Limito o meu silêncio ao seu silêncio…

2017-02-18 18.59.10

Caríssima M.,

Cai a noite e com ela o cansaço de um dia inteiro, que começou cedo, pouco depois das oito. Despertei das sombras-páginas do livro a caderneta vermelha  que eu lia enquanto as horas avançavam firmes por essa segunda-feira — a última de maio.

Algo curioso aconteceu esse ano, não vi uma única flor de maio. A que tinha a casa antigamente florescia — estranhamente — em junho ou julho… jamais em maio, tanto que dizia pelos cantos da casa que algum equivoco existia. Mas, sempre as encontrava por aí, em algum lugar da cidade. Esse ano, no entanto, passou em branco.

Mas eu tive de volta a rotina dos trovões… e recordei — ao ler as suas linhas — as sonoridades da infância, que tanto prazer causava em minha pele e tanto pavor nos corpos mínimos das crianças do colégio.

Não sei se já lhe contei de uma manhã de Maio em que o céu desceu a terra com suas pesadas e negras nuvens. Escureceu cedo e de repente um estampido causou gritaria na sala de aula. Ainda era a primeira aula. Dez horas. Fazia pouco que tínhamos ocupado nosso lugar as mesas. Uma das crianças desandou a chorar — inconsolável. E para evitar maiores desconfortos…  reuniram todos os alunos numa mesma Sala.

…fiquei para trás — propositalmente — com os olhos grudados na janela… a contar os espaços entre o clarão e o trovão. Vi quando as grossas gotas foram se aconchegando na vidraça… e a velha e conhecida sensação de tristeza — naqueles dias eu não sabia ser melancolia o que sentia — reviveu… empalidecendo todos os ‘sempres’ dos meus olhos.

…fui impiedosamente arrancada de lá — num susto que quase desalojou a minha alma — e levada para junto da turba. Nada de poesias-trovões-chuva-tristeza… apenas o grito estridente daquelas humanas criaturas miúdas — a cada trovão… a me aborrecer e entorpecer cada um dos meus sentidos.

Agachei-me num canto e tapei as orelhas… apavorada. Lembro-me de ouvir a voz enferrujada da professora dizer — ‘já vai passar, já vai passar’ — no intuito de devolver a paz — perdida. Foi meu primeiro assassinato, minha cara. Fuzilei a infeliz da mulher em seu avental de educadora… com um raio fatal e sorri satisfeita.

Hoje não troveja no céu, minha cara. Apenas cá dentro da pele, onde as lembranças são pesadas nuvens. O mês está prestes a findar… maio foi inquieto e desembestou sonoro em minha pele, sem flores, mas com muitos movimentos de xícaras. E nas últimas horas lhe escrevo e vou ao teu encontro — entre um trovejar e outro… tu  me recebes?

Au revoir

Anúncios

3 comentários sobre “Limito o meu silêncio ao seu silêncio…

  1. Triccia Araújo disse:

    Que coisa linda… ❤

    Não consigo nem comentar mais as cartas que vocês (tu e Mari) escrevem… Tão delicadas e poeticamente belas!

    Abraço 🙂

  2. Mariana Gouveia disse:

    sempre que te leio – e ainda mais quando é para mim – eu leio rápido como se não fosse assim, perdesse o gole do café, não visse a nuvem a passear no céu…
    Depois venho em calmaria e releio e recebo-te em um abraço de alma…
    Ontem enquanto recebia a última dose de cura, da janela, vi um clarão… Podia dizer que nunca estive sozinha nesses meses todos… você sempre vinha através de palavras e trovões – às vezes, raios – e permanecia ali, a me acalmar enquanto o líquido fluia.
    Grata tanto!
    Grazie mille! Bacio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s