17 | minha lista de aventuras (aos sete)

Aproveitando que ontem eu falei dos medos que eu tinha aos treze anos, quero contar uma história secreta… da minha infância. Eu era uma menina aventureira… mas, as minhas aventuras não ultrapassavam o quintal de casa, onde eu era uma versão feminina do Capitão James Tiberius Kirk…
Tudo, no entanto, era diferente, quando eu viajava para a casa dos nonnos... ao contrário de mim, os meus primos tinham medo de uma casinha nos fundos, que era apenas um cômodo-antigo, com fogão a lenha, uma prateleira velha, onde se acumulavam tralhas, coisas feitas de ferro: panelas, escovão, ferro de passar. E havia uma mesa quadrada de madeira, ao centro com suas quatro cadeiras capengas e uma janela que para se manter fechada, precisava de um calço de madeira.
Era a primeira casa deles, feita para ‘guardar a família’… quando eram apenas duas pessoas. O enorme cômodo era sala-cozinha-quarto. Dias difíceis… de luta. O casarão foi construído tempos depois, com o dinheiro da segunda colheita. Um punhado de braços trabalharam duro — dia e noite —, para tudo estar pronto antes do inverno.
Quando eu cheguei a esse mundo… ali já era o conhecido cômodo das bagunças e dos jogos de cartas — nas noites de sexta. Eu gostava imenso de ficar na varanda… de onde dava para ouvir os gritos eufóricos dos homens-amigos do nonno e outras euforias que me faziam rir.
Certa vez, espiei o jogo pela fresta da janela… e me diverti ao ver quatro homens se comportando feio garotos. Um deles tinha uma carta colada na testa… outro tinha arriado as calças e mostrado a bunda. Arregalei os olhos, cobri a boca com a mão esquerda e corri para longe, onde pudesse deixar o riso se esparramar pelo ar.
O lugar era cheio de lendas… um dos meus primos repetia que se a meia-noite, espiasse o lugar pelo buraco da fechadura e rezasse o pai-nosso de trás para frente… enxergaria o Diabo, em pessoa. Eu cai na gargalhada… para desgosto de meu primo — que passou a descrever a figura da besta, com seus chifres enormes e cauda animalesca, com o intuito de me assustar. E como não deu resultado, fui desafiada a ir até lá… sozinha, no meio da noite..
Aceitei o desafio com um aparto de mãos bem forte — e lá fui eu… cheia de disposição, munida de uma lanterna. A parte mais difícil foi abrir a porta, que era pesada e precisava ser sutilmente levantada e arrastada. Ultrapassado esse “pequeno” obstáculo, me deparei com um cômodo às escuras e ao acender a lanterna, vi as paredes cobertas de fuligem e teias de aranha, nos cantos. O chão era feito de tijolo de construção… e soltava uma poeira avermelhada, imprimindo ao resto do lugar pegadas alaranjadas.
Me lembrei imediatamente dos contos de Edgar Alan Poe — lidos durante o verão anterior —, e minha imaginação se divertiu ao inventar uma realidade falsa, imersa em alegorias, típicas de um filme de terror.
Encontrei dentro da gaveta da mesa… o meu troféu: uma caixa, onde mio nonno guardava seus baralhos e um punhado de sementes de feijão branco, que eu entreguei nas mãos de meus incrédulos-primos-boquiabertos, que nunca tiveram coragem o bastante para entrar lá… além do medo que regia cada músculo do corpo deles, havia ainda a crença de que existia uma força oculta que os impediria a qualquer custo. A força dos anjos, que velavam para que suas almas não fossem dominadas pelo Vingador, também conhecido por Satanás…

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5 comentários sobre “17 | minha lista de aventuras (aos sete)

  1. Erika Monteiro disse:

    Ah, você arrasa na escrita! Tem tanta força, que lá estava eu, agarrada na sua blusa (ia dizer saia, mas me lembrei que você não usa) e eu morrendo de medo do que iriamos descobrir neste desafio… hahaha, adorei.

    Bacio

  2. Lola Maria disse:

    Ah, eu gostei do nome Vingador, me lembrou um desenho que eu adorava na infância. Caverna do Dragão. Era esse o nome do personagem que enfrentava as crianças no mundo para onde foram enviadas.
    Adorei a história, Catarina-Lunna!
    Foi como se tivesse entrado naquele quarto escuro e visto todos os detalhes dele, claro que ocultamos algumas coisas, afinal, se quisessem saber, que fossem corajosos e descobrissem por si.
    Como você, eu também era dada a desafios…

    bjkas

  3. Jull Palmer disse:

    Ah, que linda história.
    Eu me vi na sua infância, indo bem atrás de você, com os olhos bem fechados e morrendo de medo.
    Não era (não sou) nada corajosa e para ser sincera, nem com os teus primos eu teria ficado. Sairia correndo para o colo de meus pais.

    Baci menina Catarina

  4. Patricia Monteiro disse:

    Imagino como esse cômodo antigo possa ter se tornado tão misterioso e assustador aos olhos de uma criança. Se fosse eu no seu lugar também teria ficado curiosa em conhecer, mas não sei se teria coragem para me aventurar em tal descoberta! Adorei a descrição detalhada, me fez sentir um pouquinho lá dentro também! Ah, e esse Vingador me remeteu de imediato para a Caverna do Dragão, amava esse desenho.

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