2 | o verbo para este ano {novo}

Quando o carrilhão da minha infância cantar — diretamente do ontem — a sua hora cheia-inteira — meia noite — será outro ano, novo… mas não será como os outros — ciclos-cheios. O que hoje se encerra… teve suas muitas somas, em grande parte vazias…
Aconteceu muita coisa, muitos goles-abraços, mas tanta coisa não-aconteceu.
Conjuguei verbos inexatos que não couberam em frases e quase tudo ficou no estado de rascunho. Inexisti em alguns dias… me acabei em outros. Fui do silêncio ao barulho… do aconchego ao desamparo. Estive em queda… nesse abismo que se reinventa dentro. Fui uma-duas-três… muitas-nenhuma-todas. Fui o que consegui ser… o que deu para ser.
Esse ciclo foi dos mais difíceis-indigestos… faltou ar-vida.
Sobrou discursos inflamados… ódio disseminado em falas equivocadas. Pedras atiradas. Raiva multiplicada. Tantos verbos conjugados… sem o menor cuidado. Tudo isso me deixou um tanto mais distante desse lugar que sou.
Rompi com Mário de Andrade… ralhei com Borges. Fui dura-ríspida com Whitman e voltei uma vez mais aos braços de Baudelaire. Lamentei a partida de Wislawa (tão prematura), que deixou um livro inteiro por ler. E eu o li com tanta pressa-aflição que nada sobrou para depois. Agora considero pouco-nada. Eu queria mais, é claro.
E, devorados os versos-páginas… acusei a perda e fiquei sem novos verbos-versos, apenas o silêncio do luto…
Calendários há muitos… o universal, cronológico, religioso, antigos e novos. Cada povo inventou suas próprias medidas para orientar-se ou se desorientar. Eu gosto imenso do equilíbrio que alcancei através do que inventei para o meu uso próprio… o dos celtas, que me apresentou a Arawn (senhor do submundo e dos mortos) e dos gregos que introduziu Kairos e sua filosofia peculiar de tempo medido a partir das coisas que realmente valem.
Os meus ponteiros são outros, não anunciam manhãs-auroras. As minhas medidas se baseiam em noites-crepúsculo-breu. Cada um com seus significados interiores e com os seus rituais exteriores. Eu parto sempre de um fluir ancestral e inexorável. O meu Norte é sempre novo-outro… se renova-extingue, se precipita-acaba, como os solstícios e equinócios com suas noites mais longas e dias mais curtos — ou o contrário disso tudo.
Não considero necessário ter religião, apenas a crença em si, em Ser… e eu gosto imenso desses meus significados-rituais-ilusões. Me basta… e resulta em linhas de um texto que se escreve quase no automático das minhas emoções mais sinceras.
Um ciclo-cheio é feito de tanta coisa… e eu gosto imenso de passear por tudo que foi e não foi… sentindo-os em mim.

Sete anos… de Catarina!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

12 comentários em “2 | o verbo para este ano {novo}

  1. Esse trecho “Sobrou discursos inflamados… ódio disseminado em falas equivocadas. Pedras atiradas. Raiva multiplicada. Tantos verbos conjugados… sem o menor cuidado. ” resume bem o que temos vistos nas redes sociais nos últimos meses.

  2. 7 anos de Catarina, uma bela caminhada, porque penso que a beleza das coisas estão justamente nos acontecimentos, não importa se tudo saiu como o planejado ou não, o que importa é a história e o significado que esse ciclo teve! Parabéns!

  3. garota, eu sou sua fã. essa fala poética e carregada de força. uma pitada de critica, mas uma leveza que enche a alma. nunca pare, nunca, jamais desista. os ciclos vêm e vão, as coisas novas se fazem velhas e novos ciclos chegam, tudo se repete. a vida é assim. eu desejo amores, razões e novidades há quem quer que seja, até mesmo para os inflamados. talvez encontrem motivo para mudarem. mesmo que esses, estejam no fundo, bem lá no fundo mesmo. o verbo novo é inspirador, e seu post também, que ventos de coisas boas te alcancem sempre. um bjo.

  4. Eu nem sei o que dizer direito. Simplesmente fiquei chocada com sua escrita e a forma que usa as palavras tão bem. Sinônimos e antônimos usados juntos e separados para dar ênfase a cada frase e verbo. Excelente!

  5. Sua jogada de palavras é simplismente sensacional e esse seu texto ficou incrível ❤ quero escrever tão bem quanto você *-*

  6. Eu ainda estou em estado de choque por a) QUE ESCRITA MARAVILHOSA É ESSA!? e por b) como esse texto conversa comigo e faz tanto sentido com o que passei e o que ainda passo tantas vezes na vida. Amei 💛

  7. A vida é feita de ciclos, de momentos e de fases. Devemos então curtir bem o presente para que esses ciclos fiquem em nosso passado de forma agradável. Esse texto que ficou fenomenal, um dos melhores que li até hoje aqui. Parabéns!!!

    Bacio.

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