4 | antes de ser um diário… foi caderno de ensaios!

]].Septum

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

— Cecilia Meireles —

.

Eu sou feita de muitas metades… sou meio bruxa. meio arteira. meio artista. meio menina. meio moleque. meio mulher. meio homem. meio bicho. meio isso e meio aquilo, como no poema de Cecília Meireles…
Eu sou o que tiver que ser no momento em que as coisas se orientam em minha anatomia nada regular. Já fui pessoa-personagem — tantas figuras em uma. Deborah Bodeh, Anne Letrech. Raissa Mendelson… Catarina — e acabei por emprestar muito mais de mim a todas essas personas do que eu realmente gostaria. Eu faria tudo de novo apenas pelo prazer de me sentir esfumaçar diante do espelho por gostar imenso da sensação que fica na pele ao sair e voltar para a casa-corpo que sou. Sei que saí uma e volto outra… me perco-encontro, me refaço-reinvento, desaprendo.
Tudo isso sou eu… é minha escuridão-lucidez-perdição-insanidade o que torna possível a condição essencial de espanto diante de todas as coisas-vida.
Em Septum — meu projeto de escrita diária, dividido em quatro estações — não posso dizer que sou apenas eu… embora a escrita aconteça na primeira pessoa do singular.

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“É madrugada e eu me sinto só… completamente nua. E me vejo obrigada a vagar pelos espaços vazios deste lugar que sou. Esgotei as xícaras de chá. Li todos os
livros que encontrei na prateleira. Assisti todos os filmes antigos que compõem minha  lista de favoritos… e percebi nesta quarta hora… que não me resta outra coisa — apenas esta narrativa vazia… ou seria de inundação?
…alguma coisa transbordou aqui dentro e não deu tempo de fechar as comportas. Sinto-me inundada por essa necessidade conhecida, tão antiga quanto eu.
Eu sei o que quero e preciso… mas ainda me recuso a este testamento em vida, porque escrever — para mim — é um ato de morte.
Você escolhe as melhores palavras, forma as frases com todo o cuidado, tentando a sonhada perfeição. Escolhe o que fica e o que parte. E no fim… não consegue um texto que agrade aos olhos — primeiro — e ao cuore depois…
E o que sobra disso tudo é a decepção que te encara de frente. E você não encara de volta. Recua. Amassa a folha entre os dedos e sai para andar pelos cômodos da casa — suportando em teus flancos o sabor amargo do fracasso”.

Septum — página 63 / outono…

 

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

7 comentários em “4 | antes de ser um diário… foi caderno de ensaios!

  1. Mulher, como meu coração fica quentinho lendo seus textos. Me identifiquei muito com todas as personas do primeiro parágrafo. Somos tantas em em uma, e uma em tantas. Feliz domingo!
    bjo!
    Gabi.

  2. E assim somos, feitas de versões, é até complicado tentar entender, é melhor apenas viver aquela fase!
    Estou apaixonada por seus textos, fazia tanto tempo que não lia textos maravilhosos assim, já estou ansiosa, na espera do que vem amanhã! Beijos.

  3. É muito louco o ato de escrever não é mesmo? Muitas vezes somos apenas instrumentos dando vida a história de um personagem, que muitas vezes não tem nada a ver conosco e ainda assim é uma parte nós. Parabéns pelo projeto e sua escrita é adorável.

  4. Em todos comentários que farei por aqui, farei questão de dizer que a sua escrita é aconchegante e quentinha e que me pego viajando em cada texto seu que leio.

    Sempre que escrevo, também dou vida à vários personagens e mesmo tão diferentes, cada um faz parte de mim.

    Parabéns pelo post ♥

  5. Gosto de narrativas assim! Livros ou que são dessbafos. Sinceridade. Gente como a gente! Gosto de Cecília Meireles e antigamente curtia muito a escritora Lya Luft, gostava da melancolia do texto.

    1. Cecília Meireles é muito amorzinho! ❤
      Digo e repito, eu AMO na sua escrita!
      “Eu sou o que tiver que ser no momento em que as coisas se orientam em minha anatomia nada regular.” Me descreveu por completo nessa fase.

  6. Adorei seu texto, me lembrou a música Bitch da cantora Meredith Brooks. Ela fala dessa coisa de sermos seres ambíguos, um monte de coisas diferentes (muitas vezes opostas) em um indivíduo só.

    🎵
    “I’m a bitch, I’m a lover
    I’m a child, I’m a mother
    I’m a sinner, I’m a saint
    I do not feel ashamed
    I’m your hell, I’m your dream
    I’m nothing in between
    You know you wouldn’t want it any other way” 🎵

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