3 | O que ando a ler

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— “As palavras escorrem como líquidos” —

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Sempre que preciso fazer uma pausa na minha vida real das coisas e suas causas… ou quando tudo se complica nesse mundo feito por homens para homens — recorro a poesia… que é sem dúvida o meu melhor argumento. Embora não saiba brincar de fazer versos. Não tenho apreço por rimas e tenho preferência pelo verso livre que dialoga com minha anatomia — assunto que já abordei em outro post
Eu tive uma semana cheia-insana… o que me obrigou a regressar a casa-corpo para me reorganizar. Pus a chaleira no fogo, fui até a prateleira e voltei com essa Mulher, que me inspira desde o nosso primeiro encontro.
Ana Cristina Cesar é uma figura múltipla. Sua poesia é sua biografia… o seu diário-verso — é a sua carta “ao mundo”. É também seu olhar… roupa suja. A sua máscara… confissão. Um segredo revelado antes do próximo passo… um salto.  É seu mistério. Toda a sua intimidade. Uma espécie de grito que nem sempre é ouvido…
Eu gosto imenso de dialogar com seus versos,  porque ouvi-la me acalma e dá paz — “vai-se o inútil salmo, o inútil amor  / Em cada começo o fio e a agulha / Em cada som um nome só: fim”.
Mas me incomoda o rótulo imposto à sua escrita, como se fosse uma espécie de verdade única e imutável. Dizem-na poeta marginal… e só! E há o que questione a sua escrita… dizendo-a: pouca-limitada.
Ana Cristina Cesar viveu intensamente seus trinta e poucos anos… transitou livremente pela famosa década de oitenta… visitou e foi visitada por seus pares. Escreveu cartas, textos curtos, poemas. E eu considero que a sua escrita ultrapassou os limites de tempo e espaço alcançando o direito a uma bela e generosa fatia de eternidade… comum aos que colecionam palavras com entusiasmo, sem se importar com as regras tóxicas da “boa escrita”.

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Onze horas
Hoje comprei um bloco novo,
Pensei: a você o bloco, a você meu oco.
Ao lápis a mão e os pensamentos em coro
Me sugeriam rimas e sons mortos..
Pára, coisa. Se oculta, rosto.
Cessa estes ecos porcos,
Está imundície coxa, este braço torto
Reabre o tapume verde do poço,
Salta dentro, ao negrume tosco
E se nada resta afoga-se no lodo
Para que sobre o resto do nada, o sono.
(Sussurro:) Eu você.

Ana Cristina Cesar — maio/68
Inéditos & Dispersos (1998)
Editora Ática

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

12 comentários em “3 | O que ando a ler

  1. Não conhecia esse livro. Poesia não é meu gênero favorito de leitura, mas sei reconhecer a importância e a beleza que a leitura do gênero traz

  2. Eu fico encantada com a intimidade que os poetas têm com as palavras, quando mais nova gostava muito de ler poemas, lembro de passar vários recreios escolares escondida na biblioteca da escola (porque seu acesso era proibido nesse momento) lendo versos que na maioria das vezes desconhecia as palavras, mas amava!

  3. Sempre fico encantada com seus textos, é como se as palavras dançassem na minha cabeça. Não sou amante de poesias, nem conheço muitos poetas; aliás, os que conheço não são conhecidos (ainda). Me fascinou essa rima toda da Ana. Quem sabe abro meu coração para novos versos dela.

  4. Gosto muito de poesia, mas há muito tempo não lia. Aliás, senti vontade de voltar a ler justamente após um post publicado por aqui não tem muito tempo, onde você me apresentou Gilka Machado, de quem eu já li um e outro poema solto aqui e ali e gostei muito. E mais uma vez você me apresenta uma autora que eu não conhecia, mas sua indicação e os trechos citados me despertaram a vontade de conhecer mais.

  5. UAU! Eu também amo poesias porém não leio tanto quanto gostaria. Pretendo comprar o livro ” o que o sol faz com as flores” E “Outros jeitos de usar a boca”. e vc já leu esses que eu citei?

  6. Olá ♥
    Eu não conhecia a Ana Cristina Cesar, mas seu texto ficou tão incrível(como todos os que tenho acompanhado desde que entrei aqui pela primeira vez) que eu já quero muito ler suas poesias.
    Já vou pesquisar sobre ela ♥
    bjo

  7. Ah adoro a sua escrita ❤
    Quem não ama um bom poema, né? Eu não conhecia essa Ana cristina obrigada por compartilhar conosco essa poesia dela é linda<3

    1. Oi Lunna, mais uma vez você apresenta uma autora que eu desconhecia mas que me despertou o desejo de saber mais (o mesmo aconteceu com a Gilka Machado). Gosto muito de poesias, os versos parecem flechas que acertam de forma precisa o nosso interior (eu pelo menos sinto assim).

  8. Uau Lunna, que poetisa maravilhosa! Não conhecia mas me encantei pelos seus versos já pelos que você selecionou pro seu post (e portanto, muito obrigada pela “dica”).
    Agora vou ali procurar mais alguns poemas dela (e indicar pros amigos que também gostam de poesia); afinal, mergulhar na poesia para fugir desse mundo caótico, é incrível e essencial às vezes.
    Beijinhos e boa semana

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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