19 | mário. de andrade

mario.de andrade

um nome. homem-mulher. um nome. autor. mas, como se escolhe apenas um, quando a soma aponta tantos? Eu poderia citar Emily Dickinson e a sua poesia fatal. Sei bem o que me causou na primeira década de vida. Foi um cair de panos. Antes e depois dela.

Poderia citar Álvaro de Campos e sua metafisica. Sei bem dos tumultos que me causou na segunda década de vida. Tomou de assalto o meu corpo, expulsou a minha alma e fiquei à deriva. Se não me engano foi a causa de minhas mortes. Virou antes e depois dele.

Poderia citar Jane Austen e seus romances-eternos, que ainda ecoam em meus olhos, desde a primeira leitura até a última. Não me canso de voltar aos seus livros-personagens-vivências.

um nome. apenas um nome. nessa soma de décadas quase inteiras. caminho firme para os quarenta. Foram muitos os nomes que passaram por minhas mãos-olhos-boca-pensamento.

Poderia citar Mia Couto. um dos últimos a chegar. Gosto imenso do diálogo que ele me propõe através de suas vivências reais ou imaginárias. É tudo tão calmo-intenso… que me vejo obrigada a longas pausas para levar uma generosa porção de ar para dentro.

Susan Sontag… impossível não citar essa mulher que me pôs para pensar. Marcou de maneira incisiva uma das minhas vidas. Não sei dizer qual. Talvez todas… antes-e-depois dela.

um nome. maldição. apenas um nome. nessa soma de livros que se acumulam. olho para a prateleira e outros nomes se precipitam. se jogam. se atiram… Paul Auster… Zafon!

mario

Respiro fundo e escolho Mário. de Andrade. Que foi trezentos. Mais. Trezentos e sessenta. Nasceu-e-morreu na sua Paulicéia Desvairada. moderno-errado-equivocado. era Mário. apenas um nome.

Na rua Autora eu nasci
Na Aurora de minha vida
E numa autora eu cresci

Hoje o querem mais. Branco. Preto. Índio. Cafuso. Inteiro. Pela metade. Homem. Poeta, não!  Justamente ele que era mais. Muito mais.

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Ergueram um templo em sua homenagem na Consolação, esquina com a São Luis, uma das mais simpáticas ruas da cidade. Um pouco mais acima estão os restos do homem que não queria ficar detido a um assombroso epitáfio.

Meus pés enterrem na rua Aurora
No Paissandu deixem meu sexo
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

Avanço por seus escritos. Descubro prédios. Entendo as simetrias! Aconchego o corpo e a alma no Viaduto do Chá. Descubro que há horizontes por trás dos tumultos humanos.

É noite. E tudo é noite.
E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres
pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes
o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras
na terra dos homens,
Onde me queres levar?…

O poeta percorre os cantos… cabisbaixo-sério-acabrunhado… aprecia os movimentos incontidos. O crescimento sem limite. As formas inversas. Se lembra que foi mau aluno. Aprendeu a gostar de estudar depois que concluiu o ginásio. Era tarde. Colecionou dissabores. Figura quieta-miúda. Ele sempre quis ser o outro. Menos culto. Mais andarilho. Menos perfeito… outro.outro.outro. Só conseguiu ser Mário. de Andrade.

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Batalhou pela arte paulistana… reverenciou a cultura de seu país e a geografia de sua gente. Escreveu seu primeiro poema num estalo, com palavras inventadas. E viu sua vida ser atormentada pela morte do irmão. A perda o feriu gravemente. Passou a colecionar dores-dissabores-fracassos. Tudo lhe doía… do corpo à alma. Tantas crises o acometeram. Sua desgraça-maldição. Tudo em sua vida era uma constância. O amor não foi menos, desde o primeiro até o último…

Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… e eu afinal
me repousei dos meus cuidados.

O homem acabou traído pelo seu coração no ano de 1945. Difícil dizer tudo que aguentou dentro do peito até estar tão farto-fatigado… que sucumbiu. Era tarde-noite-ou-a aurora… da vida. Era o fim…

Mário nasceu para ser diferente, misterioso! Gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter”. Mas ninguém ouvia, tampouco via esse seu lado. Oswald era o devasso-piadista-bêbado-boêmio. Mário era erudito, sem vícios ou abusos… correto. Imagem que sempre desprezou. mas foi a que ficou.

 

“me vejo convertido a erudito respeitável e,
o que é pior, respeitado. Isso me queima de vergonha”.

 


blogagem coletiva

Participaram
Ana Claudia | Claudia | Fernanda  |Renata

Anúncios

12 comentários sobre “19 | mário. de andrade

  1. claudialeonardi setembro 19, 2018 / 20:28

    Carissima
    Bela escolha!
    Gostei muito do post e de saber mais sobre este escritor, por mim ainda desconhecido.
    Mia, ah Mia! AMO! Era uma das minhas opções
    Bacio

  2. Tá Lendo setembro 20, 2018 / 15:18

    Parabéns pela escolha! Recentemente ganhei um livro de Mario de Andrade, esta aqui na estante aguardando o momento certo…Estou em outra fase!!!
    Abraços

    • Lunna Guedes setembro 20, 2018 / 15:43

      Fiquei curiosa para saber qual livro de Mário de Andrade, ganhou? Tenho quase todos! rs

  3. Juliana Sales setembro 20, 2018 / 18:01

    Concordo que é imensamente difícil escolher um único autor preferido. Eu tenho meus queridinhos e não sei se saberia escolher apenas um deles. Admito que conheço pouco a obra de Mario de Andrade, me lembro apenas do pouco que aprendi na escola. E suas palavras sobre ele e as citações que escolher me atraíram a atenção e hoje mesmo vou dar uma pesquisada na biblioteca da minha sogra para ver se encontro algo dele para ler, já que eu mesma não tenho.

  4. Fernanda Pedotte setembro 21, 2018 / 9:12

    Olá!!

    Que escolha maravilhosa!! E que post fantástico.
    Eu aprecio muito Mario de Andrade. O Pauliceia Desvairada é um título que ainda não li, mas tenho na estante e pretendo em breve.
    Ahh e tantos outros que você citou, que eu adoro!

    Bacio

    • Lunna Guedes setembro 21, 2018 / 10:18

      Gosto imenso de paulicéia desvariada, minha cara Fernanda. Mas o favorito segue sendo Remate dos Males. Como eu amo essa sequencia poética.
      E tem o romance ‘amar verbo intransitivo”, que também adoro. rs

      bacio

  5. Cilene Mansini setembro 21, 2018 / 21:24

    Não li nenhum livro de Mario de Andrade. Sempre fui leitora compulsiva na escola, era a única que adorava quando a professora passava o novo título do livro pra ler. Certa vez uma professora deu um livro do Mario de Andrade (não me lembro qual), nem peguei para ler, pois colocaram na minha cabeça que aquilo era chato demais. E eu acreditei 😦
    Mas nunca é tarde para se redimir 🙂
    E adorei a esperteza do seu post rs citando vários dos seu outros preferidos para que ninguém ficasse chateado rs.
    Beijos

  6. ana claudia de angelo setembro 25, 2018 / 9:58

    Bravo!!!! Realmente, a escolha chega a ser árdua! Muitos são os nomes, diversos os rostos, incríveis as palavras! Você nos deixou em uma “sinuca de bico”, como diria meu pai! E a escolha de Mário de Andrade…ah! Aconchega meu coração! Parabéns!!!! Missão cumprida!!!

  7. Retipatia setembro 25, 2018 / 15:23

    Já lhe disse isso, mas sem dúvidas eu preciso (re)ler Macunaíma. Só de te ler prosear assim sobre ele, meu olhar voltou a curiosidade e, de modo algum posso considerar que o conheço de fato, já que tudo que sei é vindo da época da escola.
    Não preciso citar que amei ver Austen por aqui, se tem uma que tem meu coração, é ela. Vi o seu exemplar do Clube de leitura e acabei lembrando que ainda não tenho esse… preciso (mais que quero… rsrs).
    Ia escrever um milhão de abobrinhas por aqui, então desculpe ser enxuta dessa vez… acho que já te pentelhei o suficiente sobre esta pauta por hoje… rsrs
    xoxo

    • Lunna Guedes setembro 25, 2018 / 15:47

      Acho que foi o contrário, certo? Fui fazer um comentário e acabei por escrever um artigo sobre Mário de Andrade… aff
      Preciso conter essas minhas empolgações. Criar um botão de liga e desliga. rá

      bacio

  8. Analia Boss outubro 6, 2018 / 16:33

    Lunna, Acho que você iria gostar muito dos poetas “Nauro Machado” e/ou ‘Gonçalves dias’. Tem o mesmo termo poético. São maranhenses. Conheci o Nauro. Que faleceu em 2015. Eu estudava em uma escola próximo de sua casa. Um jovem senhor que caminhava pelas ruas e admirava cada momento. Acredito que era pra escrever suas poesias que são lindas. Sou suspeita pra falar. VI e vivi a poesia humana todos os dias, nos intervalos das aulas…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s