13 | melhor que perguntas, são as afirmações.

…coloquei a chaleira no fogo para um café no meio da tarde e depois de todo o ritual que envolve preparar uma prensa ‘francesa’… levei a xícara-cheia para o meu menino, na sala. Ele sorriu-satisfeito a surpresa… e eu acabei por viajar nas minhas lembranças primeiras  como de costume.
Eu era menina… vestia camiseta branca e o shorts vermelho da escola. Eram os primeiros anos escolares. A mochila ainda era leve e fácil de carregar: dois cadernos, lápis, o lanche e um livro com cento e vinte páginas.
A vizinha chegou com suas duas crianças, uma em cada mão  estudávamos na mesma escola. Parecia natural se oferecer para me levar. Ela tinha carro… seria apenas mais uma criança no banco de trás.
Respirei fundo e ajeitei a mochila nas costas… olhei rapidamente para o relógio a dizer suas quase nove horas. Cruzei os braços a frente do corpo e comecei a espiar as voltas do cadarço do meu tênis. Eu ainda aproveitava o resquícios do banho, na pele. Sempre gostei da leveza do corpo pós banho. Achava, naqueles dias, que eu trocava de pele, feito cobra. Gostava imenso da roupa limpa e do perfume que voava do frasco para trás de minhas orelhas e do creme a quatro mãos.
A vizinha foi dispensada — não me lembro qual foi a desculpa apresentada e não faz diferença o que foi dito. Mas eu me lembro com propriedade do comentário que ressoou pelo ar, feito o sino da igreja que se fazia ouvir aos domingos pela manhã. Ela estava na soleira da porta, quase fora, mas um pouco dentro ainda… e se virou para dizer  “não sei se a professora comentou com você, mas eles se preocupam com a sua menina. Ela quase não fala e quando fala é quase num sem-voz. É a única da turma que não brinca. Ela não se comporta como criança, sabe? Se isola pelos cantos. Outro dia, depois de muito procurar, a encontraram entre as prateleiras da biblioteca. Achamos que seria melhor procurar a ajuda de um profissional“.
Me escondi atrás das pernas de C., e ali fiquei a espiar com um olho só, aquela mulher-vizinha-horrível. Não era a primeira vez que davam aquela sugestão. Eu era a menina-estranha da rua, da escola e eu dava de ombros para o que diziam a meu respeito.
Eu não gostava de gritar e não suportava os gritos das outras crianças. Fechava os olhos e tapava os ouvidos na tentativa de conter aqueles sons altos. E, mesmo assim, as ouvia em uníssono insuportável. Me desorientava… doía tudo dentro  nem sei dizer onde  mas doía forte-pesado. Eu sentia sono-cansaço… sentia tantas coisas: os ossos, a pele, a alma. Tudo que eu queria, era ir embora…
Ela demorou a falar  foi o que eu ouvi quando voltei de dentro de mim — não gosta de perguntas e eu prefiro que seja assim porque ensinamos as nossas crianças a perguntar, a pedir. E não acredito que seja a melhor coisa a se ensinar a uma criança. Quero que minha filha entenda que dar é muito melhor que pedir. Ela ganha abraços-sorrisos-afagos todos os dias e os retribui. Nunca precisou perguntar se eu a amo ou pedir por um beijo-abraço. Nada disso. Eu a ensinei que melhor que perguntas, são as afirmações.
Eu me senti feliz-satisfeita… como eu amava aquela mulher. Ela era tão incrível-imensa e tão diferente daquelas outras pessoas, sempre tão pequeninas. Eu quis abraçá-la forte, mas só troquei de perna para espiar a vizinha com o outro olho o esquerdo.

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

8 comentários em “13 | melhor que perguntas, são as afirmações.

  1. Que delícia Lunninha… amei a crônica, a lembrança e que bom que se dedicou ao ritual do café. Menina, fiquei com vontade de tomar dessa xícara que serviu ao seu menino. Nunca tomei café em prensa francesa. hummmmm
    E eu continuo apaixonada por sua mãe, você tem razão, que mulher!

    bisous

  2. É triste ver tantas pessoas dispostas a julgar e poucas a ajudar. Achei tocante seu relado e gostei bastante desse trecho “Eu a ensinei que melhor que perguntas, são as afirmações.” Afinal palavras pouco importam sem ações.

  3. eu fico impressionada com seus texto acho incriveis, quando vc diz la no texto da menina que se isola ou Eu era a menina-estranha, parece até que esta falando de mim naquele trcho me vi nele

  4. Te entendo, também fui uma criança assim, mas graças a Deus tivemos pessoas ao nosso lado para nos ajudar a passar por momentos assim e hoje seguimos nossa vida “bem”.
    Hmm, agora me deu vontade de tomar café *-*
    Continuo apaixonada pelas suas crônicas <33

  5. Que bom que a pequena Lunna tenha tido essa incrível-imensa mulher a lhe proteger desse estranho mundo “normal”. Quase consigo enxergar os olhos da menina a brilhar, um de cada vez…

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