O personagem é maior do que está escrito

 

A inquietação das horas em movimento… o tumulto — se estabelecendo como coisa definitiva — em meu intimo. Em círculo: os ponteiros, a vida, a arte… a alma sendo expulsa de casa!

Se multiplicam a minha volta… milhares de sons e movimentos! Tormento lento, que me consome… as lágrimas pesam dentro dos olhos — mas, o rosto, desconhece o choro. As veias se inflamam. O sangue ferve. A pulsação desacelera num segundo e, no outro, acelera.

O ar não chega aos pulmões! Fica pelo caminho… como o meu passo, que não sai do lugar — não visita calçadas e não me leva de volta, pelos caminhos que me afastaram, do que é conhecido.

Fecho os meus olhos! Busco aconchego no avesso que sou! Sinto todos os meus músculos e nervos, se contorcendo. Sinto o desassossego de ser quem sou — rememoro versos outros… do poeta Pessoa, na figura de Campos. A sua metade mais inteira-perfeita-completa. Junto as mãos. Amontoo os dedos um sobre os outros.

Feneço em fé… recuso todas as crenças.
Acredito nesse deus, que conversa comigo, através de sua poesia. Meu Eliot… a quem ofereço minha desgraça-alma-maldição. Busco pela paz perdida nos espaços em branco, dessa minha história, remendada à duas mãos — que agora são rugas-rusgas, finos fios a se desfazer entre meus vãos.

Volto à vida… a mim! Percebo outros tons! Chove muito… excessivamente! Ouço emergir do asfalto, o som denso da chuva. Anoitece dentro da pele. Do lado de fora… a tarde úmida de novembro, vê finalmente despertar o silêncio…

Rasgo a pele com a navalha que corta, enquanto há carne! Sangro até a última gota. Até nada mais restar — esvair-se — além das palavras, em linha reta na tela.

Sinto que já posso morrer em paz… sabendo que vivo a eternidade em uma folha de papel. Sei que a qualquer momento posso ser amassada por tuas mãos! Mas imploro que preserve-me, para além desse minuto…

Porque o meu destino final, desde a primeira linha, é o teu olhar… aceitas-me?

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11 comentários sobre “O personagem é maior do que está escrito

  1. Retipatia novembro 5, 2018 / 11:51

    Vim ler pelo título e fiquei a divagar comigo mesma… esse escrito é para mim! ahaha Sem prepotência, mas coincide tanto com os últimos pensamentos e com as discussões de escrita que tivemos, que parei para ler e apreciar.
    Às vezes, perco minha voz ao tentar dar som à do personagem e, por outras, acabo por esquecer a dele, por me ater às minúcias que suponho ser importantes, quando, de fato, não o são. Mas… nada que você desconheça… sabe bem dos meus (de)feitos de escrita… rsrsrs
    Conversei muito com meu personagem e, quando voltar, acho que quando voltar a escrever, vou poder dizer a ele que sim, eu aceitei.
    xoxo

  2. Luana Souza novembro 5, 2018 / 12:10

    Eu tenho pensado muito nisso ultimamente: de que os personagens não são apenas aquilo que nós lemos. Claro que tem alguns livros que são, na mais humilde opinião, um tanto vagos quanto a protagonistas e até personagens secundário. Eu, particularmente, amo quando o autor nos permite enxergar muito além do que está escrito, seja escrevendo livros e contos sobre os outros personagens, ou soltando as informações ao longo da história.
    Seu texto ficou muito profundo, Lunna. Personagens nunca morrem para seus autores (e para quem tem suas histórias como favoritas!) 🙂

  3. Mariana Gouveia novembro 6, 2018 / 20:23

    Sempre!

  4. Juliana Sales novembro 11, 2018 / 17:07

    Acho que nunca entenderei completamente a relação autor/personagem. Mas sempre tive essa impressão de que o personagem é bem mais do que a história escrita no livro conta. Me parece que o que acompanhamos nas páginas de um livro é apenas o que o personagem “permitiu” que o autor contasse.

  5. Patricia Monteiro novembro 12, 2018 / 8:19

    Acho que a relação autor/personagem deve ser um pouco complexa, vejo muitos escritores dizendo que o personagem, por vezes, ultrapassa o sentido imaginado e ele mesmo traça seu destino na história contada. É interessante porque um mesmo personagem pode passar diferentes emoções, dependendo da maneira com que é recebido pelo leitor.

  6. Ale Helga novembro 12, 2018 / 13:59

    Ah sempre uma relação e ódio entre personagem, autor, leitor…Independente de ser escritor, todos somos leitores…E temos o poder em nossas mãos…
    “Aceita-mes?” Não sei! Preciso conhecer melhor, entender…
    Abraços

  7. obduliono novembro 20, 2018 / 0:21

    Minhas personagens costumam se assenhorar da ação da escrita, para minha exasperação. No final, resta sempre o espanto de sabê-los vivos, apesar de mim…

  8. Fernanda Pedotte novembro 24, 2018 / 8:19

    Olá!
    Por diversas vezes me peguei pensando a respeito, sempre achei que os personagens fossem mais do que eu lia e sempre tentei imaginar esse alem.
    Agora penso nessa relação autor e personagem, bem complexo!
    Adorei o post!

    Bacio

  9. ana claudia de angelo novembro 25, 2018 / 16:19

    “Acredito nesse deus, que conversa comigo, através de sua poesia”.
    Uau!!! Para mim, digno de palmas, “minha cara”, como você nos chama! Toca na alma! E quem, afinal, não te aceitarias, não apenas de olhar, mas de corpo e alma, depois desse texto!!!??? Adorei! Suas palavras, muito bem casadas, nos enriquecem!!! Obrigada!

  10. mariel novembro 27, 2018 / 15:31

    Grato pela visita e vim retribuir comentando, já que estive aqui nesse post e (se me lembro) fiquei quieto. Então. Te agradeço pelo carinho da tua atenção. Me fez bem e te sou grato.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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