…mais um outono!

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Mio caro,

…já devo ter lhe dito, em uma dessas nossas muitas conversas, que eu fui uma criança quieta. Não tinha vocação alguma para traquinagens ou barulhos. Gostava de ficar no canto oposto as outras crianças. Não me misturava e não gostava de gritos, correrias… embora adorasse subir em árvores, escalar muros e mergulhar em rios… mas não apreciava testemunhas. Sempre tive imenso prazer em ser-estar sozinha… na casa vazia… na rua deserta.

E foi ainda na infância que desenvolvi a paixão pela primeira vez… o primeiro brinquedo: um tabuleiro de xadrez, feito pelo nono — inclusive as peças. O primeiro caderno — que me deixou muda-imóvel durante dias… com o cuore acelerado e os olhos cheios. Levei sete dias para rabiscar as primeiras palavras nele. O primeiro livro… de poesias — cinquenta e seis páginas preenchidas com versos num idioma novo. O primeiro envelope. A primeira missiva. A primeira caixa de madeira — para guardar meus papéis… feita pelo nono. A primeira viagem de trem com suas janelas a narrar o passado-presente-e-futuro em meu olhar anestesiado. A primeira tempestade… que ainda reverbera em meu corpo.

Somo a tudo isso… a primeira vez que você veio ao meu encontro, com seus passos lentos — mãos guardadas no bolso da calça jeans. Olhar baixo… a varrer o chão e um sorriso imenso-lindo-travesso que refletiu em mim assim que a vida nos colocou frente-a-frente. A primeira vez que engatou sua mão a minha… que encaixou seus passos aos meus e fomos caminhar calçadas da Bela Vista-Bixiga, numa tarde de quinta-feira. Eu achei graça do seu gesto protetor de andar — sempre — do lado de fora da calçada… coisa do mio babo e nono. A primeira vez que pousou seus lábios nos meus…

Essas somas não me escapam porque são as que de fato valem… essas que os humanos gostam de fazer, de dias-meses-anos… sempre me deixaram confusa. Porque lá na infância, eu usava os dedos para fazer essas contas-tolas. E eu sempre achei impossível fazer somas que exigiam mais dedos que os que tem. Lembro-me da primeira vez que o nono me disse quantos anos tinha. Fiquei com as duas mãos espalmadas e sorri ao chegar no oito. Não sabia como chegar a ‘oitenta e três’… ele achou graça e eu também, mas pouco depois me disse — ‘continue assim, não faça como a maioria: não se renda ao tempo. Tem somas muito mais interessantes e importantes para se fazer‘.

E eu segui esse conselho, afinal, para que se render ao tempo dos homens, se as emoções que coleciono se multiplicam em um misero segundo? São tantos aromas, cores, sensações, emoções…  é e a tudo isso que recorro quando escrevo. Se apenas falo em voz alta, parece algo vivido por outra pessoa… mas quando me ocupo de linhas — o cuore vai a galope pelos campos da realidade-vida que habito.

A essa soma que faço… acrescento o seu olhar pela manhã, seu sorriso pela tarde e seu quase-silêncio há pouco, já dentro da noite. São catorze outonos… que em xícaras de chá-café significa: que eu quero mais…

bacio nel tuo cuore

 

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3 comentários sobre “…mais um outono!

  1. Mariana Gouveia disse:

    eu sorvo essa história e suspiro.
    As estações marcam os dias e tudo para mim renova como a primeira vez.
    Cada coisa linda você coloca em minha vida.
    Grazie!
    Bacio nos dois ❤ ❤

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