Efeito em luz e sombra…

…aconteceu quando eu completei treze anos — mio nono me ligou as dez e meia de uma manhã esbranquiçada. Ele queria me ver — “tenho minhas urgências” — disse com sua voz rouca-grave-de-tenor, que me fazia rir-agir-e-reagir…

…cheguei horas depois e o encontrei cuidando de seus cavalos. Ele era um homem apaixonado: pela vida-mulher… pelo lugar onde escolheu viver e tudo que conquistou: filhos-netos-plantações-de-uva-cavalos-cães. As fases da lua e as estações do ano.

Era um homem simples… que tomava café sempre na mesma caneca-de-ágata. Gostava da calça mais velha-desbotada-rasgada… a bota de sola gasta, acostumada ao seu passo e do cinto de couro feito por um antigo funcionário…

Depois do tradicional passeio pelo cenário dividido entre pastos-e-plantações-de-uva… fomos ao seu cantinho-oficina. Ele me presenteou com um combinado de galhos — recolhidos ao longo dos anos —, devidamente amarrados com fita vermelha… e guardados dentro de um velho baú, confeccionado por ele.

Soube que cada galho representava um ano da minha vida… era a sua maneira de celebrar o meu nascimento, ano após ano. O que eu não sabia — talvez desconfiasse — era que se tratava de um ritual de passagem-despedida.

Ele se foi no ano seguinte… durante uma tempestade, que o arrancou da cama para socorrer os seus amigos-de-quatro-patas. Ele ficou pelo caminho naquele oito de junho. O cavalo voltou sozinho, a galope, consciente do mapa que traçava para nos levar ao encontro de seu amigo…

Aconteceu poucos dias antes do verão… da mesma maneira que nasci: entre um trovão e outro. Tudo foi diferente depois disso. Mas, eu continuo a colecionar galhos… ano após ano.

Quando acontece o dia vinte e nove, saio para caminhar e faço minha colheita. De tempos em tempos embrulho-os com uma fita vermelha e os arremesso ao fogo… apenas para ter a noção de quantas vidas vivi e quantas ainda me restam.

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7 comentários sobre “Efeito em luz e sombra…

  1. Seu avó deixou marcada uma memória afetiva muito querida. Achei a ideia dos galhos tão carinhosa! Intuitivamente ele já sentia que fim de sua passagem se aproximava, a despedida foi singela e poética, fiquei tocada.

  2. Eu já disse várias vezes que adoro o seu jeito de escrever, mas esse texto me encantou de uma forma que nem consigo dizer. Achei ao mesmo tempo tão delicada e tão forte essa questão dos galhos. Senti vontade de fazer algo parecido para celebrar uma data importante e homenagear uma pessoa especial na minha vida. Será que vale começar com alguns (muitos) anos de atraso? Lendo o texto também senti muita saudade da minha avó. Tenho uma mãe maravilhosa, mas minha avó foi minha referência na infância, ela que cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava… Seu texto me trouxe vários sentimentos bons, me sinto com o coração aquecido.

  3. Carissima
    Belíssimo texto.
    Eles são sempre lindos, mas oeste, é especial.
    Forte e terno, lembranças que doem, mas acalentam
    Também tive nonos especiais, mas amei o simbolismo do seu
    Obrigada pelo presente em forma de texto.
    Bacio

  4. Que lindo texto!!
    Seus posts sempre me trazem lembranças da minha infância. Infelizmente nunca conheci meus avôs, os dois faleceram quando eu tinha apenas três anos. Mas tenho lindas lembranças das minhas avós. A materna era a vozinha que contava história e paterna e vó doida rs que falava palavrão e molhava nossa chupeta do vinho 🙂
    E minha avó, como seu avô sempre me dizia, se eu morrer perto do seu casamento, você não cancela a festa de jeito nenhum. E assim foi, ela faleceu final de setembro e meu casamento estava marcado para comecinho de outubro. Mas a festa aconteceu como ela assim pediu 🙂
    Beijos

  5. Lunna, que texto belíssimo!
    Eu fiquei bastante emocionada com seu nono e esse carinho representados nos galhos e a forma como ele se despediu.
    Uma doce lembrança para carregar para vida toda.
    Tive meus nonos e nonas, saudades!

    Bacio!

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