6 on 6 | minhas manhãs…

Não sou feita de auroras… é uma de minhas frases-tatuagem, que repito há anos. Não gosto quando o dia acontece com seus tons dourados de sol. A manhã é qualquer coisa aborrecida-enfadonha.

Respiro fundo e me fecho dentro… não aprecio a luz do sol e prefiro — desde a minha meninice —, o breu… o crepúsculo… a noite que acelera o meu pulsar e faz transbordar tudo que guardo dentro durante as horas mais ingratas do dia!  Sou eu mesma dentro da noite, sou qualquer outra-vã dentro das manhãs e seu dourado existir…

 


 

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Adoro vestir pijama antes de o dia despertar… caminhar entre os espaços da casa, com meias nos pés para sentir o ambiente e meditar as horas passadas na companhia das páginas brancas de um caderno ou de um velho livro-parceiro. Gosto de travar contato com o lençol e perceber o breve desligar-se do dia-vida-realidade-corpo. Dormir pela manhã é uma das coisas que me causa imenso prazer…

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Depois de água fria no rosto e uma xícara de café... gosto de passar pela porta e ir as ruas… sentir os lugares com o sabor da primeira vez. Recordo a infância, quando era levada pelas mãos de C.  — que apontava o caminho-pessoas-casas-prédios-jardins-praças. Ela tinha um mapa particular de suas coisas prediletas… e eu nunca me desprendi desse gesto, que trago como herança dentro dos meus gestos. 

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Não é todo dia… porque nem sempre quero mesa pronta, coisas nos seus devidos lugares. Mas, às vezes, eu acordo e quero xícara, pires, talheres, um cesto com pães recém chegados da padaria ou saídos do forno, um pote com a manteiga bem batida e as cores do dia na janela da cozinha…

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A cama pronta e o virar das páginas… gosto de voltar para casa, tomar um banho de minutos, vestir apenas uma camiseta e me jogar na cama com um livro em mãos. É minha maneira sutil de sonhar acordada…

6 ON 6 minhas manhãs

Arrumar a cama… eu nunca me entendi com essa história de cama arrumada. Gosto da bagunça dos lençóis e travesseiros.  Do rastro que o corpo deixa e do silêncio-quietude que as cobertas amontadas emanam. É uma poesia de T.S.Eliot a qualquer hora do dia. Só houve um instante em que gostei de arrumar a cama… quando Patrick — um cão da raça boxer — vivia conosco. Ele se sentava no meio do caminho e esperava pacientemente que tudo estivesse no seu devido lugar para saltar e arrumar tudo a sua maneira — como se soubesse das minhas preferências.

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Buongiorno!  — aqui em São Paulo city… se diz ‘bom dia’ mas, eu nunca me entendi com essas duas palavras, como outras tantas. Gosto de acordar com a casa vazia, perceber os cômodos, dar pelos espaços e sentir falta do que não está lá. De relembrar outras vidas — eu já tive tantas  — , preparar uma xícara de café e ser tragada pelo aroma desse líquido poderoso… ir de encontro a coisas que alimentam o meu pulsar. Celebrar o tempo presente através de ingredientes  que misturados , são somas de todas as pessoas que sou. E ver a cadeira vazia a minha frente ser ocupada por esse menino que me sorri com os lábios-olhos, que me conquista um pouco mais a cada dia com suas formas inusitadas de silêncio. 

 


 Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega


 

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12 comentários sobre “6 on 6 | minhas manhãs…

  1. Frasco de Memórias março 7, 2018 / 9:11

    Um despertar muito particular, Lunna!
    Adorei partilhar este momento tão íntimo… devagarinho, como são as manhãs perfeitas!
    Bacio!

  2. Clayciele Oliveira março 7, 2018 / 15:42

    Adorei conhecer mais sobre a sua intimidade.
    Inclusive amei essas fotos ❤ Ficaram poéticas.

    Beijos

  3. Juliana Sales março 7, 2018 / 18:35

    Cada vez que venho aqui me encanto mais com a poesia das suas palavras. Que delícia ler esse texto e até me identificar com alguns pontos, como a preferência pela noite e o fato de nunca ter entendido a necessidade de se arrumar a cama, gosto mais daquele baguncinha aconchegante do que de uma cama toda arrumadinha.

  4. Luana Souza março 8, 2018 / 15:43

    Eu fico abismada porque toda vez que venho aqui parece que estou dentro de um livro todo poético *-* amo o jeito como você escreve, e as fotos estão lindas! Assim como você, eu amo andar pela casa de mais, e de ver a cama bagunçadinha, com as cobertas emaranhadas haha ❤

  5. Renata Porto. março 9, 2018 / 20:13

    O texto traz uma calmaria e muita nostalgia ao ler e reler seus inúmeros parágrafos.A vida cotidiana de muitos escrita de uma forma tão poética tão particular.A vida é isso uma explosão de sentimentos desde a calmaria a inquietude.Amei ler esse texto!!

  6. Mariana Gouveia março 10, 2018 / 20:56

    Acompanhei algumas de suas manhãs – que por minha causa, rompeu a rotina – tua – e confesso que cada vez que ligo minha máquina de café, me transporto para o cheiro de tua cozinha.

  7. Darlene R. Faria março 17, 2018 / 12:48

    As fotos e palavras nos levam a despertar ao teu lado!
    Gosto do amanhecer quando ele é a continuação de uma noite gostosa em que a conversa entre amigos ou a música ultrapassou os limites da noite-madrugada e o sol nos ilumina em nossos momentos de relaxamento e paz convidando todos a se recolher e dormir o restante da manhã. Se não for assim, concordo contigo: Há algo enfadonho nas auroras!

    Beijos carinhosos!

  8. Cilene Mansini março 21, 2018 / 22:51

    Fotos lindas e passa total sentimento de aconchego, também não sou fã de arrumar casa e nem de calor desmedido, mas fujo da chuva. Gosto mesmo é de um tempo nubladinho com uma leve brisa pra eu vestir meu cardigã e ser feliz.

  9. claudialeonardi abril 7, 2018 / 20:35

    Que post delicioso
    Adorei suas fotos e saber mais sobre suas manhãs.
    Confesso, AMO cama bem arrumada. Preciso esticar bem esticadinho o lençol, senão não consigo dormir…cada um com suas preferências, né?
    Patrick deve ter sido uma ótima companhia…
    Mais uma vez saio daqui encantada
    Bacio

    • Lunna Guedes abril 8, 2018 / 22:35

      Adoro essas diferenças, carissima. Acho singular. Minha mãe também era assim, fazia questão da cama bem arrumada. Eu, para variar, sempre fui seu contrário. rs

      bacio

      Ps. Patrick foi o melhor dos cães. Uma alma rara….

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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