Ser escritor,

Faz alguns dias que anotei o título desse post num pedaço de papel. Desde então penso numa espécie de resposta. Naveguei por aí. Andei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e saí de estações. Encontrei pessoas. Mergulhei em olhares vazios-cheios. Admirei o céu de Abril e sua lua cheia num falso amarelo. A poluição da cidade muda a cor e a forma das coisas.

Li Al Berto e lhe roubei a frase: “passei o dia como quem dá tropeções“.

Pensei minha vida-realidade e percebi que minha visão das coisas sempre esteve intimamente ligada a escrita. Existe uma espécie de dependência natural. Nada de fato existe ou acontece em minha realidade sem que frases inteiras — notas de poemas, pequenos ensaios, artigos — se rendam ao papel. Tudo se explica, origina ou termina com pontuações.

Não falo de livros publicados — isso é recente e cabe dentro de um ontem qualquer. Falo do ato de escrever — deitar a caneta sobre o papel e riscar símbolos que dê sentido ao silêncio que impulsiona o meu existir.

Quando me calo… escrevo — por escrever somente, como disse Al Berto “num recanto inacessível do meu próprio corpo” — esse abismo onde todas as coisas caem comigo. Sem corpo ou matéria, sem sentimentos ou desejos-vontades. Quando tudo misteriosamente finda… e o som do tempo, em forma de carrilhão — na infância — também se cala, se recolhe em um sono mortal. Surgem as palavras. Sem forma, fôrma, sem tinta ou papel, mentiras ou significado. Uma espécie de linguagem própria, desconhecida, indecifrável.

Escrevo dentro… pelas paredes do corpo. Risco. Rabisco. Rasgo. Sangro. Verto. Derramo. Transbordo. O que chega ao lado de fora é o que restou de tudo que sou-fui — o soluço da alma.

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14 comentários sobre “Ser escritor,

  1. Daniel de Castro disse:

    Lindo texto. É cativante sentir que dons são coisas tão particulares, tão naturais e que arte e criação para uns é cotidiano de outros, e visse versa .

    bacio

  2. Cilene Mansini disse:

    Lindo conto.
    Ainda não li nenhum livro seu, na verdade ultimamente não tenho lido nada, além de bulas de remédios e ver o soro escorrendo pelo equipo pra dentro do corpo do meu gatinho, mas tenho um livro seu aqui no meu kindle, louco para ser lido, acho sua escrita maravilhosa.Muito do que você escreve é o que penso e sinto, somente não sei por em palavras tão lindamente como você,

  3. Juliana Sales disse:

    Que texto lindo! Eu amo escrever, mas não sei escrever. Quer dizer, eu sei escrever textos técnicos, artigos científicos, coisas assim. Mas escrever coisas que despertem sentimentos, que provoquem reflexões, isso eu não sei. Quando escrevo, é para desabafar, me ajudar a pensar, a lidar melhor com sentimentos e pensamentos, para ver as coisas com mais clareza. Tinha perdido esse costume, que veio da minha adolescência, ma o recuperei tem um tempinho. Também finjo que escrevo crônicas. Elas jamais serão lidas por outros olhos que não os meus, mas ocasionalmente sinto vontade e escrevo. Sem saber, mas escrevo mesmo assim.

    • Lunna Guedes disse:

      Minha cara Juliana, também vivi essa realidade, de saber escrever textos técnicos e ser incapaz de escrever uma única linha literária. Mas, isso mudou num fim de tarde. Percebi que não era falta de talento ou capacidade e sim falta de dedicação da minha parte. rs
      Bastou me organizar nesse sentido e aconteceu, ops, sua área. rs

      bacio

      • Juliana Sales disse:

        Talvez você tenha razão Lunna, talvez seja mesmo falta de dedicar um tempo a isso e não falta de dom… infelizmente, não é uma prioridade, meu tempo acaba indo mesmo para outras coisas mais importantes da minha vida. Mas quem sabe um dia?

  4. obduliono disse:

    Vivi tão intensamente a escrita que não conseguia viver sem apalavrar a existência. Feito um adicto que precisava parar de se drogar, decidi parar. Hoje, voltei ao viciante ato de escrever e seu texto define muito do meu sentimento, em muitos aspectos, Lunna.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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