BEDA | clube de leitura 141

“Escrever é um bonito ato.
Cria algo que dará prazer aos outros mais tarde”.

Diários de Susan Sontag, pág. 298
Ed. Companhia das Letras

 

Em casa era uma festa… livros espalhados por todos os cantos: empilhados sobre a mesa, esquecidos no canto, ao lado da luminária, a espera de um reencontro, nos degraus… ao lado das latas de mantimentos. Num banquinho ao lado da pia do banheiro. Eram poucos os que se acumulavam em prateleiras e estantes… os que lá estavam, era porque seriam doados em breve.

C. gostava dos contos indianos. Mio babo tinha uma preferência natural pelos livros jurídicos, mas, às vezes, lia os famosos clássicos da literatura… apenas aqueles com os quais se identificava — um ou outro apenas. E eu me apaixonei ainda na infância pela literatura inglesa e a francesa. Na juventude chegaram os russo e os latinos… na fase adulta misturou-se tudo.

À noite, depois do jantar, nos sentávamos confortavelmente no sofá da sala, próximos a lareira (acesa no inverno) e escolhíamos um livro para a nossa “leitura noturna”. Nas primeiras vezes, éramos apenas os três. Mas não demorou muito tempo para esse cenário mudar e outras pessoas se inserirem em nosso ritual noturno, formando-se assim o: “clube de leitura 141”.

A primeira a chegar foi a senhora do 121… que veio nos visitar certa noite. Trouxe  o novo morador de sua casa para fazer as apresentações: um lindo filhote de labrador negro, muito gentil e educado. Um encanto de cachorro. Acontece que o filho queria levá-la para morar em sua residência. Considerava a idade avançada da mãe um problema. Ela, senhora de si que era, discordou… e pediu um cão: “melhor companhia não há” — nos disse em meio a um sorriso contagiante.

Seu olhar atento… descobriu o livro no canto do sofá. Soube naquele momento que se tratava de uma casa de leitores e que, sua presença havia interrompido um ritual. Depois de nos oferecer mil desculpas, aceitou o nosso convite para participar da leitura de ‘orlando’. Ela voltou na noite seguinte e em outras as outras noites… até finalizarmos a leitura. Sempre trazia o fiel amigo de quatro patas — cujo crescimento acompanhei — e um prato de doces apetitoso.

No livro seguinte — sugestão dela: ‘chocolate‘ — trouxe o vizinho do 172 consigo. Um jovem acanhado e quase mudo, que se esforçava bastante para exibir um sorriso em seus lábios pequenos enquanto ajeitava os óculos com a ponta dos dedos no rosto — movimento que aprendi e passei a repetir.

Lembro-me que estávamos a ler Dostoiévski (irmãos Karamazov) quando me distanciei da leitura e comecei a prestar atenção em todas as pessoas presentes… contando-os um a um. Um total de nove pessoas esparramadas pela sala: sentadas no sofá, no chão, almofadas. Cada um lia um trecho/capitulo do livro… com sua voz, emoção, entusiasmo e curiosidade.

Eu gostava imenso de observar as reações. Havia quem esfregasse as mãos umas nas outras. Quem cruzasse os braços e também as pernas. Respirasse fundo anunciando a tensão que certas cenas causavam. Arregalasse os olhos como se houvesse dentro uma janela de curiosidades particulares…

Eu apenas permanecia em estado de atenção… no canto, encolhida. Era uma menina em fase de moldes. E aquelas noites em ‘família’… eram o melhor momento.

Na última leitura que trago na memória… éramos doze pessoas. A mesa de centro estava tomada por biscoitos e bolos.  Líamos “Orgulho e Preconceito, de Jane Austen” nos últimos dias de primavera…  e fizemos promessas de novas leituras para a próxima estação — que não foram cumpridas, porque os moradores da casa 141 se foram e, às vezes, me pergunto: será que o nosso clube de leitura não se mudou para outra casa, na mesma rua?

Às vezes, quando me sento no canto do sofá — meu lugar favorito… ainda ouço ressoar em meu íntimo as diferentes vozes a narrar a história do livro que tenho em mão. Fecho os meus olhos e me deixo conduzir pelo som que ecoa da minha memória. Sei que adormeço, despertando — surpreendentemente — dentro daquelas noites. E me surpreendo observando cada membro do nosso clube de leitura. Nessa noite que se passou, lemos ‘a caderneta vermelha’ e adoramos.

 


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11 comentários sobre “BEDA | clube de leitura 141

  1. Isa Lisboa disse:

    Adoro suas histórias e eu nunca sei mesmo se elas são reais ou não, mas prefiro acreditar que são totalmente reais.

    Fiquei a imaginar o que houve com todas essas pessoas também. De repente ainda estão lá a esperar por vocês. Enquanto isso o clube continua, só mudou de número. rs

    beijos

  2. Claquete girls disse:

    Esse seu texto me fez recordar um livro que li recentemente: “a sociedade literária e a torta de casca de batata”. Uma leitura deliciosa, por sinal, que eu recomendo muitíssimo.

    Quem sabe você não funda um novo clube, heim?
    Bacio.

    • Lunna Guedes disse:

      Eu adoro esse livro, minha cara.
      Faz algum tempo que li e me interessei por ele justamente por contar a história de um clube de leitura.
      Aliás, é uma boa sugestão, viu? Vou ler novamente.

      bacio

  3. Claudia disse:

    AMEI este seu clube suas impressões
    Me vejo na cena também e adoraria ter participado.
    Escrevi hoje sobre o nosso clube da leitura, que me traz tantas emoções.
    Lunna, também viajo com você
    AMEI o livro Sociedade Literária citado acima.
    Aqui até os comentários são deliciosos e tbe prefiro acreditar que as histórias são reais, embora a fantasia também seja maravilhosa
    Bjks mil, querida

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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