Sobre a minha escrita,

Minha professora de literatura, uma das responsáveis pela minha dedicação à escrita, certa vez, durante um diálogo literário, me disse — ‘de repente, eu também aprendo‘. Eu tinha poucos anos. Ainda era primária. Aprendia as primeiras palavras-frases, devorava os meus primeiros livros… e começava a trilhar o caminho da realidade rumo ao imaginário.
Ela era uma espécie de guia por esse mundo-novo…  e todas as suas coisas infinitas. Sua tarefa era provocar-me — oferecendo-me livros-autores. E ela se mostrou bastante hábil. Por algum tempo, eu acreditei que ela conhecia todos os livros do mundo — impossível, eu sei… talvez por isso a frase tenha ficado sem efeito, naquele instante.
Ela me fez experimentar as minhas primeiras emoções literárias… e me ajudou a identificar muitas das sensações que alimento, até hoje. O que gosto e não gosto. O que guardo… descarto. Foi através de nossos diálogos, na Biblioteca que compreendi que, por mais que a escrita seja um ato solitário… é através da partilha que compreendemos o nosso lugar no peculiar universo da Arte escrita e a frase ganhou  sentido.
Não foi nada fácil me articular nesse cenário movediço… de papel-caneta-palavra-silêncio-tormento-delírios e um sem-fim de sentimentos contrários. Foram muitos sustos, desconfortos, algumas vitórias e centenas de fracassos… narrados na Primeira pessoa do singular. Escrevi muita coisa… reescrevi algumas. Amassei centenas de folhas e mais descartei que guardei.
Compreendi, contudo, que a escrita arrasta tudo que sou com ela. Sabe aquela trilha de migalhas que nos leva de volta para casa? Quando escrevo… eu preciso desesperadamente dela, para regressar a casa que-sou. Porque a escrita avança — sempre rumo a um futuro próprio — e me leva com ela… sem mapas ou destino certo! Me faz passageira… nunca condutora. E eu me deixo orientar por essa bússola: percorro calçadas-ruas-avenidas, pessoas, construções urbanas, lugares vários. Absorvo tudo-todos… e quando me posiciono diante do papel-tela-teclado, todas as coisas que tenho-sou se deixam narrar…
Acredito que seja esse o motivo do meu regressar constante à infância. É a minha casa primeira — referência. O meu ponto de partida para a vida. De onde sai para o mundo e para onde retorno em busca de aconchego. A minha página ainda em branco, esperando pelo discurso confessional…

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9 comentários sobre “Sobre a minha escrita,

  1. Retipatia disse:

    …fiquei a retornar em momentos aleatórios enquanto lia. A memória fez cena que existiu em dado momento, pintou outras a imaginar dedos e tocar teclas e ponta do lápis que risca o papel.
    Escrever é dar parte de si, faz fluir da mente e sai pela ponta dos dedos, tomando forma conhecida-desconhecida até exorbitar o que está do lado de dentro. Não me seguram minhas arestas nesse momento, mas costumeiramente, tampouco, me esqueço das bordas que existem. Seja como for, fazem parte de mim e refletem nas palavras sentidos. Para mim, não veio de guia, tampouco acho que guia tive. Só sei que vieram, do vazio cheio de dentro e precisavam de lugar pra repousar. Se ficam dentro, parece que vou transbordar, na maior parte das vezes… às vezes transbordo e pingam as palavras até o papel. Às vezes deixo que escorram pelo lápis ou caneta. Ou até pelas teclas. de fato, já não sei do que falo e qual a coesão com seu texto… mas também acho que já está acostumada com os devaneios que me leva.
    Talvez de tudo eu possa apenas dizer que concordo, em especial com seu “mais descartei que guardei”, eu guardo tanto e tanto e tanto, mas nem se compara com o que descarto nas folhas e arquivos que vão para a lixeira tanto quanto aquelas que se perdem no fio de um pensamento que não anotei a tempo….
    xoxo

  2. Leitura Enigmática disse:

    A escrita é uma das formas para nós extravasarmos nossas emoções, sentimentos diversos ou mesmo para relatar nosso cotidiano. Agora quem tem o dom de fazer mágica com as palavras, pode-se considerar um sortudo ou uma sortuda, pois são poucos que possuem essa habilidade e competência.

  3. Daniel de Castro disse:

    Ah esse tão belo dom … a escrita deve habitar em muitos, mas poucos trabalham essa arte tão peculiar. Escrever é belo, mas “desenhar sensações e sentimentos” é divino 🙂

  4. ana claudia de angelo disse:

    Oiii! Saudades de passar aqui! Amei suas reflexões! A minha escrita tem estado nesse momento de amassar algumas páginas e jogar fora… Assim, me paro pensando sobre a nossa página em branco que é constante e que nos move a tentar sairmos da zona de conforto. Penso também em como, muitas vezes sem noção, alguns passam por nosso trilho e deixam marcas positivas, como foi o caso da sua professora. Muito importante e significativo! Adorei!
    Beijos!

  5. Patricia Monteiro disse:

    A infância traz tantas lembranças boas…algumas marcam e nos moldam para o adulto que nos tornaremos. Admiro muito professores que estimulam o hábito da leitura nos pequenos, pode ser um impulso importante na formação de futuros autores, como foi seu caso Lunna. Admiro também quem tem o dom de fazer arte com as palavras, são pessoas de alma profunda e sensível.

  6. Bells disse:

    A escrita nos transporta, como a leitura também o faz, a novos mundos, novos horizontes, novos pontos de vista, novas formas de pensar. Ela nos faz refletir, conhecer, descobrir e aprender cada vez mais, e você faz isso brilhantemente com suas palavras tão bem colocadas em seus posts (como foi o caso deste, poético, fluido e inspirador). Parabéns por ter e estar sempre em busca de desenvolvimento deste dom.

    Beijinhos e boa semana.

  7. Fê Akemi disse:

    Amei o texto e as reflexões. E amei o que a professora falou, me fez pensar enquanto lia.
    Quando escrevemos, colocamos tanto de nossa essência, daquilo que talvez as palavras não são capazes.
    Muitas vezes rabisquei, mas só para desabafar e soltar os monstros e fantasmas.
    Tenho profunda admiração por aqueles que tem o dom, da escrita e de encantar.

    Bacio

  8. Garoto de Outro Planeta disse:

    Olá! Adorei sua reflexão! Eu gosto de escrever porque sinto que organizo meus pensamentos quando coloco em textos. Às vezes quando estou magoado com alguém e quero conversar, antes eu escrevo um texto só para organizar minha mente. Me ajuda bastante. Eu diria que escrever é bem terapêutico.

  9. Bia Japur disse:

    Ah, bateu uma saudade da minha. (perdi na mudança de casa) Eu amava digitar oq eu estava sentindo no momento, eu passava horassss e horassss sentada só ficando com os dedos vermelhos. Hehe.
    Seu poste tá ótimo e me trouxe várias lembranças maravilhosaassssssssssssssss 🥰🥰
    Beijokaaaas!!!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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