BEDA | A caderneta vermelha


Depois de concluir a leitura de ‘a caderneta vermelha’ na mesa de um café entre esquinas… com copos brancos abandonados pelas mesas, precisei respirar. E enquanto vivenciava a história do começo a fim, revendo os encontros e desencontros de vida… recordei meus moleskines e pensei nas palavras que deitei neles ao longo dos dias em movimento. Sempre tomo notas das minhas insanidades. É um costume antigo… contar o que penso, sinto, experimento… comecei a fazer terapia aos doze.

C., considerava ideal para alguém, como eu, que temia enlouquecer — não suportava pessoas, amava cães, o silêncio e um quarto escuro. Foi uma boa idéia, reconheço. Existia em mim uma necessidade de encontrar alguém que não fosse uma folha de papel… para dialogar. A estranha que me ouviu pela primeira vez, fazia anotações também e eu achei mágico trocar palavras com alguém que repetia meus gestos. Não confessei a ela as minhas verdades, mas não a brindei com as minhas mentiras. Adoro contar histórias… e no meu caso: mentir sempre foi aconselhável — evitava constrangimentos. Principalmente que meus pais fossem chamados ao colégio por motivos bobos… algo que sempre me aborreceu.

Me acostumei a fingir diários… mais de uma vez os abandonei em lugares cuidadosamente escolhidos para que fossem lidos por determinada figura. Foi uma fase… estava a aprender os ‘personagens’ e a encontrar um meio de ‘inventá-los’ em minhas próprias fôrmas a partir do que a realidade — esse celeiro — me oferecia.

Mas nunca tive  — como a personagem do livro — um diário roubado. E não consigo me desvencilhar dessa possibilidade. O que sentiria no lugar dela?

“A questão que se apresentava agora era quase de ordem moral: levá-la consigo ou deixá-la ali mesmo? Em algum lugar da cidade, com certeza uma mulher tinha sido roubada e, muito provavelmente, perdera a esperança de rever seus pertences.”

No livro, é assim que se desenrola a trama escrita por Antoine Laurain. A bolsa contendo todos os pertences de Laure é levada por um desconhecido  — após um assalto  — que a descarta… sendo encontrada por outro desconhecido  — um livreiro.

E a cada virar de página se torna impossível não torcer que a procura de Laurent resulte num encontro. E para que Laure se encante pelo homem de quarenta e poucos anos, que fez o que poucos homens seriam capazes de fazer: procurar incansavelmente pela dona da bolsa, apenas para lhe devolver os pertences roubados.

 “Bebeu mais um gole de vinho, com a nítida sensação de que ia cometer um ato proibido. Uma transgressão. Um homem não remexe a bolsa de uma mulher – até os povos mais atrasados deviam obedecer a essa regra ancestral.”

E depois de ultrapassadas cento e poucas páginas, por um instante, você acredita que  o único final feliz da trama é a volta da bolsa as mãos de Laure. No mais… ambos seguirão com suas vidas. Irão conhecer outras pessoas… e em algum momento sentirão falta do que não viveram, porque o destino urde suas teias ao seu bel prazer.

Quantos amores não aconteceram porque você virou uma esquina antes?  — ou se atrasou o suficiente para perder o ônibus? Chegou tarde demais e ficou de fora? A vida é assim… você pode chegar cedo… ou tarde demais.

“Como se podia desaparecer tão facilmente da vida de alguém? Talvez com a mesma facilidade, em suma, que se entrava.”

Mas, para nossa sorte, em alguns casos, o universo conspira a nosso favor  — e alguns autores também.


Companhia das Letras
Gênero: Ficção francesa
Páginas: 135

 

 

 

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15 comentários sobre “BEDA | A caderneta vermelha

  1. Claquete girls agosto 24, 2017 / 16:55

    Olá Lunna… eu comprei esse livro pra dar de presente para uma amiga. Achei a cara dela, mas brigamos e acabei me presenteando. Adivinha? Adorei. É uma história muito envolvente e totalmente fora dos padrões comuns de uma sociedade hiperconectada.

  2. Lu Amorim agosto 24, 2017 / 16:58

    Toda vez que aqui visito, me surpreendo mais contigo. Cada coisa linda que leio.
    Abraças-me.
    Adoro ler-te!
    Imenso carinho e admiração, minha CATARINA!!
    Beijos de café com bombom! ☕☕

  3. Lua Nova agosto 24, 2017 / 17:01

    Dona Ctarina/Lunna… não conhecia o livro, mas já quero ler. Adorei os trechos que postou. Gosto da maneira como você traça um paralelo entre o livro e a si mesma. Fiquei encantada. Nossa, E tem tão poucas páginas e o protagonista parece ser tão incrivel. Já quero ele para mim

    bisou

    • Lunna Guedes agosto 24, 2017 / 18:35

      Excelente dica Leticia.
      Eu o encontrei na livraria e obvio que o título me atraiu.
      Li o primeiro capítulo (curtinho) ali mesmo, entre as prateleiras da Livraria da Vila e amei.
      bacio

  4. Ane Carol outubro 5, 2017 / 21:48

    Ler tua resenha me fez imagina um filme francês e que surpresa a minha chegar ao final o texto e me deparar com a informação que a obra é francesa. Esse é um livro que provavelmente eu leria. Gostei da dica.

  5. Retipatia fevereiro 2, 2018 / 15:07

    Afff eu nem sei mais porque me surpreendo, vim aqui ler uma resenha e encontrei uma análise, algo muito mais íntimo, delicado e gostoso de ler.
    Eu não conhecia o título e, pelo tanto que a leitura lhe despertou, fiquei curiosa, pela trama, pelas personagens, pelo desfecho (na verdade o trajeto me interessou bem mais que o fim).
    E, como se não bastasse, você encerra com chave de ouro, com essa quote e esse suspirar. Quanto amor ganhamos e perdemos nos encontros e desencontros da vida? Jamais saberia fazer a matemática exata, esta nunca foi minha melhor matéria na escola… mas ouso dizer que fazem parte do destino ou, para os que não acreditam nesse, nos caminhos que optamos trilhar.
    xoxo

  6. Hanna de Paiva fevereiro 2, 2018 / 15:32

    Puxa, que lindo trecho! E juro que, lendo, parecia até um desabafo de alguém mesmo. Me senti num filme, uma peça de teatro, foi lindo! Eu passo poucas vezes por aqui, mas toda vez sou presenteada com algum texto maravilhoso! =)
    Bjks!

    Mundinho da Hanna

  7. Isabelle Felicio fevereiro 2, 2018 / 17:29

    Mas gente, que resenha incrível foi essa? Já me senti imersa na história lendo tudo isso aqui, e fiquei com um quentinho no coração ao perceber o quanto eu gostaria de ler esse livro. Eu to até sem palavras, mas com um desejo enorme de ter esse livro agora na estante ❤

  8. blogcoisasdavidadabru fevereiro 3, 2018 / 13:36

    ja vi esse livro em algum lugar parece ter sido uma leitura bem interessante a historia parece trazer uma sensação boa e com sua resenha deixa ainda mais curiosa pelo livro

  9. Aline Callai fevereiro 3, 2018 / 22:25

    Uauu que história incrível! Fiquei super curiosa para saber o que vai acontecer em seguida e super leria! Eu tinha esse costume de escrever diários também, deu até vontade de voltar!
    Beijos,
    http://www.nomundodaluablog.com/

  10. Luana de Souza fevereiro 4, 2018 / 0:23

    A forma como você escreveu, associando o livro a realidades suas, ficou incrível. Eu realmente me identifiquei com muitas partes da sua resenha-texto-análise, tanto que até me impressionei. Fiquei com muita vontade de ler esse livro, mesmo não sendo o estilo que costumo ler! Uma das coisas que tenho medo é ter meus cadernos e diários abertos por outras pessoas… também tenho o costumo de anotar pensamentos, sentimentos, aleatoriedades… ❤ Pensar no tanto de coincidências dos nossos dias, e em como algumas podem mudar tudo, me faz ver o quão incrível são as pessoas!

    Parabéns pelo post moça 🙂

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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