O que ando a ler

Fui até a prateleira no final do mês passado e ao vasculhar os meus livros de poesias — em maior número por ali — puxei o exemplar de capa azul: uma coletânea de poesias de Gilka Machado que eu levei para a mesa da cozinha… onde gosto de ler, na companhia de uma xícara de chá.
Leio poesia sem obedecer a sequência oferecida pelas páginas impressas. Abro o livro numa e leio o que se oferece como Norte — uma espécie de ponto marcado por um alfinete vermelho.
Mas, para construir um projeto de livro a partir dos versos de Gilka — idéia que surgiu enquanto o olhar percorria os livros em fila —, se fez necessário uma leitura em linha reta — obedecendo o que foi escrito e publicado pela poeta-mulher-gilka — em vida…
Percorri uma a uma as páginas de cristais partidos / estados da alma / mulher nua / meu glorioso pecado / sublimação / e velha poesia — entrecortando-as por pesados goles de chá-café, fatias de bolo, a voz de Elis Regina — uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta — a presença de Jane (dog) que sabe como atrair a atenção de seus humanos quando quer. Alguns diálogos com o meu menino… e as famosas leituras sonoras para melhor ouvir certos versos carregados por uma sensualidade ímpar — não é noite nem dia, observo, com surpresa, / uma triste alegria / em toda a natureza / medita bem que paradoxo no ar, que dolorosa orgia / em que a alma peca com vontade de chorar!
Ler Gilka é recordar o tempo em que as mulheres não tinham voz e suas palavras se limitavam aos diários-gavetas. Era uma escrita silenciosa-secreta… em tom confessional, que não merecia ser publicada por ser inferior e sem qualidade. Os homens escreviam poemas — lidos por mulheres que apenas rabiscavam versos com rimas precárias em cadernos… apenas para desafogar seus tolos sentimentos. Foi nessa mesma época em que forjaram o termo poetisa para justificar os poucos versinhos femininos publicados.
Cecília Meireles foi às paginas… mas a sua poesia não incomodava os leitores — era calma-mansa — não sou alegre, nem sou triste, sou poeta — e sua ousadia era bem dosada, mesmo quando recusava gentilmente o rótulo oferecido pelos homens das letras, sisudos e preconceituosos.
Gilka gritou ao escrever… falou das vontades que inflamavam a sua pele de mulher, os desejos que ruborizavam sua bela face e rasgou os verbos mais ousados nos versos de sua contestada poesia… para reclamar do machismo e criticar a opressão à mulher  — do teu amor à esplendida conquista, / minha carne e minha alma são rivais: / far-me-hei a sempre inédita, a imprevista, / para que cada vez me queiras mais. E foi severamente atacada pelos modernistas, inclusive por Mário de Andrade, que enalteceu sua falta de modos e seu comportamento impróprio — mas soube reconhecer o valor de sua poesia anos mais tarde, após sofrer na própria pele dos preconceitos que os colocou em igualdade de condição.
A poesia forte-intensa-feminina de Gilka acabou esquecida nas gavetas da história literária brasileira… e só voltou às prateleiras recentemente — através da coletânea organizada por Jamyle Rkain e publicada pelo selo Demônio Negro, em 2017.
Gilka foi a autora do primeiro livro de poesias eróticas publicado no Brasil… e ainda hoje, em pleno século XXI há mulheres que demonstram horror ao se deparar com a liberdade versada por ela. O mundo caducou nos últimos anos… andou para trás e a sociedade contemporânea conseguiu ser ainda mais conservadora e mesquinha.
Uma poesia atual, escrita no século passado que nos pontua enquanto figuras femininas em pleno 2019. Uma leitura necessária, cheia de substancia e imprópria para muitos…

Anúncios

9 comentários sobre “O que ando a ler

  1. Ana Claudia disse:

    Sabe que me senti tão cansada há uns dias atrás que dei uma parada bem de uns dez dias?? Foi necessário. na verdade, pausas são necessárias…! Mas estou entrando em recesso escolar na sexta à tarde e a lista está enorme para me divertir nestas minhas férias que estão cheias de projetos para o blog, o canal, a Bienal do Rio… É isso que me move!
    Hoje estou retornando e vou começar a ler um livro chamado “Dois Cinco”, de uma escritora portuguesa que conheci pelas idas e vindas das redes sociais! As expectativas são imensas!
    Sobre suas escolhas, não duvido nada serem maravilhosas, densas. Amo poesias e, ao que me pareceu, Gilka veio para dar uma sutil chacoalhada em tom poético,não é mesmo? Uma poesia que me aguçou a curiosidade enquanto leitora fã de escritas femininas conforme a linha que descreveu!
    Bjs

  2. Amanda Rocha da Silva disse:

    Oi Lunna!

    Que texto incrível! Não conhecia o trabalho da Gilka, confesso, mas pela sua descrição do trabalho dela, muito me interessou.
    Quanto coragem teve Gilka de encarar os comentários e falar sem travas em suas poesias coisas que muitos vêem como tabu até hoje.
    Já quero ler a obra da poeta.

    Bacio,
    Amanda

  3. Patricia Monteiro disse:

    Confesso que não conhecia Gilka Machado, seu post foi como um presente. Que prazer saber a história dessa grande e intensa escritora brasileira! Com certeza fou uma mulher à frente de seu tempo, sua coragem abriu as portas para muitas outras mulheres talentosas trilharem o caminho do inconformismo, desafiando o machismo tão arraigado ainda hoje em nossa sociedade. Uma pena não ser tão divulgada, Gilka é uma figura que merecia mais reconhecimento popular.

  4. Juliana Sales disse:

    Eu gosto muito de poesia, embora leia pouco. Vergonhosamente confesso que não conhecia Gilka Machado e estou feliz de ter sido apresentada a ela. Ainda mais por seu comentário de a obra dela ter um viés libertário e feminista. Dica anotada! E seu post ainda me despertou a vontade de reler algo de Cecília Meireles, de quem tanto gosto.

  5. Ale Helga disse:

    Confesso que por aqui poesia é quase despercebida…Não porque não goste, mas talvez por não conhecer…Não conhecia Gilka Machado, mas fiquei interessada…Dica anotada…

  6. Garoto de Outro Planeta disse:

    Que incrível! É irônico mesmo como algumas coisas ainda chocam em 2019.

    Eu gosto de pessoas ousadas, que fazem a diferença. Como diz uma frase famosa (que não lembro de quem foi): “as mulheres comportadas raramente fazem história”.

    Fiquei inspirado para ler algumas coisas dela. Adorei a dica!

  7. Luana Souza disse:

    Acho tão bonitos esses textos que você escreve sobre suas leituras. Sinto como se estivesse lendo uma página de um diário seu. ❤
    Bom, minhas leituras andam levemente bem, por incrível que pareça. No momento estou empacada num livro do Neil Gaiman, mas espero resolver isso antes de domingo rs.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s