O que faz brilhar os teus olhos?

“Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar.
Ai, que bom que isso é meu Deus, que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus, resiste aos olhos meus, só pra me provocar
Meu amor juro por Deus, me sinto incendiar” …

Tom Jobim


 

…levo meu olhar lá para fora, através da janela, enquanto na pele… a pergunta feita pela Áurea enraíza-se. Respiro fundo. Busco paisagens na qual me apoiar. Questiono-me, sabendo que se escavar o bastante encontrarei uma resposta: o que faz brilhar os meus olhos?

 

O céu esta nublado, o asfalto nublado e a tarde começa a cair e ao afastar a cortina, que o vento tumultua, encontro o que procuro — quase como um soluço que brota atrevido por entre os músculos do estomago —  e digo em voz alta: minhas mãos! Exibo aos olhos, em movimentos conhecidos: um dedilhar aéreo — quase uma dança — que se repete junto ao teclado, ao escrever o que antes é apenas um pensamento, que gosto de chamar de: notas mentais. Esse momento ‘barulhento-insano-meu’…

 

Recordo — sem muito esforço — como tudo começou… eu tinha pouco mais de sete anos e adorava apreciar os dedos do nono na ‘perversa’ máquina de escrever — uma velha Remington Victor T Portable. E ao espiar meu olhar curioso-inquieto… resolveu me ensinar a arte de ‘datilografar’. Aprendi com ele… a posicionar todos os meus dedos e a usar o teclado sem olhar as letras — tarefa nada fácil nas primeiras vezes. Durante as férias de verão daquele ano, repeti incansavelmente os exercícios, que serviam para me fazer aprende-decorar a sequencia alfa-numérica dos teclados das velhas máquinas, que durante cem anos ocuparam mesas no mundo inteiro.

 

Minhas mãos — desde a infância — em movimentos frenéticos… imitam a urdidura da aranha. Tecem essa narrativa, que acontece primeiro em meu invólucro alucinado… onde impera absoluta a loucura de Dionísio. Cabe as minhas mãos, a posteriore, transformar tudo em verdade, que convença e encontre eco no olhar alheio. Curiosamente, na condição de maestrina sensível… é quem dá asas a minha imaginação.

 

Nunca fui boa na arte de tecer meias, colchas… não sei unir fios, pregar botões. Mas desde pequena, meus dedos souberam dar movimentos as letras, seja através de uma lapiseira e sua escrita sempre fina ou de um teclado… primeiro de uma velha Lettera — que mio babo tirou do alto do armário para meu uso. E, mais tarde num barulhento teclado IBM. Hoje, se divertem ao passear por silenciosas teclas, que seguem a externar realidades minhas… não fossem minhas mãos, eu seria completamente silenciosa-muda, incapaz de dialogar! Porque não sou dada a arte do tagarelar… falo pouco — quase nada — nem mesmo se chamada à fala. Minhas mãos, no entanto, incorrem em sonoros discursos: fazem surgir um fim de tarde com calçadas para os pés, mãos dadas… e, sombras a frente do passo! Descontinuam o que resta do dia. Fazem a noite ser um fino e lúdico véu sobre a cidade e seus fantasmas antigos…

 

As minhas mãos interpretam o mundo, enquanto substancia, que se prova: em sabor e aroma…  fazem de mim esse ser impossível. Sou outra… nenhuma… muitas! E sigo aqui, sem sair de casa… a percorrer inúmeros mundos — tudo idealizado em pequenos movimentos de dedos, que se exibem em formatos pequenos…

 

…“dedos de pianistas” é o que dizia C., as unhas já não crescem como antes… porque não deixo. Não lhes dou cores, por preferir o tom natural de seus contornos: levemente rosáceos… que combinam em ranhuras, nervuras. Às vezes, alongo os dedos até estalar as juntas… passo creme. Observo meu traço com suas veias verdes a exaltarem-se. Me reconheço em cada risca que dizem, por aí, ser do coração, da vida, da memória… pouco ou nada sei sobre isso. São meus traços, minha história — inventada  ou reinventada… e, são elas, a assegurar o brilho dos meus olhos…

 

E você, o que faz seus olhos brilharem?

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5 comentários sobre “O que faz brilhar os teus olhos?

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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