Diário das minhas insanidades, 13

Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?

Carlos Drummond de Andrade

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…enquanto caminhava pelas calçadas da Paulista, vigiava atentamente os olhares que esbarravam nos meus. Figuras estranhas, desconhecidas… um sem-fim de possibilidades. Personagens de uma vida — supostamente — real. Marionetes num teatro particular… que não dão pelos fios que articulam seus movimentos.

E ao vigiar cada humano que se precipitava aos meus olhos… um pensamento repentino escapou de minha mente — ‘o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que nos invada-preencha-e-nos-ocupe-totalmente?’

Tentei articular uma resposta a cada passo… e sem sucesso, me vi obrigada a recordar as muitas vezes em que alguém saltou da realidade diretamente para dentro de minha matéria — obrigando-me a represar o passo, buscar por ar… e acalmar o mio cuore — acelerado.

A ciência já inventou respostas práticas que envolve uma insana combinação de elementos químicos da tabela periódica. Para os cientistas nós somos a própria tabela… uma mistura exótica de sessenta elementos químicos diferentes e suas finalidades não são exatamente conhecidas. Tudo isso em ebulição… a qualquer momento gera: atração ou repulsa.

A poesia, no entanto, nos acena com outros elementos muito mais interessante. Drummond transbordou em palavras: ‘nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas’.

E lá vou eu a bordo da realidade — com o poema ‘nos olhos’ da alma — caminhar calçadas, atravessar ruas… adentrar portões de ferro, percorrer jardins, espiar a antiga fachada da casa Haroldo de Campos, ultrapassar uma porta de vidro, a roleta, acenar ao segurança…aguardar pelo elevador — enquanto o pensamento articula-se dentro da questão levantada e o poema de Drummond escorre na pele: — ‘Amor, este o seu nome. Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir. O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa’.

Pontualmente as sete horas… me sentei na poltrona preta de couro, e depois dos tradicionais cumprimentos fiquei — por alguns segundos — em silêncio… a observar W., e a recordar nosso primeiro contato. Sou uma pessoa de primeiras impressões — como os cães — ou gosto ou não gosto. Ou me interesso e me importo ou o contrário disso.

Me lembro que disse a ela no primeiro contato… que eu já tinha acertado as minhas contas com minha realidade — galopante. Quem precisava de ajuda era a escritora que vivia-vive em mim — “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”.

Ela espiou os meus flancos… sorriu mansamente e tomou nota em seu velho caderno de capa vermelha. Eu devolvi o sorriso…e soube que voltaria na semana seguinte

Depois de alguns minutos de conversa — uma espécie de entrevista… eu me preparava para deixar o lugar — consciente de um novo fiasco na busca por um profissional — quando ela me surpreendeu com um sorriso… estranho-e-conhecido.

Fiz uma pausa em meus movimentos rudes… a observei atentamente por alguns segundos — e ela me perguntou com sua voz falsamente branda, sentada em qualquer coisa de consciência: “sabe o que você me disse assim que se sentou aí?”… como de costume, a minha memória impulsionou aquela fala: “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”.

E eu, que já estava a implicar com gatos brancos, preferindo os cinzas por ser a cor dos temporais… tive que me acostumar ao tal gato branco na terceira prateleira da estante… e senti um sorriso irônico crescente naquela velha face de gato… hunft!!!

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5 comentários sobre “Diário das minhas insanidades, 13

  1. Lua Nova disse:

    Estou de volta e boquiaberta, claro. Sai lendo tudo que não li lá no meu e-amil, mas não resisti e vim para cá depois de ler esse recém-chegado. E só para te avisar, ainda não estamos em maio, viu? Digo isso porque você já está ‘a trovoar’. Ouvi vários trovões por essas bandas. Ai que não tenho emocional para tanto.

    Agora, se vale de alguma coisa, eu já sei, faz algum tempo que você é uma pessoa de primeiras impressões, ao contrário da Raíssa. Eu li seis vezes aquele livro, viu? E amei-amei-amei-amei-amei. Sabe que, às vezes, me sinto pequena como a Alex? E ao te ler, te sinto imensa como a Raissa.

    bisous minha escritora favorita

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