15. Se alguma coisa nasceu para voar, foi o teu coração…

“Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê
o que os outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro”.
Al Berto

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Caríssima A,

…me perdi do tempo assim que aterrissei o meu corpo na janela, para onde fui assim que ouvi um trovão ressoar pelos cantos da casa-corpo-alma. Fechei meus olhos. Respirei fundo… e vesti a pele com um punhado de sensações novas e antigas — devidamente misturadas… enquanto a mente ‘folheava’ as páginas do livro de Helder… “agora sei que devo saber, só. As letras da chuva loucas nas costas” — e a alma começou a urdir esse diálogo silencioso contigo…

Chuva e janelas são algumas das minhas paixões mais antigas, minha cara. Penso que eu era a única menina da escola a ficar feliz com a temporada das águas. Apelidei maio de o “mês das trovoadas”… e novembro de o ‘mês dos desaforos’…

E quando os céus anunciavam suas tempestades… eu corria para a janela — movimento que não cessa e se repete e repete e repete dia após dia, vida após vida.

Gosto de apreciar as nuvens se avolumando por cima da cidade. A escuridão a moldar os cenários urbanos. As pessoas em desespero, em busca de abrigo. O medo latente nos músculos e nervos…

Eu vou na contramão de tudo isso — para variar. A euforia se exibe do lado de fora da pele. Mas lá dentro — na porção mais funda do ser — uma calmaria imensa se inaugura e se apodera de minha anatomia.

Eu nunca soube explicar as sensações que se precipitam em mim durante as tempestades. Nunca senti medo ou pavor… apenas uma vontade de fechar os olhos e trazer a tona a língua dos lençóis… uma cama virada a sul, onde as gaivotas arrulham durante seus vôos de ocasião.

Os sons do trovão sempre pareceram uma espécie de diálogo entre a realidade e o imaginário — esse barco de papel abandonado à corrente.

Eu me sinto sozinha. Trancada e liberta. Ausente da realidade e ao mesmo tempo impregnada por ela. Na infância acreditava que os dias de chuva me faziam triste, mas era melancolia. Eu fechava os olhos e ouvia o pulsar dentro do peito. Respirava fundo e apagava a vida pelo tempo incontável de horas inteiras.

Sempre gostei de ver o dia se fechar das luzes… escurecer e se perder nas voltas de um ponteiro particular — nada humano. Sempre gostei de sentir o corpo parar e voltar a vida arrancada das veias através do som intenso de um trovão agudo…

Ouviu? Gritou de novo lá fora.
E aqui dentro o suspiro de morte e vida, vida e morte.
Amém.

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA JANELAS

Tenho verdadeiro fascínio por janelas… desde a infância. Creio que tudo começou por volta de meus quatro ou cinco anos, quando me deparava — ao sair as ruas — com duas signoras… devidamente posicionadas em suas janelas de existir. As duas irmãs tinham o hábito de tomar conta da vida alheia. C., tinha verdadeiro horror por elas. Eu, no entanto, nutria certo fascínio por aquela cena corriqueira.
Gostava de espiar os interiores sempre bem cuidados-perfumados das casas. Colhia pouco ou nada: um quadro na parede, uma santa numa espécie de altar e o lustre de gotas de cristal. E a partir disso, imaginava um sem-fim de coisas.
Elas acenavam para mim e eu acenava e volta. Elas sorriam e eu também… mas dado o número de confusões que causavam na nossa rua — graças as suas ‘línguas sempre afiadas’ — C., reprimia qualquer possibilidade de amizade com seu olhar inquisidor.
De qualquer maneira… o meu fascínio pelas janelas abertas-fechadas-acesas-ou-apagadas… já tinha se iniciado… através daquele desenho delicado de realidade… com suas venezianas verdes, que hoje não existem mais.
A casa foi ao chão durante o tempo em que estive longe… deu lugar a um sobrado garboso e muito elegante. Suas janelas vivem fechadas: faça chuva ou faça sol. Nunca mais vi uma só pessoa naquelas janelas… e a casa nem mesmo parece habitada. Mas a minha memória preservou certos traços e sou capaz — se fechar os olhos — de ouvir as fofocas das ‘esquifosas signoras’

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No bairro da Bela Vista, em São Paulo, há inúmeros casarões antigos. A maioria está abandonado e em ruínas… mas ao observar o que resta de suas fechadas, dá para imaginar um passado elegante e simpático…

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No Alto da Lapa… algumas casas do começo do século XX — com datas impressas na fachada de seus imensos casarões — resistem bravamente ao tempo, ao abandono e as invasões! As que ainda não foram demolidas, nos últimos anos, passaram a abrigar asilos.
Essa, situada em esquina, teve seu traço alterado… e a velha janela cor de sangue foi substituída por uma de ferro com pesadas grades…

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Localizado no Centro da cidade, na Praça Ramos de Azevedo… o Teatro Municipal foi inaugurado em 1911 para atender o desejo da elite paulista da época. Seu estilo arquitetônico foi inspirado no Ópera Paris.
Passou por uma grande reforma recentemente, mas infelizmente a ‘cultura do pixo‘ já manchou suas paredes novamente com grafias negras e horrendas.
Eu já fiquei um bom par de horas a espiar suas janelas em estilo colonial e suas estátuas — ‘gargulas’ — que segundo as lendas urbanas, ganham vida durante a noite! Será que dançam pelo Viaduto do Chá?

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A região da Bela Vista é excelente para se observar imóveis antigos, dado ao grande número construções do início do século XX que, ainda se fazem presentes por ali, por quanto tempo, contudo, é impossível dizer.
Localizado entre os números 276 e 286 da Rua Major Diogo… esse prédio um dia foi um elegante sobrado… localizado quase diante do prédio do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sua lateral e fundos atualmente são ocupadas por um estacionamento {mania local, privilegiar os veículos, que entopem as ruas}… mas o seu interior encontra-se abandonado e em ruínas.

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Na mesma Rua… estão as ruínas de um dos mais importantes Teatros de São Paulo. o TBC — ‘teatro brasileiro de comédia‘ — construído na década de 40 no Bixiga. Foi palco para uma geração empenhada em modernizar as artes cênicas do país. Por lá passaram Cacilda Becker, Paulo Autran, Tonia Carreiro, Walmor Chagas, Sergio Brito e tantos outros. Atualmente, vive a promessa de recuperação…

Geografias poeticas

Enquanto alguns casarões tombam pela cidade… outros são mantidos intactos-preservados… como esse, que fica entre as esquinas do Jardim América (jardins)… um pedaço nobre da cidade. O bairro foi projetado pela dupla de urbanistas Barry Parker e Raymond Unwin, contratada pela Companhia City — empresa de investimentos imobiliários criada em 1912 e que teria papel estratégico no desenvolvimento da cidade.
Localizado em uma região considerada inadequada para a habitação, o bairro surgiu após a drenagem de um milhão de metros quadrados de charcos e pântanos.

Espero que tenham apreciado o passeio pelo minha Paulicéia e seus muitos {estranhos} contrastes…

Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários 

A força do querer

logo a força do querer…ontem começou a nova novela das nove — da Rede Globo. E se tem uma coisa que me intriga nessas tramas… são os títulos que as orienta junto ao público.

Eu costumava pensar — antes de me inteirar sobre o processo — que deveria existir um ‘cérebro vivo’ contratado apenas para cumprir essa função: encontrar um título-tema  que resumisse — com qualquer coisa de perfeição — a idéia do autor.

Após pesquisar o assunto, percebi que a ‘novela’ de títulos para as tramas televisivas são as mesmas que os autores enfrentam na hora de ‘nomear’ seus benditos-frutos: os livros. Mas há uma sutil diferença, já que no caso das novelas, os autores é quem batem o martelo e os autores de livros, na grande maioria das vezes, são obrigados a se render a imposição dos editores-editoras.

Mas, assim como no mundo dos livros, todo o processo é bastante particular. Temos autores que deixam o título por último… depois de todo o enredo e personagens prontos. E no último segundo recorrem a profissionais — a maioria da área de marketing, verdadeiros especialistas — em garimpar o melhor dos títulos.

Foi o que fez Agnaldo Silva em ‘fina estampa’, que inicialmente iria se chamar ‘marido de aluguel‘ em referência a personagem principal da trama, vivido por Lilian Cabral…

E há autores que precisam do título como Norte… como Gilberto Braga, que se deparou com o título no momento mais improvável de sua vida: durante o enterro do músico-amigo Dorival Caymmi. A letra da música ‘só louco‘ lhe veio à mente… e ao cantarolar o verso — ‘ah, insensato coração/ por que me fizeste sofrer‘ — ele teve certeza — um ano e meio antes — que ‘insensato coração‘ seria um bom título para uma novela das nove.

Na nova trama das nove… o título — a força do querer — foi usado nas chamadas pela emissora — de maneira bastante didática — para fazer o público entender a proposta da autora e sua trama, que promete mover seus mil e um personagens a partir dessa força que nos faz levantar da cama e encarar essa tal realidade.

Não gosto do estilo-ritmo da autora Gloria Perez e também detesto essas tramas com personagens em excesso — marca registrada da noveleira. Mas é inegável que o mote-título me fez parar e pensar em meus movimentos de vida… porque se tem uma coisa que move os meus passos é justamente o meu querer… que já esbarrou no querer de outras pessoas.

Fui chamada de louca ao deixar de lado uma ‘carreira sólida’ para me enveredar por um mundo ‘estranho e desconhecido’ onde ninguém trabalha… apenas bebe café. Tudo que eu faço é visto por muitos como ‘um hobby’… que não resulta em ganhos ou conquistas.

Que seja… eu faço o que gosto e minha prioridade é a satisfação que sinto ao ver meus projetos concretizados. Nada é melhor que fazer o que se gosta e poder simplesmente mudar de direção junto com o vento…

 

É hora de virar a página e escrever o quarto capítulo dessa história…

“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.

T.S.Eliot

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Senti há pouco os ventos de abril em meu imaginário inquieto! Fechei os olhos por alguns segundos para levar tudo para dentro — aromas e cores e sensações. Lá fora o dia seguia sua marcha comum… de leste a oeste sem se incomodar com essas insanidades temporais que inventamos para nos guiar-comandar-incomodar.

Amassei mais uma folha do calendário humano e seus dias em fila… não sei para onde foram todos os dias de março, mas foi dentro dele que senti mudar mais uma estação do ano-vida. O outono chegou bem antes do prazo e gostei de percebê-lo na derme — numa espécie de carícia que passa e fica — ao caminhar nos primeiros minutos de uma noite já não mais tão aquecida.

Vim me sentar aqui para espiar o cenário-memória… acendi uma vela verde no canto da mesa — um dos rituais que preservo… e fiquei por um breve instante com os olhos fechados, como quem faz uma prece — repetindo os sagrados versos do poeta Eliot — e se esquece de todas as coisas do mundo.

E enquanto espiava o tremular da chama em meu imaginário… recordei Rubem Alves e sua escrita certeira — ‘Bachelard, no seu delicadíssimo livro “a chama de uma vela”, que nunca será um best-seller, nos lembra que uma vela que queima é uma metáfora da existência humana. Há alguma coisa de trágico na vela que queima: para iluminar ela tem que morrer um pouco. Por isso a vela chora. Prova disso são as lágrimas que escorrem pelo seu corpo em forma de estrias de cera. Uma vela que se apaga é uma vela que morre‘.

Quase corri até a prateleira para pegar — desfiz 75 anos — e ler o restante do texto… mas, voltei a realidade num piscar de olhos e esbarrei na pilha com sete livros… devidamente capitaneada por Susan Sontag — ‘ao mesmo tempo‘ — e seus dezesseis ricos textos… rascunhados pela autora em seus últimos dias de vida.

Folheei as primeiras páginas — saltando o prefácio escrito por seu filho, com quem ainda não me relacionei — e bebi de suas impressões sempre agudas sobre temas, que atualmente os autores recusam, para evitar polêmicas…

Vivemos no estado contemporâneo das coisas, onde é preciso concordar, baixar o olhar e se manter em fila indiana. De um lado está a esquerda e do outro a direita. E o bando e seus cabrestos de ocasião nos apontam e dizem: escolha um lado e as armas… eu os espio do alto de minha preguiça e penso em uma xícara de café. Já escolhi um lado faz tempo… o de dentro!

‘a dimensão do tempo é essencial para a prosa da ficção,
mas não para a poesia’…

Susan Sontag