A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer

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Caríssima AA,

Quando suas linhas chegaram, no meio da tarde de ontem,  devidamente acomodadas, no envelope azul… estava a ler Rubem Alves e sua escrita amena e certeira. Ele escrevia como se estivesse sentado à mesa da cozinha, a esperar pela xícara de café fresco, preparado a moda antiga, em bule de ferro. Ele foi um desses meninos do campo… com árvores de frutas, chão de terra, estendal ao vento, fogão de lenha, e o silêncio de um lugar a céu aberto. Cidade pequena, a rotina e o tempo rural,  a conexão com os ciclos, a vida atrelada a morte.

Ele dizia,  em seu texto ‘a hora da poesia‘… ‘há de se saber o tempo do poema. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer. Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio‘.

Em dias de contemporâneo existir, onde os excessos e as faltas se embalam num mesmo papel de pão… recordei o meu encontro com a poesia. Há pessoas que nascem na poesia — diz Rubem — como Fernando Pessoa, Baudelaire, Borges, Eliot, Mario…  mas eu tive que encontrá-la nas páginas de um pequeno livro — um presente — de capa verde, com versos de Amália Rosselli, Plath, Sexton e outras tantas… ainda na infância. E desse encontro nasceu aquela sensação de ‘estomago vazio’…

A poesia,  quase sempre, me cala-rasga-engasga-incendeia-acalma. É aquele pequeno intervalo entre soluços. Eu leio cada um dos versos em voz alta, pelos cômodos da casa,  calçadas da cidade… uma, duas, três vezes — exatamente como faço com sua missiva e a resposta que alinhavo nesse meu canto de mundo-vida-memoria-espaço. São minhas músicas e ao ouvi-las, o cuore imita o som mais antigo que trago em mim… fecho os olhos e volto no tempo, percorro as distâncias conhecidas. O tempo é outro, muito mais rápido… insano! Revejo a rua, com suas casas antigas, suas pessoas há muito perdidas. Aceno, ultrapasso o velho portão de ferro e seu conhecido barulho e me deparo com a velha figura do ‘móvel articulado’ no meio da parede… esse mio cuore. Sinto o cheiro do lugar, percorro os espaços com algum cuidado e alcanço a todos na cozinha, ainda vivos. ainda meus…

Sim,  minha cara,  nesse estranho  tempo em que tudo é barulho,  ruído, gritos e a poesia parece muda, eis que espero por ti para esse diálogo silencioso… e você vem, em azul!

Janeiro quase se foi — percebeu? Falta pouco… e nesse ano — o primeiro capítulo — as quietudes da Paulicéia foram poucas —  vivi dias de carnaval antecipado. Uma loucura. Que venha fevereiro — o segundo capítulo — e seus enredos de fim de verão… por aí dizem que o tempo está a ir mais devagar. Mas se a marcha desse Senhor está mais lenta, somos nós, que não conseguimos dar conta dos nossos passos?

Au revoir

4 – Porque a morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao bater dos segundos?

 

“AS PALAVRAS DO ANO PASSADO
PERTENCEM À LINGUAGEM DO ANO PASSADO;
E AS PALAVRAS DO PRÓXIMO ANO
ESPERAM POR OUTRA VOZ”…

– T.S.ELIOT –

Caríssima A.,

…ainda ouço o espocar dos fogos na última hora, o estouro das rolhas e o tirintintar das taças nas casas, em meio a abraços, sorrisos e um bom quinhão de desejos manifestados. Velhas promessas são refeitas, algumas simpatias também: há quem coma lentilhas, quem guarde sementes de romã, coloque folhas de louro na carteira e espigas de milho atrás da porta… e em meio a tudo isso ‘nasce’ o ano novo! Eu me divirto com o último segundo da contagem regressiva — me calo, porque não faço parte da turbamulta, que pula, grita, canta, se veste de branco, lança oferendas ao mar, faz promessas que não serão cumpridas. Os meus rituais são outros.

Gosto de pesar os dias, medir as horas… é como fechar um livro após chegar ao fim da leitura. Última página… tudo em suspenso. Ando pela casa com os personagens e suas histórias grudados na alma. Revejo as cenas, os lugares… questiono as escolhas e, em alguns casos, me recuso ao final que ali se encerra, como no livro “a elegância do ouriço”, que na última semana do ano, voltou a me fazer companhia…

Dois mil e dezesseis foi um ano estranho — não foi bom, mas também não foi ruim. Mas eu acusei cansaço dentro de seus ‘trezentos e tantos’ dias… como nunca antes… e, ainda não acabou porque há um pouco de dezembro, em minhas laterais. De novembro e de todos os outros meses, que ainda não foram devidamente degustados por mim, porque eu sou feita de pequenos e demorados goles…

Dois mil e dezessete — esse caderno novo — vai chegar aos poucos, ao seu tempo… consciente de que, a mão que escreve é exatamente a mesma… e a única promessa que faço a mim mesma é de que darei o meu melhor, para cada um de seus doze capítulos.

Considero Janeiro o seu prelúdio… e ouso denominá-lo ‘fleurs du Mal por ser o tempo de aproveitar São Paulo, que nesse mês,  é de fato uma cidade — mais humana, menos mundana… como se, por ser seu aniversário, se sentisse a vontade, para convidar apenas os seus… para a festa. Mas, para não ser tudo tão perfeito: é verão e suas ruas ardem com suas altas temperaturas, que mudam a cor, o aroma e a textura dos lugares.

Ao menos, é a estação das tempestades, com suas nuvens densas, clarões em meio a densa escuridão e fortes trovões em meio a densa escuridão e fortes trovões a fazer estremecer a realidade. Avanço na companhia de Baudelaire, Mário e Susan (sontag) que conversa comigo, em seu diário, onde ficção e realidade são uma mesma coisa… e, daqui a pouco muda o capítulo!

É minha cara, ‘feliz ano novo’… enquanto ainda é novo! Aproveito para desejar que seus capítulos sejam um olhar demorado no espelho, a refletir os versos favoritos.

au revoir