Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado…

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Não era manhã de sábado… mas eu estava à procura de um antigo material — um artigo sobre a loucura, escrito num tempo anterior a esse. Revirei caixas-gavetas… espalhei tudo por cima da cama — como quem chega à casa, vindo da rua… e despe a derme das roupas impregnadas da realidade.

Quinze minutos depois… estava eu com uma xícara de chá em mãos… a voz deliciosa  de Carly Simon a ecoar pelo espaço e a minha generosa porção de Hopper — a revirar cada um dos meus rascunhos… como quem percorre calçadas sem destino — algo bastante comum a essa minha alma — amparada no desejo de caminhar, nem tanto em chegar…

Esbarrei em dúzias de coisas… até em textos que eu acreditava destruídos… em um desses momentos de fúria, que coleciono e me leva a amassar-rasgar-mutilar — o papel. Não sou dada a acumular coisas. Gosto de esvaziar-me… renovar-me. Mas há escritos que guardo para depois porque certos rascunhos me pedem a quietude das caixas-gavetas… o dia seguinte as convulsões da pele-alma.

Sempre fui dada a construção de linhas… escrever por escrever somente — enquanto exercício diário. É como ir à cozinha — abrir armários — e escolher ingredientes para as receitas que trago na memória.

Gosto de pensar em mesas postas… toalha, talheres, pratos, taças. Idealizar um Jantar para dois-três-quatro-meia-dúzia de amigos-personagens — porque é na vida real que o meu imaginário se alimenta. Gosto de fazer caldos, bolos, pães, massas. E escrever segue exatamente o mesmo ritmo.

Infelizmente não encontrei o artigo… mas não fiquei de mãos vazias. Acabei com um envelope plástico e suas folhas azuis a servir de divisórias para uma trama — escrita durante os anos colegiais. Imediatamente na primeira folha estava o título — de corpo e alma — riscado rispidamente em vermelho, como recusa severa. O sentido se perdeu.

A lápis mais abaixo… o motivo da recusa justificado por um poema — de Juan Luis Panero. Tinha encontrado um novo ritmo para as duas personagens principais da trama. Duas mulheres… fortes e conscientes das escolhas feitas no Passado que emergiu em Futuro. Decisões de vida tomadas no calor do momento — sem fôlego. Era ir ou ficar… entrar ou sair… direita ou esquerda. Não carregam arrependimentos na pele-alma… mesmo sabendo que tudo poderia ser diferente. Não se importam com o que não aconteceu… o que não foi. Estão satisfeitas com o pulsar, o sorrir, o existir. E avançam, conscientes que o melhor foi feito… e a sorte lançada.

 


 

‘Diante da vida sim, diante da morte,
dois corpos que porfiam exorcizam o tempo
construindo a eternidade que lhes é negada –
supõe eterno o sonho que os sonha.
É negro o espelho em que se replica a sua noite’.

 


 

Se tem uma coisa que me fascina na realidade… é essa bússola imantada a apontar sempre para o Norte… que no momento atende pelo título de ‘vermelho por dentro‘… resta ver se o romance não irá estranhar o novo corpo que lhe será dado.

 

 

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4 comentários sobre “Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado…

  1. Mariana Gouveia disse:

    Nunca sei se um autor se supera em outro livro, outra obra. Ou se mesmo, sem noção nenhuma, continua a obra ainda assim, plena.

    É como se o vinho fosse raro demais. É como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho.

    Vou fazer igual meu pai me disse um dia sobre a vida: beba em conta-gotas…

    Vermelho é quase esse sangue na veia a pulsar.
    e o coração, tum tum tum…

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