Os livros

Os livros me deram a oportunidade de habitar outras paisagens, viver em outros corpos, provar de outras vidas. Ser outra e ninguém. Tudo e nada. Eu sempre fui uma pessoa encolhida, para dentro. Nunca fui tímida… apenas não apreciava presenças, não gostava de se fazer presente. Fui forjada em ausências e nostalgias. Uma criança que prefere espiar a realidade, a participar dela e diagnosticada muito cedo como portadora de algum transtorno… por gostar dos cantos, o quarto escuro, as portas fechadas.
Os livros eram um lugar seguro… onde me refugiar. Onde tudo e nada sempre era possível. Eu passava horas inteiras a bordo das ficções que começavam nas páginas e me contagiavam como um vírus que se espalha pela superfície do corpo.
Sou o tipo de leitora que se apodera do objeto livro… primeiro pelo tato. Sinto-o na ponta dos dedos. Provo da textura. E aos poucos o vou invadindo… sentindo o cheiro do papel, o calor das cores… então o agarro. Grudo no peito, fecho os olhos e imagino esse envolver-se prolongado. Eu me misturo de tal maneira a ele… que dou palpites na trama, ralho com personagens. Anoto nas margens, marco o melhor e também o pior. Vou e volto inúmeras vezes.
Tenho algumas dúzias de livros… por ler, re-ler. Uns são mais antigos e contam histórias além das que deixaram em suas páginas. Outros são recém-chegados e ainda não sabem direito o seu lugar… suicidas, se oferecem ao toque, sem saber se serão para sempre ou nunca mais.
E, depois de tanto ler os livros dos outros… resolvi escrever os meus — e sei, com absoluta certeza, que misturei muito do que provei nesses anos todos.

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10 comentários sobre “Os livros

  1. Amável Casa disse:

    Olá que bom estar por aqui me identifiquei muito com suas palavras também por muitas vezes não quis estar na presença de outros, me sentia melhor na solidão dos meus pensamentos e viagens mentais, acho que foi quando percebi que não queria perder tempo com coisas e pessoas que por mais que eu as amasse, não falam a mesma língua que eu que se fixavam em coisas nada interessantes, pelo menos para mim rsrs. Então preferia ficar observando como você. E até hoje percebo que isso assusta algumas pessoas pois sou bem atenciosa e carinhosa e parece que isso não combina muito com quem por muitas vezes prefere a não presença de outros seres humanos a sua volta. Adoro ter meu próprio espaço desde pequena e isso sempre incomodou por demais meus parentes que me impunham sua companhia. Acho incrível como você escreve, então acredito que os livros foram uma ótima companhia. Bjs e uma ótima semana!

  2. Fê Akemi disse:

    Oie!!

    Adorei o texto e trouxe muita identificação.
    Desde cedo me entreguei a leitura e aos livros, menina já tinha minha pequena e preciosa quantidade de livros, que lia e relia. E algumas vezes me aventurei em algumas linhas, a rimar frases.
    E por muitas vezes, como acontece até hoje, talvez com menos frequência, prefiro meu cantinho, meus livros, passaporte de muitas viagens, do que ficar na presença de outros. E por muitas vezes, especialmente criança, achavam nada normal.

    Bacio,

  3. Juliana Sales disse:

    Muito fácil pra mim me identificar com esse texto. Na infância os livros foram sempre um refúgio seguro, um lugar onde eu me sentia em casa. Na adolescência, talvez deixaram um pouco de ser refúgio e passaram a ser janelas, ampliando minha visão de mundo, apresentando novos horizontes. Durante um tempo foram apenas e tão somente distração, um momento de sossego em meio ao caos do dia a dia. Hoje acho que são um pouco de tudo isso, dependo do dia, do contexto, do livro… amei a reflexão que o texto trouxe, como sempre, aliás.

  4. Ale Helga disse:

    Também tenho vários para ler e gostaria de reler alguns, mas, fico pensando nos que não li e acabo não relendo. Mil vezes meus livros, do que festas, ou multidões…
    Ah!!! Também tenho meu caderno onde eu escrevo, meu diário-livro!!!
    Abraços

  5. sobrealeitura disse:

    Olá Lunna!

    Sempre digo o quanto amo sua escrita e me perdoe por soar tão repetitiva, mas que descrição poética você fez da sua relação com os livros! A primeira frase é sem dúvidas a minha favorita pois me identifico demais com o fato de poder escapar, viver em outros mundos e em outros corpos.
    Foi muito acertada sua decisão de escrever seus próprios livros pois seu talento não passa despercebido.

    Abraços e sucesso!
    Amanda Rocha

  6. Patricia Monteiro disse:

    Assim como os colegas, também me identifiquei muito com o texto. Para mim os livros sempre foram como um bálsamo em meio as aflições do dia a dia, a dureza da realidade. Um oásis salvador que ameniza os dias difíceis e transporta para mundos além de nossas fronteiras. É muito natural a sua vontade de lançar seus próprios livros Lunna, seu modo de escrever é especial, sempre me delicio com seus posts. Abraços!

  7. Retipatia disse:

    Oi Lunna!
    Acho que preciso de uma lista de todos os livros que já leu para providenciar um agradecimento (in)formal para cada um deles. Tua escrita é maravilhosa, a que leio aqui e nas páginas avermelhas, em especial. São poesia moldado em história e gosto tanto que nem sei… mas acho que disso você já sabe.
    É engraçado como somos forjados pelas leituras, ainda até por aquelas as quais não temos muito apreço. Para para avaliar um personagem ou outro, uma história ou outra e vejo o quanto vem daqui e dali, o quanto se formou com o tempo, veio de um tropeço na escada ou de uma página recém-lida-descoberta. Um ciclo que sem que jamais me cansa, que não cessa.
    Os livros-leituras sempre foram para mim portas. Daquilo tudo que ansiava e não via ao olhar pela janela. Acho que são refúgio total, do mundo do lado de fora que tende a ser rude e invasivo, eu me abro quando abro um livro e me fecho quando fecho um.
    Não preciso dizer que viajei nas e a partir de suas palavras, né!?
    xoxo

  8. Simone disse:

    Você escreve muito bem. Parabéns! Tenho lido muito pouco nos últimos anos, mas concordo que a leitura nos permitem sonha, viajar no tempo, ser outra pessoa.

  9. Ana Claudia disse:

    Livros nos transportam a tantos universos, e isso me encanta! Mas sabe que, mesmo gostando tanto de ler, as recordações que tenho desse “transporte a mundos inimagináveis” são do hoje. Engraçado,não acha? Nunca entendi bem o porquê disso! E também tenho muitos livros na estante a (re)ler, mas não me incomoda, apenas me atrai ainda mais!
    Beijos!

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