08. São dias de olhar pelo buraco da agulha

Há palavras que têm sombra de árvore
outras que têm fluido de astros
Há vocábulos que têm fogo de raios
E que incendeiam o espaço onde caem
Outros que se congelam na língua
e se estilhaçam ao sair   (…)

Vicente Huidobro

 

ruas-de-coimbra

 

Caríssimo M.,

 

…pensei em escrever-te, desde as primeiras horas desse dia. Afinal, é junho e os dias me levam de encontro a sua anatomia — like always. Com o corpo em movimento pelos lugares de nunca e com os olhos detidos junto ao que é paisagem particular, imaginei seus passos ao meu lado e te trouxe comigo. Eu gosto de pensar que certos cenários, ainda que tocados por outros, pertencem apenas a nós dois…

Nosso destino, meu caro… é a Casa de chá ‘Jardim da Sereia‘... um dos meus lugares favoritos em Coimbra. E a caminho de lá, meus olhos se enroscam em uma dessas vitrines bem-feitas, que temos por aqui. Uma pequena loja, com a porta fechada — por ser domingo — e uma placa mais ao alto, em movimento — ao sabor do vento — a dizer o nome do lugar.

Lá dentro… um punhado de prateleiras de madeiras, com roupas exclusivas, bem dobradas e empilhadas numa sequência de tons… mas o que prende a minha atenção é uma máquina de costura Singer antiga, com seu móvel de madeira bem preservado, tanto quanto os vários cones de fios coloridos. Um curioso cenário, que eu tenho certeza, iria despertar seu interesse e nos conduziria por diálogos de passos e memórias. Somos assim, um passo a frente e dois para trás.

Mas foi o som das ‘correntes’ no ar que me desorientou… por alguns segundos. Me fez voltar no tempo…  indo de encontro ao vai-e-vem de um balanço… no quintal de minha infância! Eu nunca gostei de brincar nele… mas gostava imenso de ouvir o som — dentro da noite — do movimento das correntes… a impulsionaro o brinquedo em movimentos levemente circulares…

Fechava os olhos e imaginava meu corpo indo e vindo. Sentia a carícia peculiar do vento na pele esbranquiçada, onde corria um fino arrepio. Sempre gostei desse sentir. Arrepiar-se sempre foi como despertar. Gostava imenso da textura das correntes nas mãos e da imensidão de um céu e suas muitas estrelas, impossíveis de contar nos olhos…

O brinquedo em si, nunca me causou grande emoção… mas era um desejo meu, tê-lo no jardim. Lembro-me do dia em que os dois homens vieram para medir o espaço necessário, fazer os cálculos, os furos no chão, a montagem e pronto: eu tinha um balanço…

No primeiro dia foi uma alegria imensa… meu corpo foi aos ares, impulsionado pela força do ‘meu gigante’, que não se cansava de ouvir a minha risada. Eu conseguia enxergar por cima do muro, dos telhados das casas. E, quando ia bem alto, enxergava um pedaço do mar. Pensava comigo: “quem zomba de quem agora, dona gaivotas?”

Mas, na manhã seguinte, já não tinha mais qualquer interesse por aquele brinquedo-bobo. Me divertia, contudo, ao ver as crianças “namorando-o”… por entre os espaços do portão. Grudavam seus olhos ávidos e esparravam a vontade de voar pelos ares. Elas imaginavam uma maneira de transpor o obstáculo — o muro, o portão de ferro, o Lord, meu cão-amigo-guardião — para se sentar no que era objeto de desejo. Mas o medo não as deixava avançar. E havia também o mio babo e sua fama de bravo, desde que saiu no braço com um vizinho…

E eu, em minha janela de espiar… a sorrir toda a ironia, do que era meu, sem de fato pertencer-me. Eu era a única criança da rua com um balanço a casa… foi um presente para os meus míseros nove anos de vida.

Eu me lembro, que estava prestes a completar meus dez anos… e já não tinha mais nenhum interesse por aquele brinquedo. Era novembro e a paisagem despertou úmida, com nuvens pelo céu… o balanço estava molhado — como tudo ao redor — mas, havia algum movimento nele. O forte vento norte o fazia mover-se em círculo, impulsionando aquele delicioso som — quase uma canção — a hipnotizar-me. Fiquei com os olhos “grudados” na vidraça… e não sei quanto tempo se passou até cessar o movimento e o som!

Talvez tenha se passado o tempo necessário para eu aqui  me sentar e escrever-te essa ‘minha pequena’ narrativa peculiar a você, a quem confesso, enquanto percorro as artérias dessa cidade.

Au revoir,  mon ami…

O papel se ofereceu como lápide.

‘Nietzsche a enlouquecer por completo

a impossibilidade de ser humano

demasiado humano

a sua respiração

expira-inspira

inspira-expira’…

 

projeto paralelo, in lançamento lua de papel

Ela chegou a casa… trazida pelas mãos do ‘vento’… olhos baixos, uma ou duas palavras nos lábios e gestos mornos nos arredores do corpo. Senti um calafrio percorrer meu corpo assim que ela passou pela porta.

…escolheu um cômodo da casa onde abandonar as malas, seu lugar à mesa, e o lado oposto de todos nós — no sofá.

Percebi que não se lembrava mais, como sorrir… seus olhos tinham lágrimas represadas. Suas mãos enroscavam-se umas nas outras, em busca de um alento, que havia tempo, faltava ao coração. Era indócil nos gestos e fazia qualquer para preservar qualquer coisa de distância. Seu corpo era uma janela fechada para o horizonte… e sua alma, um mundo cheio de lados contrários.

…escolheu o lado de fora, as escadas com seus degraus e subir e descer. Ali, cuspia pesadas baforadas de nada. Uma cena tão lúdica-densa… um personagem vivo. Senti coceiras na ponta dos dedos e vim para cá escrevê-la. Dei a ela o nome de Alexandra… figura solitária, trancada em um quarto escuro, de onde espia o mundo e imagina cenários impossíveis.

Sentei-me à estibordo… não conseguia evitar sua figura, onde atraquei conscientemente de que havia mais. Guardei seus traços e len-ta-men-te fui aprendendo os movimentos. Ela dispara falas sem sentido, despeja olhares sobre tudo e nada.

A bordo de sua solidão… ela fingia se ocupar do silêncio de telas, onde as tintas eram o seu sangue, a verter do corte que não foi capaz de fazer.

Ela tentou fugir… mas eu mantive em mim, a fervilhar possibilidades. Aprendi os códigos usados por ela e decifrei sua realidade. Ela rebelou-se… vociferou um punhado de palavras agudas. Me acusou de estragar sua vida-realidade.

E ao vê-la fazer as malas de qualquer jeito… só consegui pensar em Charles Bukowski, ‘beasts bounding through time’… em ‘you get so alone at times that it just makes sense’…

 

 

Diário das minhas insanidades, 15

O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz  a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa.

Carlos Drummond de Andrade

 

marionetes

...enquanto caminhava pelas calçadas da Paulista, vigiava atentamente os olhares que esbarravam nos meus. Figuras estranhas, desconhecidas… um sem-fim de possibilidades. Personagens de uma vida — supostamente — real. Marionetes num teatro particular… que não  dão pelos fios que articulam seus movimentos.

E ao vigiar cada humano que se precipitava aos meus olhos… um pensamento repentino escapou — o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-totalmente?

Tentei articular uma resposta a cada passo… e sem sucesso, me vi obrigada a recordar as muitas vezes em que alguém saltou da realidade diretamente para dentro de minha matéria — obrigando-me a represar o passo, buscar por ar… e acalmar o mio cuore — acelerado.

A ciência já inventou respostas práticas que envolve uma insana combinação de elementos químicos da tabela periódica. Para os cientistas nós somos a própria tabela… uma mistura exótica de sessenta diferentes elementos. E suas finalidades não são exatamente conhecidas. Tudo isso em ebulição… a qualquer momento gera: atração ou repulsa.

A poesia, no entanto, nos acena com respostas muito mais interessante ‘nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas‘… foi o que escreveu Drummond e é com o poema dele ‘nos olhos’ da alma que eu caminho, atravesso ruas… ultrapasso espaços inteiros, percorro  jardins, espio a antiga fachada da casa Haroldo de Campos, ultrapasso uma porta de vidro. Aceno ao segurança… aguardo pelo elevador — enquanto o pensamento articula-se dentro da vida-história que trago em mim.

Quantos personagens perdidos por um simples gesto intempestivo. Odeio quando as pessoas se aproximam de mim. Raramente alguém se conforma com o que o meu imaginário constrói. Sempre que se aproximam, são apenas humanos forjados em moldes próprios — irregulares e impossíveis de serem ‘usados’.

Pontualmente as sete horas… me sentei na poltrona preta de couro, e depois dos tradicionais cumprimentos fiquei — por alguns segundos — em silêncio… a observar W., e a recordar nosso primeiro contato. Sou uma pessoa de primeiras impressões — como os cães — ou gosto ou não gosto. Ou me interesso e me importo ou o contrário disso.

Sorri… ao me lembrar da minha primeira vez aqui. Disse a ela… que já tinha acertado as minhas contas com a realidade — galopante. Quem precisava de ajuda era a escritora que vivia-vive em mim — “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”. Ela espiou os meus flancos… sorriu mansamente e tomou nota em seu velho caderno, devidamente acomodado na perna esquerda. Eu tomei emprestado em meus lábios o sorriso…e soube que voltaria na semana seguinte. Desde então somos personagens nessa realidade de nós duas.

O que faz brilhar os teus olhos?

“Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar.
Ai, que bom que isso é meu Deus, que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus, resiste aos olhos meus, só pra me provocar
Meu amor juro por Deus, me sinto incendiar” …

Tom Jobim


 

…levo meu olhar lá para fora, através da janela, enquanto na pele… a pergunta feita pela Áurea enraíza-se. Respiro fundo. Busco paisagens na qual me apoiar. Questiono-me, sabendo que se escavar o bastante encontrarei uma resposta: o que faz brilhar os meus olhos?

 

O céu esta nublado, o asfalto nublado e a tarde começa a cair e ao afastar a cortina, que o vento tumultua, encontro o que procuro — quase como um soluço que brota atrevido por entre os músculos do estomago —  e digo em voz alta: minhas mãos! Exibo aos olhos, em movimentos conhecidos: um dedilhar aéreo — quase uma dança — que se repete junto ao teclado, ao escrever o que antes é apenas um pensamento, que gosto de chamar de: notas mentais. Esse momento ‘barulhento-insano-meu’…

 

Recordo — sem muito esforço — como tudo começou… eu tinha pouco mais de sete anos e adorava apreciar os dedos do nono na ‘perversa’ máquina de escrever — uma velha Remington Victor T Portable. E ao espiar meu olhar curioso-inquieto… resolveu me ensinar a arte de ‘datilografar’. Aprendi com ele… a posicionar todos os meus dedos e a usar o teclado sem olhar as letras — tarefa nada fácil nas primeiras vezes. Durante as férias de verão daquele ano, repeti incansavelmente os exercícios, que serviam para me fazer aprende-decorar a sequencia alfa-numérica dos teclados das velhas máquinas, que durante cem anos ocuparam mesas no mundo inteiro.

 

Minhas mãos — desde a infância — em movimentos frenéticos… imitam a urdidura da aranha. Tecem essa narrativa, que acontece primeiro em meu invólucro alucinado… onde impera absoluta a loucura de Dionísio. Cabe as minhas mãos, a posteriore, transformar tudo em verdade, que convença e encontre eco no olhar alheio. Curiosamente, na condição de maestrina sensível… é quem dá asas a minha imaginação.

 

Nunca fui boa na arte de tecer meias, colchas… não sei unir fios, pregar botões. Mas desde pequena, meus dedos souberam dar movimentos as letras, seja através de uma lapiseira e sua escrita sempre fina ou de um teclado… primeiro de uma velha Lettera — que mio babo tirou do alto do armário para meu uso. E, mais tarde num barulhento teclado IBM. Hoje, se divertem ao passear por silenciosas teclas, que seguem a externar realidades minhas… não fossem minhas mãos, eu seria completamente silenciosa-muda, incapaz de dialogar! Porque não sou dada a arte do tagarelar… falo pouco — quase nada — nem mesmo se chamada à fala. Minhas mãos, no entanto, incorrem em sonoros discursos: fazem surgir um fim de tarde com calçadas para os pés, mãos dadas… e, sombras a frente do passo! Descontinuam o que resta do dia. Fazem a noite ser um fino e lúdico véu sobre a cidade e seus fantasmas antigos…

 

As minhas mãos interpretam o mundo, enquanto substancia, que se prova: em sabor e aroma…  fazem de mim esse ser impossível. Sou outra… nenhuma… muitas! E sigo aqui, sem sair de casa… a percorrer inúmeros mundos — tudo idealizado em pequenos movimentos de dedos, que se exibem em formatos pequenos…

 

…“dedos de pianistas” é o que dizia C., as unhas já não crescem como antes… porque não deixo. Não lhes dou cores, por preferir o tom natural de seus contornos: levemente rosáceos… que combinam em ranhuras, nervuras. Às vezes, alongo os dedos até estalar as juntas… passo creme. Observo meu traço com suas veias verdes a exaltarem-se. Me reconheço em cada risca que dizem, por aí, ser do coração, da vida, da memória… pouco ou nada sei sobre isso. São meus traços, minha história — inventada  ou reinventada… e, são elas, a assegurar o brilho dos meus olhos…

 

E você, o que faz seus olhos brilharem?

…mais um outono!

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Mio caro,

…já devo ter lhe dito, em uma dessas nossas muitas conversas, que eu fui uma criança quieta. Não tinha vocação alguma para traquinagens ou barulhos. Gostava de ficar no canto oposto as outras crianças. Não me misturava e não gostava de gritos, correrias… embora adorasse subir em árvores, escalar muros e mergulhar em rios… mas não apreciava testemunhas. Sempre tive imenso prazer em ser-estar sozinha… na casa vazia… na rua deserta.

E foi ainda na infância que desenvolvi a paixão pela primeira vez… o primeiro brinquedo: um tabuleiro de xadrez, feito pelo nono — inclusive as peças. O primeiro caderno — que me deixou muda-imóvel durante dias… com o cuore acelerado e os olhos cheios. Levei sete dias para rabiscar as primeiras palavras nele. O primeiro livro… de poesias — cinquenta e seis páginas preenchidas com versos num idioma novo. O primeiro envelope. A primeira missiva. A primeira caixa de madeira — para guardar meus papéis… feita pelo nono. A primeira viagem de trem com suas janelas a narrar o passado-presente-e-futuro em meu olhar anestesiado. A primeira tempestade… que ainda reverbera em meu corpo.

Somo a tudo isso… a primeira vez que você veio ao meu encontro, com seus passos lentos — mãos guardadas no bolso da calça jeans. Olhar baixo… a varrer o chão e um sorriso imenso-lindo-travesso que refletiu em mim assim que a vida nos colocou frente-a-frente. A primeira vez que engatou sua mão a minha… que encaixou seus passos aos meus e fomos caminhar calçadas da Bela Vista-Bixiga, numa tarde de quinta-feira. Eu achei graça do seu gesto protetor de andar — sempre — do lado de fora da calçada… coisa do mio babo e nono. A primeira vez que pousou seus lábios nos meus…

Essas somas não me escapam porque são as que de fato valem… essas que os humanos gostam de fazer, de dias-meses-anos… sempre me deixaram confusa. Porque lá na infância, eu usava os dedos para fazer essas contas-tolas. E eu sempre achei impossível fazer somas que exigiam mais dedos que os que tem. Lembro-me da primeira vez que o nono me disse quantos anos tinha. Fiquei com as duas mãos espalmadas e sorri ao chegar no oito. Não sabia como chegar a ‘oitenta e três’… ele achou graça e eu também, mas pouco depois me disse — ‘continue assim, não faça como a maioria: não se renda ao tempo. Tem somas muito mais interessantes e importantes para se fazer‘.

E eu segui esse conselho, afinal, para que se render ao tempo dos homens, se as emoções que coleciono se multiplicam em um misero segundo? São tantos aromas, cores, sensações, emoções…  é e a tudo isso que recorro quando escrevo. Se apenas falo em voz alta, parece algo vivido por outra pessoa… mas quando me ocupo de linhas — o cuore vai a galope pelos campos da realidade-vida que habito.

A essa soma que faço… acrescento o seu olhar pela manhã, seu sorriso pela tarde e seu quase-silêncio há pouco, já dentro da noite. São catorze outonos… que em xícaras de chá-café significa: que eu quero mais…

bacio nel tuo cuore