23 | * já me viram remexendo escombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

— Affonso Romano de Sant´Anna —

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Eu não sinto saudades da minha infância! Mas, gosto imenso de saber que tudo — nesse meu cenário particular —, está em seu devido lugar e que posso acessá-lo a qualquer momento do dia-vida, como se fosse um dos ingredientes que uso para preparar um bolo…
A pessoa que sou, deve muito a menina de cabelos cacheados, sorriso maroto e olhar atento a tudo e todos, que eu fui. Sei que ela não foi embora. Não se perdeu ou cresceu. …ela, permanece aqui dentro, com sua intensidade — nada moderada —, a lidar com certos leões indóceis.

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(abre parêntese)

…eu tive uma infância saudável-gostosa-intensa-tranquila. Fui uma criança criativa-delirante… a quem a mãe perguntava pela manhã, com um olhar atento as minhas reações: “você dormiu bem?”. Não! Eu não dormia… não sei se devido ao fascínio que sentia pela noite ou se motivada pela mente sempre desperta… a lidar com o impossível. Adorava me sentir enfiada num poço de breu, consumida pelas sombras.
Durante os dias, tentava me lançar naquele precipício e ser tragada de volta. Fechava os olhos. Mas não era escuro o bastante. Apenas a noite tinha aquela porção inteira de escuridão — onde tudo era possível. A noite sempre foi a minha generosa porção de mundo… o meu refúgio. O lugar onde me sentia segura-confortável. O silêncio dentro do breu, me elevava. Era mais fácil respirar… existir. Dialogar com figuras invisíveis… inventadas a partir de pessoas reais, que eu colecionava, em segredo.
Assim que percebia o silêncio pelos cômodos da casa… abria a janela, deixava entrar a noite e sua escuridão imensa, a brisa úmida-fria. Sempre gostei de espiar o céu… e assistir a mais insólita combinação de cores, que ocorria com o passar das horas. O horizonte aquarelável. O despertar do mundo-vida-realidade em lentos movimentos. O sol a pincelar seus raios por cima das águas, em movimentos erráticos, de ondas. Gostava imenso quando ocorria a ‘arrebatação’… as águas explodiam em força contra as pedras e eu sentia meu corpo se diluir.

(fecha parêntese)

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De todos os momentos da noite… o favorito era quando acontecia aquele instante de pausa — perfeito-mágico. O mundo e todas as coisas existentes nele, se acabavam. Nenhum movimento-som acontecia. Fim. Eu prendia a respiração… e aguardava imóvel. Torcia para ter fôlego o bastante para não interromper o momento que era tão breve. Um mísero segundo. Um pequeno instante. Se eu piscasse… o perdia.
E a vida voltava a pulsar dentro e fora de meu corpo. O vento vinha por cima do mar e percorria os labirintos da cidade, em uivos sonoros-aflitos… se misturava a sinfonia de pássaros. Os gatos caminhavam sorrateiros pelos telhados, em miados matinais… e o cães corriam de um lado para o outro, nos portões — numa espécie de aflição particular — a perseguir sombras. O menino surgia na esquina, arremessando as primeiras notícias do dia e nem sempre acertava o alvo. Todas as coisas ganhavam no forma… os primeiros passos pelas calçadas. As primeiras conversas. Acenos de mãos. E o cheiro de café a espocar no ar, que soluçava com o vento frio-úmido.
Eu me lembro que acontecia qualquer coisa de sono em meus olhos-corpo-pele. Eu bocejava pesado e acho que era assim que tudo se acabava para mim. E, de repente, sentia a luz branca da manhã resvalar em meus olhos. Inconsciente, sem certeza de nada, incomodada — duvidava da noite em branco. Seria apenas um sonho? — era essa pergunta que eu fazia a criatura que me encarava de dentro do espelho. Os livros de poesias, os desenhos feitos em folhas avulsas, os traços deixados no diário de capa vermelha, no entanto, diziam contrários. Ali, a noite deixava suas marcas…

Foi assim que eu aprendi a gostar e compreender as ausências e como é bom não ter certezas de nada…

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| Trecho do meu livro “meus naufrágios |

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6 comentários sobre “23 | * já me viram remexendo escombros

  1. Jull Palmer disse:

    Gente, mas que menina era essa que preferia a noite ao dia? Eu adorei a crônica, Lunna, o jeito como escreveu e amo esse seu não-livro, mas me explica: como uma criança prefere a noite? Eu morria de medo da noite, do escuro. Dormia com a luz acesa e tinha certeza que tinha um fantasma no meu armário. hehehehe

    Baci menina Catarina

  2. Lua Nova disse:

    Eu adorei a menina Lunna-Catarina e fiquei imaginando o olhar atento as sombras, percebendo as figuras e se divertindo com o medo alheio. Você é mesma feita de contrários.

    bisous

  3. Leitura Enigmática disse:

    Eu curto muito a noite. Seu silêncio, me traz uma paz e tranquilidade inexpressiva. Sem carros, ônibus, pedestres, vizinhos, entre outros sons. É um período onde, se pudesse e tivesse condições, realizaria minhas atividades mais essenciais do meu dia a dia, pena que preciso acordar cedo para trabalhar.

  4. Patricia Monteiro disse:

    Quando criança eu tinha muito medo da noite, às vezes dormia apavorada com medo de fantasmas (ou melhor, nem conseguia dormir). Depois de crescida é que passei a admirar a noite e todo o mistério que evoca. Gosto muito de admirar o céu noturno, se eu pudesse viveria apenas durante a noite e dorniria de dia.

  5. obduliono disse:

    Aos 13-15 anos, como estudava à tarde e a programação da TV se encerrava à meia-noite ou até antes, eu aproveitava para varar as madrugadas para ler e escrever. Dormia apenas 6 horas por noite, mas não conseguia evitar a atração que sentia pela noite alta. O silêncio não era total, pois grilos, galos e cachorros não deixavam de se expressarem de tempos em tempos na periferia quase desabitada.

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