27 | aumenta o som…

‘Where there is desire, there is gonna be a flame
Where there is a flame, someone’s bound to get burned
But just because it burns, doesn’t mean you’re gonna die
You gotta get up and try, and try, and try
Gotta get up and try, and try, and try
You gotta get up and try, and try, and try’

Com um clique… liguei o som para ouvir P!nk. Tudo tão rápido… digital. Som perfeito e ao alcance de um pequeno gesto. Sorri ao me lembrar do tempo em que era preciso escolher um disco, removê-lo da capa de papelão, passar uma flanela nas linhas invisíveis aos olhos, posicioná-lo no velho Gradiente, conduzir o braço com sua agulha-fina-de-cristal até a ponta do disco… e ouvir aquele chiado gostoso que antecipava as notas.
O som alto… a casa vazia e a janela aberta! Qualquer coisa de estação lá fora, qualquer coisa de monotonia dentro. O canto do sofá e a certeza de que o tempo é mesmo agora porque amanhã a vida faz uma curva e te leva sabe-se lá para onde e você precisa ir porque, como disse o poeta: ‘navegar é preciso‘…
Os famosos long plays continham seis ou sete músicas de um lado… e quando chegava ao fim — ficava rodando e rodando e rodando e rodando. Os aparelhos mais modernos desligavam assim que a última música tocava… mas não tinha a mesma graça. Eu gostava de adormecer — ou me distrair — entre uma faixa e outra e despertar com aquele som rouco de giros-e-agulha-em-movimento — a furar o vinil.
Para ouvir o restante das músicas do álbum… era preciso trocar o lado, como o dia precisa da noite e a noite precisa do dia.
Eu tinha uma estante com várias prateleiras cheias de centenas de discos, com suas capas estilizadas a contar a história da banda ou a narrar em poucas linhas uma lembrança. Eu os organizava por ordem alfabética… e havia tardes inteiras para tocar um determinado disco e embalar as lembranças de ontem.
Hoje, as músicas estão nas nuvens… e se ouve tudo e nada. Nem sei mais a respeito dos álbuns lançados, dos meus artistas preferidos. Tudo que sei é o som que se repete ou não na sequência de dias. Mas, uma coisa permanece inalterada: a minha realidade continua pautada por trilhas sonoras…

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “27 | aumenta o som…

  1. Além do Vinil, eu travei contato com os discos de 45 rotações, que tinham apenas uma única música de cada lado. Eram de meu avó, que tinha uma daquelas sonatas com megafone. Nem sei se é assim que se escreve. De todos os meus discos favoritos, o de Lupicínio Rodrigues era o melhor. Adorava ouví-lo cantas ‘esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que seu sei” de um lado e do outro “felicidade foi se embora e a saudade no meio peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque eu sei que a falsidade não vigora.
    Nossa, que saudades bateu agora esse teu post, menina Catarina. Eu passava horas e horas a virar aquele disco na sonata azul, que ganhei de presente aos seis anos.

  2. Ah, eu não peguei a época dos discos, mas sinto falta de colocar meus CD’s pra tocar. Me fez lembrar quando ganhei meu som para o quarto. Era um desejo meu. Pedi de aniversário e nem acreditei quando voltei da escola e lá estava. Todo mês, eu comprava um cd na loja da cidade. Tudo bem que CD nem é tão antigo, mas tudo agora é digital e eu já nem tenho mais o meu som. Agora ouço tudo no celular. Que louco isso.

    Agenda Aleatória

  3. Que post delicioso Lu.
    Me deu uma saudade da época em que eu ouvia cds e fitas. Hoje me dia é bem fácil ouvir músicas no Sportify, tem tudo lá, mas era diferente. Tinha até um ritual. Nossa, o tempo passa e a gente nem se dá conta. A gente só vai se acostumando as novidades e deixando coisas legais para trás.
    Foi uma delícia ler esse texto. As descrições batem muito sobre como são meus dias aqui em casa, e como é gostoso ouvir músicas a toda hora

  4. Esse tempo era muito legal, parece que conseguíamos apreciar melhor as coisas. Hoje são tantas as distrações que é preciso algum esforço de nossa parte para valorizar cada momento. O barulhinho da agulha quando o disco chegava no fim era incrível. Eu também dormia e acordava com aquele chiado. Meu pai também dizia isso “vai furar o disco, menina”.
    Também sou muito ligada a música tudo que faço é com música.

    Adorei o post
    bjs

  5. Que texto lindo! Música é tão importante na nossa vida e acho engraçado como o ritmo ou gênero favoritos em um determinado momento da vida, condizem com a forma como nos sentimos e enxergamos as coisas. Pelo menos pra mim.
    Ultimamente eu ando gostando muito de MPB e músicas mais leve, que até um tempo atrás não fazia meu estilo. Preferia pop ou rock, algo mais agitado, que extravasa por todos os lados, mas talvez a minha vida esteja entrando em um outro ritmo.
    Enfim, acabei desviando do assunto do texto um pouco, não cheguei a pegar a época dos discos de vinil, mas sinto falta das fitas e dos cds, porque ultimamente, é tudo por celular, computador e até no carro e no rádio não se faz mais uso de cd e sim pen drive (ou celular também com playlist no spotify). Mas o importante é que a música continua presente.

  6. Oi Lunna!
    Eu preciso dizer que assim que li a parte que você destacou de Try, da minha amada P!nk, parei, e cantei (literalmente, minha irmã me olhou e achou que sou louca, não posso discordar…).Essa música está no meu coração e a cantora, admiro e acompanho desde quando ela explodiu com Missundaztood. E que delícia foi esse ‘prólogo’ às suas palavras.
    Eu também peguei, ainda que não por um longo tempo, a época dos discos (e também das fitas K7 que eu a-m-a-v-a!). E era mesmo delícia esse som chiado, essa melodia única que tinham. Não tenho mais toca discos em casa, mas tenho alguns discos… talvez isso não tenha sentido, ou até tenha, porque eles refletem tanta nostalgia que são preciosidades aqui.
    Mas, como você disse, o mais importante é manter a trilha sonora da vida…
    xoxo

  7. “O canto do sofá… e a certeza de que o tempo é mesmo agora porque amanhã a vida faz uma curva e te leva sabe-se lá para onde e você precisa ir porque, como disse o poeta: ‘navegar é preciso’…” e eu ainda estou pasma com a morte prematura da Fernanda. Sei lá, tudo tão rápido e repentino.
    Que saudades da época em que as coisas iam mais devagar e a gente passava uma tarde inteira ouvindo vinil. Eu tinha discos das minhas bandas favoritas e ouvia até a mãe mandar desligar. hehehe
    Nossa, eu viajei até meus tempos de menina agora.

    beijocas

  8. Que delícia de texto Lunna! Voltei no tempo e lembrei da minha ansiedade ao saber que um cantor ou grupo musical estava prestes a lançar álbum novo. Ainda tenho minhas coleções que estão na casa de minha mãe. Beijos

  9. Ah, essa música me remete a você. Lembro – me do chá e a gente em seu quarto, véspera do evento.
    Ouço todos os sábados. Não me pergunte porque, mas está em minha trilha musical de sábados. Amo tu!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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