BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

DSC00848.jpgSão Paulo é uma cidade logarítmica… com dúzias de árvores prestes a cair e centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro.

Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas ruas todos os dias num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem constantes recordes, como um nó impossível de desatar.

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou: o calor persiste… há tempos não fazia tanto calor — diz a moça do tempo… querendo impressionar, como se já não bastante as altas temperaturas anunciadas por um dos diversos relógios espalhados pelas vias da desorientada Paulicéia.

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Alguém pichou recentemente o muro da casa do prefeito — sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em dúzias de paredes dos prédios da cidade, que me faz lembrar a velha Europa em seus piores dias. Mais uma soma nessa metrópole matemática.

São Paulo sempre esteve a venda — retruco de dentro ônibus — enquanto aprecio os desenhos da Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde e grita bobagens para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar.

A maioria não sabe absolutamente nada do lugar onde pisam-moram. Aqui é terra de quem paga mais… leva. E foi assim desde o começo. Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’. Era um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular — entrecortado por dezenas de rios. Foram embora… explorar outros lugarejos. E a ‘cidade’ descoberta em 1554 não conseguiu ser nem mesmo um traço no mapa do país. Esquecida, virou abrigo para os jesuítas e pouco depois… vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, mataram índios e rasgaram matas… fizeram os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

Quem estuda a história dessa cidade, talvez se surpreenda ao saber que São Paulo se inventou para o Brasil em pouco mais de cem anos. Ironicamente… soube seguir o fluxo do rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país  — se reinventou… investindo na indústria, comercio e entrou para o mundo dos negócios, atraindo investidores do mundo inteiro. São Paulo aprendeu a andar na contramão de si mesmo. Talvez por isso, seja tão estranho esbarrar em tantas pessoas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem desse solo.

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Da Vila de Piratininga, nascida nos arredores do Pátio do Colégio  — pouco resta. São Paulo se transformou num monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… foi o sonho individual de alguns. Um belo punhado de milho atirado aos pombos — que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país. É delicioso ouvir tantos idiomas, provar de tantas cores e saber que aqui ser estrangeiro é um prazer que divido com muitos, curiosamente somos mais paulistanos. Conhecemos a cidade, como se repetíssemos nossos antepassados.

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Quando cheguei… São Paulo era cinza-quase-incolor, o verde estava em extinção. As ruas eram sujas. Os prédios envenenados e as pessoas viviam engessadas numa pressa insana de ir e vir, sem saber o lugar. À primeira vista foi ódio-desconforto — quis ir embora e fui… voltei quase dez anos depois para me apaixonar por esses traços irregulares, essa realidade perturbadora, que não cansa de gritar com os nossos olhos. E me saber a casa, porque cada escritor tem um lugar para chamar de seu… aqui é minha ilha, ‘minha pequena porção’ de mundo-realidade.

selo para o BEDA

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8 comentários sobre “BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

  1. Lua Nova disse:

    Menina Catarina/Lunna, amo sua escrita. Amo o jeito como fala de sua cidade. É uma delícia provar da paixão que você demonstra. Mas vou te contar uma coisa: gosto de São Paulo não. Me assusta tanta gente, tantos prédios. Essa soma ai é muito para mim. Mas quando leio sobre a sua são Paulo, ai eu amo. beijocas

  2. Raquel Trindade disse:

    Moro logo ali, descendo a Serra. Dizemos por aqui que nossa cidade é uma província de Sampa, porque dependemos muito daí. Vontade de residir em São Paulo eu não tenho, mas a cidade tem seus encantos. Gosto de passear, de ir a museus, de andar de metrô (risos), de ir ao Mercado Municipal comer o pastel de bacalhau… Amei o texto! Bjs

  3. Roseli Pedroso disse:

    Como você, amo essa terra insana. É amor verdadeiro pois conheço todos os seus defeitos e belezas e mesmo assim, aceito-a exatamente como ela é. Aqui tem de tudo. Tudo mesmo, rs. Não saberia viver em outro lugar! Linda homenagem Lunna! Bjs

  4. Cilene Mansini disse:

    Linda sua homenagem a SP…hoje moro em um outro município bem vizinho, encostadinho pra dizer a verdade pois eu moro na linha divisória entre um e outro. Mas mesmo sendo tão perto nada se compara a SP que AMO!!
    Bjs

  5. Maria Vitoria disse:

    Meu passatempo favorito é pegar um ônibus sem destino e sair apreciando cada detalhe desse gigante que é São Paulo. A cidade que nunca dorme, apenas ressoa de leve. Um excelente texto, bem dedilhado…

  6. Claudia Leonardi disse:

    Lunna, estou encantada com seus textos!
    Que bom que você voltou com um outro olhar para nossa São Paulo.
    Eu AMO minha cidade e sua loucura
    Bjs

  7. Mariana Gouveia disse:

    Quando cheguei aí pela primeira vez, tu era abraços no aeroporto! Me agasalhei dentro deles.
    De cima, do avião, fiquei encantada com a imensidão da cidade… e tu, me apresentou as calçadas, as ruas, sendo sempre como tuo menino contigo – me protegia do lado de fora da calçada.
    Na segunda vez, corri para seu abraço e sua cidade me abraçou.
    Estou contando os meses até Novembro…

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