04 | das lições de vida que ficam

Depois de ler mais uma vez o livro ‘silêncio na era do ruído’ nesse fim de semana, me surpreendi em sorrisos a recordar diálogos da infância-juventude enquanto esperava pelo tempo do chá.

“há muitas maneiras de se viver a vida” — foi o que C. me disse. Ela me aconselhava a fazer as minhas escolhas desde menina. Prove. Aprecie. Experimente… eram seus conselhos diários e esses verbos se tornaram os meus favoritos. Os conjugo diariamente-constantemente.

Certa vez… eu estava decepcionada com o resultado de um jogo — uma derrota me consumia o humor, a disposição e me fazia questionar gestos meus e de outros, rever jogadas e criticar movimentos. Ela preparou duas xícaras de chá e ficou lá — do outro lado da mesa — a me espiar com seus olhos de femme, sem nada dizer. De repente começou a cantarolar uma música conhecida… e minha fúria se dissolveu gradativamente. Escorreu para fora de meu corpo e quando dei por mim estava a cantar com ela e o corpo a se mover no ritmo daquele som-nosso.

Bebemos pequenos goles de chá de folhas-flores e ela soltou uma de suas falas pautada por qualquer coisa de reflexão — “é preciso coragem para desistir” — ela tinha razão, like always. Não é nada fácil assumir um fracasso. Te consome os nervos… os da mente, principalmente. Custa uma vida inteira.

E eu teria certeza disso… anos mais tarde, quando assumi diante do espelho que tinha feito escolhas — erradas — de vida. Respirei fundo… preparei uma xícara de chá e cantarolei pelos cômodos da casa. Decidi fazer a voltar… recomeçar. Consciente de que não seria fácil. O mundo reagiria a minha decisão…

As pessoas, normalmente, são educadas a não desistir, a não fracassar, a não perder. Somos domesticados de acordo com certos códigos de conduta que nos obrigam a serem sempre os melhores — dentre os melhores. Temos que fazer escolhas… decidir nosso destino-futuro e se conformar com o traço feito a partir disso.

E ainda que não façamos idéia de que lugar seja esse — o topo do mundo — o queremos porque ser o primeiro é o que realmente importa… e existem exemplos de seres perfeitos que chegaram ao topo do Everest.

Mas não foi o que aquela mulher incrível… me ensinou. Com ela… aprendi que chegar só é importante quando apreciamos as nuances do caminho e não importa a colocação conquistada. Até o último lugar é bom quando contamos os passos apenas para se perder de si… e ser necessário se orientar por mapas próprios para se reencontrar e percorrer o melhor dos caminhos: de volta a si.

Foi o que eu fiz… e nem faz tanto tempo assim. Hoje, após mais de uma década… ao beber um pesado gole de chá, repito o velho refrão enquanto espio meu Everest-particular — chama-se: ‘vermelho por dentro’…


 

 

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3 comentários sobre “04 | das lições de vida que ficam

  1. Realmente uma frase muito sábia , “é preciso coragem para desistir”. Nem sempre é fácil, infelizmente às vezes a acomodação parece a melhor alternativa, mas acho que vale mais tentar mudar, do que ficar estagnado na infelicidade.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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