O melhor dos prazeres: combinar ingredientes

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“Esta é uma arte que aprecio. Existe uma espécie de feitiçaria em toda culinária (…). E é parcialmente a transitoriedade disso que me delicia; tanta preparação carinhosa, tanta arte e experiência colocada num prazer que pode durar apenas um momento,  e que só uns poucos apreciarão plenamente.”

Joanne Harris in Chocolate


Eu cresci, no sentido de evolução, dentro de uma cozinha… lugar onde acompanhei as proezas de minha Nona, que misturava ingredientes como quem escreve uma frase perfeita — dessas que se destacam em um livro, nos obrigando a grifa-la.

Mio babo herdou o talento… adorava vê-lo na cozinha, bebericando uma taça de vinho enquanto preparava um jantar de sábado para um combinado de amigos — cuidadosamente selecionados para participar de seu ritual: definir o cardápio, escolher os ingredientes, os talheres-louças-taças-toalhas…

Providenciar os ingredientes era coisa de C. — que com a lista em mãos… ia as compras. Ninguém que eu conheça tem a habilidade daquela mulher para escolher ingredientes. Ela apalpava-agitava-cheirava os ingredientes… pequenos segredos para saber se o legume estava ideal…

Mio babo nunca fez uso de receitas e a nona tampouco… eu nunca pensei em cozinhar até me deparar com uma revista em um hipermercado e salivar ao vislumbrar a fotografia de um prato.

Não dei a mínima para a receita… me ative unicamente ao que era ingrediente. E, como quem repete gestos antigos e conhecidos… combinei em mim o melhor de meus mundos. Desenhei uma lista mental e voila, passei entre gôndolas, escolhendo os ingredientes necessários e ao chegar a casa, repeti o conhecido ritual de sábado — e preparei um  risoto branco!

Atestei o que já desconfiava… cozinhar requer paixão, cuidado e interesse… uma boa música, uma lembrança gostosa que faça despertar cada um dos nossos sentidos — um estado pleno de consciência quanto ao espaço-tempo… e a anatomia de todos que estarão à mesa.

Se por acaso se tratar de um jantar solitário… é preciso se lembrar de que somos nossa melhor companhia e se tem uma coisa que aprendi com os meus foi que é preciso conquistar-se todos os dias. Agradar os outros é muito bom, mas nada melhor que agradar a nós mesmos com bons ingredientes…

Para a noite de hoje: escolhi fazer ‘penne verde’ — couve flôr, alho poró, cebolas e alhos, salsa, couve manteiga e queijo parmesão — para duas pessoas! E enquanto lavava-picada-cortava-filetava e preparava o meu saboroso ritual… comecei a escrever essas linhas.

E agora, aguardo pelo aroma… volto no tempo e misturo o meu sorriso ao de mio babo. Bebo um gole de vinho branco e percebo que não é noite de sábado, mas quem se importa?


 

Na vitrolinha — conhecida por youtube —
Andrea Bocelli canta para mim!

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11 comentários sobre “O melhor dos prazeres: combinar ingredientes

  1. Mariana junho 22, 2018 / 20:50

    Tem gente que realmente tem talento natural para isso, mas infelizmente eu não sou dessas pessoas então fico apenas sonhando em cozinhar pelo menos decentemente para sobreviver (coisa que ainda não tenh capacidade).
    Acho especialmente interessante quem conhece os diversos temperos e faz comidas verdadeiramente cheirosas, afinal de contas, o olfato e o paladar estão diretamente ligados. A mistura de plantas também me lembra feitiçaria, cozinhar é quase uma religião!
    Beijos e até mais :*

  2. Mariana Gouveia junho 22, 2018 / 20:56

    Que delicia!

  3. Monique Dieli Chiarentin junho 23, 2018 / 14:22

    Cozinhar é muito bom mesmo!
    Não sei cozinhar muito bem, mas às vezes me arrisco e faço algum bolo ou ajudo minha mãe a preparar algo mais elaborado. Cresci vendo minha mãe fazer pão, grostoli (ou cueca virada HUAHUSA) e capeletti (ou agnolini), mas faz anos que ela não faz mais. Somos descendentes de imigrantes alemães e italianos, então estamos acostumadas a muita comida e ingredientes diferentes e saborosos!
    Inclusive, preciso me arriscar mais na cozinha!

    Amei seu texto ❤

    Beijos
    invernode1996.blogspot.com.br

  4. Isa Gomes junho 23, 2018 / 23:04

    Perfeito esse texto! Adorei saber mais sobre sua trajetória na culinária. Muito interessante! ❤
    Mil beijos!

  5. Patricia Monteiro junho 24, 2018 / 9:04

    Cozinhar é uma arte e para quem tem a oportunidade de crescer ao lado de alguém com essa habilidade, a comida pode remeter a belas lembranças. Meu pai era fera na cozinha, fazia pizzas, pães, doces árabes e até iogurte (tb tudo sem receita). Hoje anda meio cansado, a idade pesou…mas as lembranças das tardes regadas a pizza mais gostosa que já experimentei vão me acompanhar pro resto da vida.

  6. Juliana Sales junho 24, 2018 / 18:33

    Talvez seja essa a primeira vez que não sinto um reconhecimento ao ler um texto seu. Não gosto de cozinhar. Não sei cozinhar. Minha mãe também não gosta. Minha avó era quem cozinhava em casa. Fazia pratos deliciosos, mas nunca teve nenhuma relação especial com o ato de cozinhar. Fazia porque tinha que fazer. E mesmo assim, fazia cada coisa maravilhosa, e que nunca mais comi igual. Eu sei fazer o básico para não morrer de fome. Mas não gosto. Não tenho paciência. E sempre que possível, evito. É bem como você disse: “cozinhar requer paixão, cuidado e interesse.” Eu não tenho nada disso. Prefiro lavar a louça! rs

  7. Luana Souza junho 24, 2018 / 19:24

    Que post maravilhoso. A foto de capa também está um encanto. Sem querer falar das minhas crenças, mas concordo totalmente com a frase do topo, e no poder que misturar alguns ingredientes ou temperos tem.
    Meus pais são cozinheiros, e eu também cresci vendo-os preparar pratos ótimos. Infelizmente, acho que eu não herdei esse talento, pois sou um fracasso na cozinha. De todo jeito, eu tenho boas lembranças das cozinhas que passaram na minha vida, em especial a da casa dos meus avós, pois lá já vivi momento maravilhosos!
    Beijos :*

  8. obduliono junho 26, 2018 / 21:07

    Finalmente consegui parar para comer esse delicioso texto-prato, Lunna! Gostei de tudo, incluindo a couve flôr (com acento) de sua culinária atávica!

  9. Darlene R. Faria junho 27, 2018 / 0:28

    Maravilhoso texto! Conseguiu me transportar até a infância – a tua e a minha – pois também tenho lembranças especiais sobre a cozinha e a mágica de combinar ingredientes.
    Um enorme abraço cheio de carinho!

  10. Fernanda Akemi junho 30, 2018 / 19:04

    Que delícia de texto!!!
    Eu sou apaixonada por tudo que escreve e sempre me remetem a lembranças tão boas.
    Eu aprendi a cozinhar com minha nona também, ou melhor, minhas nonas!!! E concordo, mais que seguir uma receita, requer paixão, sentimento e criatividade.
    Amei o texto!!!

    Bacio

  11. Retipatia julho 23, 2018 / 16:51

    O post deu água na boca, e não foi pela imagem lá em cima. As palavras exalaram cheiro e sabor e fiquei querendo risoto, fiquei querendo penne verde e essa destreza culinária a qual careço.
    Não vou negar, sai um excelente brigadeiro e bons cubos de gelo de minha cozinha, quem sabe bolos macios em dias bons, mas, no geral, eu gosto mesmo é de apreciar a boa culinária (acompanhada de mim mesma ou de mais alguém…)… rsrsrsrs
    E depois de ler esse texto, julgo sem degustar: tu com certeza cozinhas como escreves…
    xoxo

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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