BEDA | As cidades mudam de lugar, mas as casas são as mesmas…

casa

eu tive muitos endereços até hoje, mas o primeiro de todos, para o qual me mudei imediatamente ao meu nascimento permanece tatuado na pele. Foi o meu primeiro lar-lugar-pedaço-de-mundo-porção-generosa-de-mim… onde passei a minha infância e parte da minha juventude. Na cozinha tinha riscos atrás da porta para indicar o meu crescimento. Uma vez por mês eu me colocava no lugar indicado e C., fazia o risco, que levou anos para mover um  {mísero} centímetro acima.

Naquela casa… eu sabia quantos passos precisava para ir até a porta e de lá até o portão. Quantos passos levava para chegar à velha casa no meio do quarteirão… onde vivia uma velha senhora portuguesa que tinha um cão chamado Gervásio… e gostava de dizer: “pessoas é uma coisa muito estranha” frase que tomei para mim e passei a repetir, imitando-a, inclusive no sotaque…

Eu sabia todas as histórias estranhas da casa da frente… quantos passos eu levava para chegar até a praça, onde pisar folhas, sentir as estações e apreciar os anciões em seus jogos de dama-xadrez-e-cartas. Os dias tinham sabores e aromas de coisas prontas.

Sábado era dia de dormir o quanto quisesse e pudesse… mas era também dia de se sentar à mesa da cozinha, preencher envelopes e páginas do velho diário de bordo. Pegar as sacolas de pano e ir às ruas para fazer compras. Eu sempre ganhava um pirulito vermelho da signorina do armazém.

Domingo era dia de receber os amigos e parentes… que chegavam aos montes, sem avisar. O almoço era servido depois das duas no quintal, embaixo da laranjeira, na mesa com seus muitos lugares…

As segundas era dia de livros… ler poesias antigas,  novos romances. Abrir as portas para os leitores, que foram se aconchegando no sofá, que ficou pequeno e foram se amontoando pelo chão, em almofadas coloridas.

Terças era dia de ir ao dentista, naquele velho prédio que cheirava a igreja fechada. As quartas… comer fogazza na rua seis. Quintas… de ritual do chá… e as sextas me levavam para a casa da costureira e sua piscina de plástico… onde as crianças sonoras brincavam e eu ficava no canto, espiando a realidade e tramando silêncios em linhas.

Os dias eram uma coisa comum… com suas rotinas simples e agradáveis. Tudo tão fácil de perceber. Mas bastava uma coisa sair do lugar para a minha realidade virar do avesso — se transformar em uma bagunça igual ao do meu quarto. E não dava para jogar tudo debaixo da cama ou afundar no armário de qualquer jeito. Me sentia completamente perdida e perguntava: “mas que dia é hoje?”. C. achava graça… e sabia que eu levaria dias para me reorganizar… porque em meu calendário particular não havia números, nomes tampouco. Apenas aquela tarefa comum a ser cumprida para que os dias fossem uma sequência natural. Ela dizia em meio a um sorriso: “hoje é dia de comer fogazza” e pronto — eu me localizava no tempo e espaço das coisas e suas “nobres” causas…

Eu morei em muitos lugares… mas nenhum outro teve a mesma importância-significado. Foram apenas lugares com teto para os olhos e paredes para as mãos — gosto imenso de sentir a textura dos lugares. É como se tivessem impressões sensoriais.

E hoje eu vivo em um novo endereço — um dos muitos que ocupei nos últimos anos — outra porção do mundo… mas o meu calendário é uma completa bagunça. Estou sempre perdida nos dias. Mas algumas coisas permanecem: hoje é sábado... dia de preencher envelopes e ocupar páginas de diários.

 


 

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4 comentários sobre “BEDA | As cidades mudam de lugar, mas as casas são as mesmas…

  1. Cilene Mansini disse:

    Que delícia de texto. Me deu tanta saudades da casa da minha avó materna, quando sábado era dia de jogar queimada na rua com meus primos e amigos que lá moravam ( muitos ainda moram), mas quase não os vejo mais.

  2. Mariana Gouveia disse:

    Eu sabia que o meu quarto na infância tinha 96 folhas de palmeiras. Uma ao lado da outra. E lembro-me que eu contava uma a uma. O piso da cozinha tinha vinte e nove tábuas.
    Isso, para dizer que me perdi em seu texto e caminhei contigo dentro dessa lembrança.
    Hoje é um outro sábado e conto meus quadrinhos de kanjis na parede e suspiro dentro de suas palavras.

    Grazie per tutti!

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