Diário das minhas insanidades, 10

“existir à sombra de alguém é a mais difícil das artes — porque significa que estamos a olhar constantemente em um espelho”
Lacan

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A caminho de meu encontro semanal com W., observava o chão onde minha sombra perfazia seu traço comum, enquanto relembrava a conversa da sessão anterior, quando sutilmente — de seu canto de mundo-vida, ocupando seu papel comum na realidade que lhe cabe — me questionou: “quem é a sua sombra?”… 

Eu fiz silêncio, respirei fundo e visitei minha vida inteira — trinta e cinco anos — em poucos segundos… e de imediato, me lembrei de um sonho dentro da noite passada, que me fez sentir imensa falta dos diálogos-abraços-olhares de C.

Recordei as manhãs de sábado, vividos em sua companhia, as caminhadas pelo bairro até o mercado. A vi preparar os vasos da casa, com suas flores favoritas. Ouvi sua voz imersa em pequenas pausas, a narrar seus contos favoritos. A tomar nota de sua realidade nas páginas de amarelecidos tons de seu moleskine. A escrever missivas, em brancas folhas… e esperar pelo babo, no final de mais uma tarde, sentada no último degrau da escada, com um livro de poesias em mãos.

Voltei, por um breve instante, às ruas de Gênova, onde certa vez, percebi que nossas sombras eram uma mesma coisa no chão: um desenho uno, uma mistura perfeita… uma espécie de treva espessa…

Conclui que somos sempre a sombra de alguém, para alguém… e por um milésimo de segundo… quis devolver a pergunta à W., mas não o fiz — não sou dada a perguntas… mas por alguma estranha razão sempre tenho as respostas — reais ou imaginárias.

Gosto imenso de observar o desenho — estranhamente — humano, que se forma a partir de mim… como se um espelho fosse, a refletir a realidade que sou, sem artifícios mil.

A sombra é o que temos de mais verdadeiro… uma noite inteira se impondo dentro das luzes do dia. Um intervalo de tempo e espaço entre as coisas demasiadamente humanas. Uma coreografia capaz de nos fazer perceber o quanto nossos movimentos no mundo são limitados. Julgamos existir acima de tudo e todos e, no entanto, somos incapazes de alguma coisa ser de fato, sem a luz do sol, o ar que respiramos, as pessoas a quem abraçamos… absolutamente tudo depende da maneira como nos posicionamos no mundo. É preciso a luz natural-artificial para que essa pintura no chão seja esse reflexo que não se apaga, tampouco se recusa.

W., é figura sarcástica, mas é um humano contido… a luz da luminária que mantêm em seu espaço não permite um desenho dela junto ao chão, e como seus movimentos são poucos – quase inexistentes — pouco de si se espalha. Acho fascinante como o sorriso dela costuma determinar o impacto que minhas falas causa em sua figura humana.

…e hoje, ao medir meus passos e a realidade pela Paulista, concluo: nem todos sabem ser sombra ou existir à sombra! A maioria dos humanos não está preparada a confessar sua escuridão… prefere acreditar que é apenas luz… e o que fica no chão é qualquer coisa menor-sem-importância-ou-substância — qualquer coisa que se apaga, como se fosse uma palavra escrita a lápis, cuja existência se limita ao efeito da borracha…

A vida é talvez esse momento fechado

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Lendo-a fiquei a imaginar o meu dia a dia — em meio à multidão… que vai na contramão do meu passo, sempre mais lento. Recordei as caras feias que enfrento quando caminho, com as mãos confortavelmente acomodadas em meus bolsos, enquanto o olhar saboreia tudo o que é paisagem…

Certa vez, ao percorrer as calçadas da Avenida Paulista, onde uma multidão de estranhos se esbarra… ouvi uma dessas pessoas terrivelmente ansiosas dizer, como forma de desaforo-ofensa: “Sai da frente! Em que planeta você vive? É cada maluco que me aparece pela frente… Tenha dó!”…
Eu observei a ‘tormenta’ como se estivesse diante de uma tela de cinema, a assistir uma cena comum-conhecida… de certo modo, divertida. Não dei corda ao meu passo. Mantive o ritmo de antes… as mãos no bolso. Abaixei os olhos para apreciar o lugar pelo qual caminhava — e sorri… enquanto pensava nos movimentos insanos da realidade.
O outro ia longe, mas ainda o ouvia a esbravejar seu desconforto…  a acelerar o passo ao máximo, a desviar dos “obstáculos humanos”. E, certamente atrasado — distribuía toda a sua impaciência para com tudo e com todos, numa revolta que me fez lembrar o Monte Vesúvio, no Golfo de Nápoles, que é monitorado de perto… mesmo estando adormecido.
O rapaz tropeçava em seus movimentos erráticos por entre os carros, com o sinal ainda vermelho para os seus passos… e os motoristas, impacientes, cuspiam buzinadas agudas e meia dúzia de palavras grosseiras — que eram como flechas disparadas contra o infeliz, que ousava atrapalhar a marcha. E ele a correr contra o tempo…
Quando caminho pelas calçadas da cidade… crio meu mundo fantástico e me desconecto dessa gente, que observo em seus momentos de ausência. São fantoches de uma realidade que eles mesmos inventaram… e não sabem como cortar os malditos fios que os mantêm reféns de si mesmos…
Nem mesmo quando esbarram em minha figura, — infelizmente visível —, afastam a minha paz… porque a realidade é qualquer coisa fora de foco — inventada para meu uso e transformada para o meu prazer… aprendi, nas aulas de ‘filosofia’ com o velho Fausto, — que foi ser Frei Franciscano —, a louvar Dioniso, mito grego. Um vagabundo e sedentário… que representa, entre os deuses gregos, segundo a fórmula de Louis Gernet, a figura do outro — do que é diferente, desnorteante, desconcertante. É, também, como escreveu Marcel Detienne, um deus epidêmico. Como uma doença contagiosa, quando ele aparece em algum lugar onde é desconhecido, mal chega e se impõe… e seu culto se espalha como uma onda.
É como se Dioniso fosse uma entidade, que eu pudesse incorporar ao caminhar pelas calçadas da cidade… a maioria dos meus escritos surge à medida que avanço de uma esquina à outra — enquanto me perco e tento achar o meu caminho de volta para casa.
Gosto imenso de me perder e de me saber perdida… é como se cada prédio-pessoa-rua-avenida fosse o vinho de Baco, oferecido ao meu imaginário — que se embriaga em pesados goles… e, em meio a essa insanidade particular, construo os elementos da minha realidade, que são como o jogo da infância, em que se intercala o barbante entre os dedos. Somadas as frases, nem tudo se salva… mas nem tudo se perde.
Tudo tem um sabor ainda mais especial quando sei que estou a incomodar essas pessoas, que vestem pressas nos pés e na alma… e, por mais que tentem, nunca saem do lugar. Movimento os dedos dentro dos bolsos… e sinto os ‘seus fios’ presos — atados à minha vontade… e só consigo sorrir.
Irônico, não?

Projeto fotográfico 6 on 6 | Tema livre

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Enquanto pensava no primeiro post para o projeto fotográfico 6 on 6… me lembrei de um momento na infância, em que nos arrumamos todos, para ‘fazer’ uma fotografia. Não me lembro qual era a ocasião… recordo apenas que vestimos as roupas cuidadosamente escolhidas para o momento. Eu usei a minha jardineira vermelha, minha peça de roupa favorita… e esperei que tudo estivesse pronto para o ‘grande momento’ sentada na cadeira a observar o movimento frenético dos meus pés.

Foi na infância que surgiu a mania de observar o chão onde eu piso, as linhas, os contornos e o encaixe do passo… me lembrei da primeira fotografia que fiz de meus pés. Um mero acidente, causado por um esbarrão… revelado dias depois, quando o envelope veio da ‘fotótica’.   Curiosamente, de um rolo de 24 poses, foi a que mais me agradou… e achei que seria legal para esse ‘tema livre’ exibir os lugares que meus pés ocupam na Paulicéia…

 

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Domingo de sol. Avenida Paulista fechada para os carros… aberta apenas para os passos. E depois de uma tentativa frustrada de ir ao cinema, uma pausa para um café entre esquinas… na companhia de amigos.

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Ao levantar pela manhã, com os olhos ainda a se acostumar com a paisagem e a realidade a gritar: ‘buongiorno’… e a vontade de se recusar a amanhecer grita também!

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Não importa por onde eu ande… o outono — estação da minha alma — sempre me acompanha, ainda que seja verão, quase carnaval, fevereiro… é como se dissesse “me espere, que eu vou voltar‘… e eu espero!

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Não faz muito tempo que os meus finais de tarde… eram medidos pelo imenso prazer em atravessar ruas, caminhar calçadas, dobrar esquinas e ir ocupar mesas no café entre esquinas, sempre na companhia de Patrick — o nosso menino de quatro patas…

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Adoro caminhar pelas ruas do bairro após as chuvas de maio…  a cada passo uma novidade, um resto, um rastro… lembranças de tantos ‘ontens’, que sempre voltam a memória…

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E para fechar esse primeiro post… o primeiro passo solitário, depois de tantas caminhadas coletivas. Enquanto a vida fica no dia de ontem para uns… para outros (como eu) amanhece esse tal de dia seguinte e é preciso vivê-lo porque como bem disse o poeta ‘navegar é preciso‘…



Participam também

Avesso da Coisa – Retratos e DiáriosSariando por aí

…antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois!

capitulo-2

…fevereiro é um mês febril, ainda é verão pelas ruas desse país tropical — que ama o Carnaval — dessa cidade nada desvairada, onde escurece repentinamente e as águas caem no meio da tarde, sem piedade. Alagam as ruas, ao mesmo tempo que afagam a minha alma… que se sente anestesiada-embriagada com a folia dos Trovões nos céus e a chuva na vidraça. É minha generosa porção de monotonia, meu olhar para dentro, meu suspiro pesado, meu aconchego entre almofadas imaginárias, meu pesado gole de silêncio.

Não sou uma pessoa de ‘carnavais’… não suporte multidões. Não me acostume as altas temperaturas do verão. Não sou dada a fantasias… embora isso possa parecer contraditório… já que louvo Baco, sua embriagues. E a realidade nunca foi uma parceira… a quem dar as mãos e sair para caminhar calçadas.

Sou uma pessoa-humana (?) que busca a contramão da realidade e se contenta com a mesa do canto — no lado oposto às multidões. Aquela que prefere um pesado gole de café-vinho… e brinda, com raro prazer, a solidão da amalgama. Que vira a folha do livro quando a noite se aproxima da pele e viaja-vaga por mundos vários-inventados, sem deixar o conforto do quarto.

E embora seja um mês febril… fevereiro nunca foi um mês de letras nas pontas de meus dedos, que parecem fadados a esperar por maio… como se cumprissem um ritual de dormência-quietude.

Hibernar é uma arte… que os ursos dominam, porque sabem que é preciso descansar da realidade. E ouso dizer que eles são sábios… porque preciso urgentemente descansar dos falatórios dessa gente, que domina tantos idiomas-locais-vivências-fronteiras…

Me aborreço sempre que um ‘assunto novo’ chega aos meus ouvidos… mais do mesmo e uma euforia viral. Eu prefiro repetir a frase da atriz de Flores Raras, no Oscar do ano passado: ‘não sou capaz de opinar’.

O Carnaval não se limita a fevereiro… por aqui qualquer tema — trump-eike-diploma-muro-cinza — serve como fantasia para as pessoas dispostas a tagarelar. Haja sanidade!