2 – Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas…

Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.

Georg Trakl, “Outono Transfigurado”,

 

 gosto-de-ficar-nas-sombras-das-coisas-e-no-segredo-delas

Caríssima AA,

…a paisagem amanheceu esbranquiçada por aqui e eu fiquei a espiar os prédios amontoados ao longo das vias por alguns segundos, enquanto percorria as linhas de sua última missiva, pela qual esperei, como no tempo de minha juventude…

Gosto de observar os elementos urbanos, embalada por frases que conversam comigo no silêncio de meu olhar e na quietude dos meus gestos… e me sentir conduzida por uma espécie de vôo pela paisagem. Já lhe disse que, às vezes, me sinto uma gaivota a zombar dos humanos em seus vôos sobre o mar? Essa é uma das lembranças antigas que trago na memória…

Mas, ao contrário dessa maravilhosa ave, meu mergulho se dá nas muitas janelas a dizer realidades infinitas e a narrar um punhado de histórias dissolutas. Imaginar as facetas que se escondem por trás de cortinas coloridas é o mesmo que tragar um pesado gole de vinho branco… pouco depois de um brinde, que não resvala em outra taça. Fica no ar… em suspenso… dentro dos olhos, como a gaivota, que sobrevoa sua unidade de ar…

É quase verão, minha cara… mas a chuva despejou qualquer coisa de outono por toda a cidade… que parece embriagada por essa fina camada de névoa-garoa, que me remete aos dias, em que dezembro era um mês branco… e pediam xícaras quentes entre as mãos, mantas aquecidas para os pés, luvas de lãs para as mãos e uma bela acha em chamas, na lareira.

É dezembro… quase natal, fim de ano… tudo isso junto, mas ao contrário de você, não penso pessoas… porque o calor tropical me causa imenso cansaço e acaba com a pouca paciência, que resta em meus flancos. Fica mais difícil aturar os humanos e suas tolices de ocasião…

Alguns já começaram a tecer as insuportáveis listas de fim de ano por aí… os melhores livros-filmes-lugares… do ano. Não entendo essa mania de somar o melhor e o pior da realidade… eu não seria capaz de te dizer o que foi melhor ou pior… em 2016. Me causa preguiça pensar em analisar tudo que fiz ou deixei de fazer. E daqui a pouco começam as promessas – aquelas que nunca serão cumpridas, mas que todo mundo faz.

Eu sei dizer pouco ou nada a respeito do ano que se esvai a cada dia… li bem menos do que eu gostaria. E não posso me limitar a dizer que foi por ‘falta de tempo’. Afinal, a leitura é parte integrante do meu trabalho. Faltou ânimo-vontade-disposição. Ver tantos livros coloridos… amontados nas ilhas das livrarias… foi fator determinante. Várias vezes eu saí com as mãos vazias das Livrarias Cultura, Leitura e da Vila… algo pouco comum a uma pessoa viciada em livros.

Fui poucas vezes ao cinema… porque a ‘sétima arte’ nesse ano par, resolveu contar as mesmas histórias, sob a perspectiva de diferentes diretores. Não foi o bastante para me fazer sair de casa  e enfrentar as ruas dessa São Paulo, cada vez mais habitadas por máquinas. Acabei por permanecer a casa, nas noites de sábado. Vi o que já tinha visto milhares de vezes e não lamentei. Me aconcheguei nos bons e velhos clássicos ‘singing in the rain’ e ‘an affair to remember’… e na versão francesa de ‘pride and prejudice’ um sem-fim de vezes… e confesso que preservo a sensação de ‘primeiríssima vez’.

Uma coisa, no entanto, ganhou imenso destaque nesse ano par, prestes a caducar… as pessoas estão cada vez mais pobres… imersas em falsas lógicas-certezas-conhecimentos-rótulos… limitadas ao próprio umbigo. O preconceito parece um vírus a infectar mais e mais pessoas, que continuam experts em apontar os erros e defeitos… nos outros. O dedo segue em riste. Os diálogos cada vez mais escassos e pautados por uma necessidade desconfortável de estar sempre certo.

A tão anunciada crise, só serviu para escancarar essa infeliz realidade que grita: ‘ainda somos os mesmos e vivemos’… mas não posso dizer ‘como nossos pais’. Tenho para mim, que eles não eram tão retrógrados.

O que me leva a questionar: como se desengata essa ré, minha cara?


Au revoir.

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4 comentários sobre “2 – Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas…

  1. Adriana Aneli Costa Lagrasta disse:

    Privilégio é dividir neste exato momento da mesma névoa cinza e chuva forte que tornou nossa São Paulo surreal nesta manhã de dezembro. Enquanto me perco nas fantasias do que foi, do que poderia ter sido, do que não poderia ter sido pior neste nosso 2016, percebo que a maior de todas as alegrias – nossa troca de correspondência – obnubila tudo o que não teve a menor graça. E assim caminho confiante para 2017… já riscando no papel, a próxima missiva.

  2. Darlene R. Faria disse:

    Ler teus escritos é sempre um deleite! Entretanto, desta vez ri, de mim para mim mesma, quando você citou a questão das listas! Eu estava preparando uma série de postagens com esse tema para fechar o ano de 2016! Acabei de programar a postagem da primeira para hoje no início da noite…

    Um beijo, com carinho

    Darlene

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