26 | Nesse vinte e seis de agosto, não chove

E eu não fui às ruas… ouvi Sampa de Caetano Veloso, como quem acerta os ponteiros de um relógio de bolso — daqueles antigos, preso por uma corrente dourada no passante da calça. Preparei uma xícara de chá e refiz os caminhos de ontem… aqueles que me levaram do Aeroporto até um quarto de hotel, no centro velho paulistano. O ano era dois mil e dois…
Com os olhos sepultados no alto, consumi as anatomias irregulares dos prédios grudados uns nos outros. Me diverti ao ver passar um Elétrico vermelho e descobri, do outro lado da rua, um Templo sagrado — a Biblioteca Mário de Andrade.
Larguei a mochila, troquei de roupas e voltei às ruas… para traçar meus próprios mapas. 
Esbarrei na elegante anatomia no Teatro Municipal, carente de aplausos e cercado por tapumes feios. Segui pelas ruas labirínticas… atravessei viadutos, encontrei mosteiros, boulevares e, tropecei na fisionomia rude do Martinelli, em estado de abandono, com suas portas trancadas por correntes e cadeados. Tentei enxergar através da sujeira do vidro, ouvir sons. Nada. Apenas uma pressa incomum-repentina nos passos das pessoas — o estouro de uma manada de zebus…
Uma forte ventania varreu a rua… causando tumulto nas vestimentas coloridas de uma gente sem norte. A tarde caiu… as nuvens negras se avolumaram por cima dos prédios e os guarda-chuvas se abriram um por cima dos outros — ligeiros. Raios cuspiram suas descargas elétricas em riscos irregulares-rápidos pelos céus e os trovões imitaram uma partida de boliche.
Em poucos segundos, as ruas estavam vazias, como se alguém tivesse removido todas as peças do tabuleiro.
Vestindo contrários, enfiei as mãos no bolso da calça e caminhei lentamente por aqueles contornos erráticos, apreciando tudo e nada. Cheguei ao Viaduto do Chá… um curioso traço por cima do Vale, onde parei para apreciar o lugar e acabei surpreendida pelo precioso instante de silêncio-quietude que antecede às tempestades. O vento parou. Um clarão se impôs por cima das vilas e aldeias de ninguém. A falsa calma da natureza… quando a morte alcança um corpo doente e uma melhora inesperada acontece. São os avisos que nem sempre compreendemos. O último suspiro de um corpo. O respeito a vida-morte. O último passo… o tempo exato de um adeus.
Fechei os meus olhos e esperei… senti as primeiras gotas na pele, rapidamente convergidas em milhares. A chuva caiu forte… molhando a minha pele-alma-memória. Cheguei ao hotel em gotas e se não fosse pela agilidade do concierge que me envolveu com uma tolha branca, teria me comportado feito um cão…

E lá se vão dezessete anos…

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

11 comentários em “26 | Nesse vinte e seis de agosto, não chove

  1. Ah, que belo crônica, menina Catarina-Lunna.
    Vi a menina andando por ruas que não conheço, observando pessoas, prédios, conhecendo, desbravando e tomando banho de chuva em São Paulo, cidade que eu conheço através da sua escrita. São cenas bonitas e poéticas, como sua escrita. Adoro posts com a sua cidade ao fundo, tenho certeza de que se um dia ir a tua Paulicéia, não será a mesma coisa, será outra.
    Bisous

  2. Escrevi o comentário mas apertei um botão errado no celular e ele se foi.
    Por um momento, enquanto lia o seu relato, achei que estava lendo um livro cheio de vida e inspiração. A cena da chuva eu vivi junto. Que delicia. E também conheço esse dizer sobre a melhora inesperada antes de morte. Sei bem do que se trata. Como você disse, é o respeito da morte a vida. Acho que ė isso para fazer as despedidas e partir bem, isso sempre me impressionou muito. E me impressiona como certas coisas nos acontecem, sei lá, acho que só é preciso estar atento.

    Bjinhos linda

  3. Oi Lu,

    Que linda a sua crônica. Cara, adoro como você transforma tudo em crônica-poética. Os elementos que usa me faz viajar. Sério. Já disse isso algumas vezes, eu sei. Mas essa crônica me fez lembrar de quando ia para o centro de SP com a minha vó e meu pai e descia pelos elevadores do Mappin (uma loja de departamentos super conhecida nos anos setenta e oitenta em São Paulo) ficava em frente ao Teatro Municipal, que hoje está lindão de novo e sem os tapumes horríveis que ficaram por lá durante anos… que saudades, menina.

  4. Uau. Dezessete anos…
    A sua crônica me fez lembrar minha mãe quando ela fala do centro. Ela nasceu e cresceu por ali, perto vale. Deu um ar nostálgico para mim.
    Mas, eu, ao contrário de você, ficaria apavorada e teria fugido com as pessoas das ruas. Tenho muito medo de tempestades. Ainda mais desse tipo que surge do nada.

    Bacio

  5. Ah, que delícia. Você chegou com a tempestade, os raios-clarões-trovões, inquietudes-sensações. Chegou exatamente como és e a cidade sabia porque São Paulo reconheceu os seus. E que maravilha, heim, ficar hospedada ao lado da Biblioteca Mário de Andrade. Ainda não fui lá depois da reforma, mas dizem que está incrível.

    beijocas

  6. Me fez lembrar da primeira vez que estive em SP.
    Eu tinha 18 anos e a expectativa de quem vinha do interior de SC para ver coisas que só conhecia pela tv e pelos livros e revistas. Um sonho e um choque. São Paulo era grande em todos os sentidos, desde a altura do seus prédios até o brutal constraste social. Ver pessoas vagando pelas ruas em um estado quase que sub-humano não fazia parte da minha realidade, e isso foi chocante. Mas também encontrei beleza, afinal era pra isso que eu tava lá, conhecer os museus e a bienal de artes. O ano era 2001, lá se vão outros 18…
    (Gisele)

  7. Parabéns pela chegada tempestuosa e pela permanência. Sabe? Às vezes, eu acho que tudo é superlativo em São Paulo e, às vezes, eu tenho certeza.

  8. Olá Lunna!
    tudo bem?
    Amei sua crônica, me fez lembras umas músicas aqui da minha playlist, que inclusive seu post de deu vontade de escutar essas musicas agora mesmo hahha, ❤

  9. Isso me fez lembrar muito de uma saída que fiz com umas amigas na época. Passeamos pela cidade grande e ao mesmo tempo eu observava cada coisa que havia em cada esquina, cada praça, cada loja. No dia também estava cinza e choveu logo após. Parecia ter destruído tudo de bom que havíamos vivido naquele dia, porém um período após cessou e tudo continuou tão belo como estava.

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