ele parecia falar, em seus versos, do homem que eu aprendia… enquanto crescia. Mas quando ouvi a voz rouca do meu menino-homem rasgar no ar,  os versos sagrados de Campos ‘trago dentro do meu coração, como num cofre que se não pode fechar de cheio… todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei, todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, ou de tombadilhos, sonhando… e, tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero’ — foi como compreender o abismo que trazia dentro. A escuridão se iluminou por um relâmpago, que surgiu pouco depois de um estrondo…

Foi no verão de dois mil e três que encontrei o meu livro sagrado de Campos ao andar pela Barão de Itapetininga… no velho centro paulistano. Esbarrei numa dessas livrarias que já não existem mais… e ao percorrer as prateleiras, me deparei com o livro recém-lançado pela ‘companhia das letras’… que já está velho e as páginas gastas. As poesias se misturaram as minhas anotações… e eu já troquei o plástico, os post it que marcam as minhas páginas favoritas, e ao ver as ruas ‘alagadas’ de sol… volto a ele e me tranco dentro, onde escrevo essas linhas a ti, porque o outro já não pode receber meus envelopes. Como se dizia na infância ‘virou estrela nesse céu de amanhã’

Au revoir

‘Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos,
de ficar no chão, de sair Para fora de todas as casas,
de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs’…

Álvaro de Campos

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8 comentários sobre “1. caminho… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

  1. Frasco de Memórias disse:

    Gostei muito, Lunna, da ideia de literatura sazonal, é mesmo!
    E o mais misterioso… também eu gostava mais de Caeiro até acordar para Campos; foi pela mão de um ator português, João Grosso, e de uma cantora vossa: Betania.
    Bacio!

    • Lunna Guedes disse:

      Ah, Betania… essa dama é realmente impressionante, minha cara. Já a ouvi declamar Campos e também Caeiros. Amo os dois igualmente… mas Campos toca a pele, a alma, invade e fica e me faz em pedaços. Depois junta tudo e diz se vira. rs

      bacio

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