5 | O que vai ser quando crescer…

Eu e C., tínhamos por hábito nos sentar à mesa da cozinha nas manhãs de sábado… para escritos-leituras-conversas e xícaras de chá. Foi numa dessas manhãs que, com uma xícara em mãos, ela me olhou e disse —”quando crescer, você vai ser uma escritora“. Gostei imenso de ouvir a frase sair de sua boca… e concordei, descordando porque sempre fui feita de contrários.
A partir disso, passei a dar a todos os meus cadernos essa ordem… caderno vermelho de uma futura escritora — numerando-os sequencialmente. Confidenciava naquelas linhas uma sequência ininterrupta de exercícios, feitos na terceira pessoa do singular. Narrava com certa euforia as coisas que apreciava. Tudo coisa alheia — nunca assumida como sendo minha, muito embora o fosse, já que minha escrita sempre foi confessional.
Gosto imenso do diálogo, de dizer-me ao outro… pontuar as observações feitas, o passo, a voz, o outro que vem em minha direção, com suas vivências bem ou mal pontuadas ou daquele que se junta ao meu caminhar, encaixando o passo ao meu. Descrever os lugares, as fachadas dos prédios. Dar nome as ruas, esquinas… inventar-reinventar, se manifestar a respeito da realidade a partir do meu imaginário.
E foi por causa da fala dessa mulher que eu percebi que tinha me afastado de minha essência. Fui em outra direção. Uma fuga não planejada, que aconteceu porque alcançar a idade adulta tem os seus percalços.
É preciso fazer escolhas Mas as possibilidades são tantas. Apenas uma pode-deve ser feita. É um compromisso firmado e é coisa para a vida toda que precisa ser dita em voz alta para estabelecer os mapas de maneira a se orientar a realidade.
Um amigo escolheu Engenharia… e, acabou por descobrir que não tinha talento algum para os engenhos. Migrou para o Direito, mas não tinha o menor apreço pelas leis. Tentou vários outros cursos e acabou por ir trabalhar com o pai numa loja de calçados. Se tornou um especialista em passos. Foi ele quem me ajudou a escolher o melhor calçado para as minhas caminhadas.
A vida tem os seus próprios caminhos… e é preciso saber trilhá-los, orientando-se pela bússola que temos no meio do peito.
Eu nunca desisti da Psicologia… e não acusei — em momento algum — falta de talento para a atividade escolhida. Fui até o último estágio que me deu, entre outras coisas, a acunha de Doutora — um adjetivo que recusei porque os meus contrários nunca me abandonaram.
Estava a bordo de uma vida organizada-reta, com todas as coisas nos seus devidos lugares quando percebi que nada daquilo me pertencia. Ainda me lembro — e com que espanto — do momento em que anunciei a minha decisão em voz alta para o espelho. Mudar de ares e desbravar outra realidade. Começar do zero… de novo. Ser outra… a que eu sempre quis ser — mas que nunca disse em voz alta, embora resmungasse pelos cantos do corpo — discordando da minha própria retórica.
Ah, os benditos ecos contrários! Foi um choque para alguns. Um amigo — consciente que não existe caminho que não possa ser percorrido, basta ter disposição — me recomendou para um Editor que me recebeu com um sorriso branco e avisou: não será fácil.
E lá fui eu ser sua assistente nos primeiros dias… e amiga para o resto de nossas vidas. Aprendi sobre esse Universo — literário — para o qual migrei, na condição de pássaro… e cá estou, a aprender mais e mais, um pouco a cada dia. Totalmente consciente de que percorri todos os caminhos que quis… provei o melhor de todos os lugares que visitei e aqui fiquei… por enquanto!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “5 | O que vai ser quando crescer…

  1. “A vida tem os seus próprios caminhos… e é preciso saber trilhá-los, orientando-se pela bússola que temos no meio do peito.” Que frase mais bonita e verdadeira, deveria virar um lembrete diário sobre o que realmente importa. Parabéns pelo texto ele nos faz pensar…

  2. Que texto inspirador, Lunna.
    Me vi um pouco nele. Terminei a graduação ano passado e não me sinto à vontade com o que o título que o diploma me deu. Sempre fui apaixonada pelas palavras e por design e tenho cada dia mais me encontrado nessa caminhada com o blog, mas sempre fico apreensiva com todas essas cobranças da vida adulta de boletos para pagar e o julgamento alheio. Espero que eu possa me encontrar definitivamente.
    Tenho certeza que você ainda conquistará muito mais!
    Bacio!

  3. Me identifiquei muito com seu texto. Lembro-me da vontade de escrever um livro (um sonho) e rascunhar versos e poesias em cada folha que encontrava. Aos 11. Quando adulta tentei seguir a área da fanoaudiologia, mas dei um tempo por ora. “A vida tem os seus próprios caminhos… e é preciso saber trilhá-los, orientando-se pela bússola que temos no meio do peito.” Minha bússola é maluca como eu, mas amo ser imprevisível. E sobre minha atual profissão, mexo com números e pesquisas… rs
    E sobre o livro? aos poucos tem nascido. É preciso coragem todos os dias para recomeçar. bjos!

  4. Olá ♥
    Uau que texto maravilhoso, amei a parte do: Começar do zero….de novo. Ser outra…. a que sempre eu quis ser.
    E foi exatamente isso que fiz esse ao, sai de um emprego que não amava pra tentar viver criando conteúdo. Algumas escolhas não são fáceis, mas vai dar tudo certo ♥
    Seus textos são incríveis ♥

    bjo

  5. Que texto maravilhoso! Isso faz lembrar das minhas escolhas e do que desejei que nem sempre consegui fazer aquilo que desejei tive que seguir um outro rumo 😦
    Mas quem sabe um dia eu volte ao que sempre quis fazer que é cuidar das pessoas.

  6. Novamente me identifiquei em um texto seu. O fato de determinar qual profissão seguir… eu nunca soube até hoje o que quero ser. Já fiz um ano de engenharia civil – e assim como o seu amigo, não tenho aptidão para engenhos. Já fiz um ano de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e apesar de ter gostado, desisti para viver um sonho aqui em São Paulo. Amanhã começarei uma nova faculdade: Ciência da Computação, na esperança de me encontrar.
    A vida tem dessas: são tantas as possibilidades que tá tudo bem. Um dia, uma hora, em algum momento a gente se encontra.

  7. Saber o que será quando crescer traz uma contradição em si – há aqueles que nunca crescem. Há os que sabem o que querem e perseguem seu querer desde cedo. Há os que nunca saberão, por mais que tentem e terminam suas vidas sem vivenciarem os seus desejos. E há os que sabem o que querem e só conseguem alcançá-los bem mais tarde, quando encontram ou são encontrados pela chance ou pessoa que lhes indicará o caminho. Sei do que estou falando e agradeço, sabendo que, ao mesmo tempo, ainda estou a crescer na minha realização.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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