29 | Nunca há uma só razão para essas coisas

Me surpreendi — há pouco — com o olhar de uma menina… a bordo de seus sete ou oito anos — talvez mais, talvez menos. Olhar curioso-faminto… de quem avista um pouco de si, no outro. Reconheci a mim mesma, num tempo anterior a esse, quando me escondia nos cantos, afundava o corpo na cadeira e devido à pouca altura era fácil desaparecer, me tornar invisível.
Sempre havia alguma figura que saltava aos meus olhos… despertando o meu interesse. Uma curiosidade natural se acendia em minha amalgama que, se lançava ao mar em busca do que recolher-guardar. Certa vez, eu sorri para uma jovem em um café…
Ela tinha olhos negros feito a noite, uma pele branca feito o dia e estava tão solta que se parecia com a última peça de um quebra cabeça — pronto para formar o desenho de uma paisagem qualquer.
O sorriso saiu de meus lábios espontaneamente e a alcançou… não sei  o que a motivou a retribuir e acenar. Mas, por míseros segundos fomos o mundo uma da outra e, eu não a queria na condição de estranha — alguém que deixaria de existir em minha realidade tão logo terminasse seu refrigerante e fosse arrastada para outro cenário, pelo punhado de amigas que a acompanhava.
Eu nunca fui dada a heróis… os pares que encontrei pelo caminho, sempre foram estranhos ou figuras mortas. Nunca me perturbou a impossibilidade. Nas vezes em que estive a poucos metros de figuras divinas — como Susan Sontag, em Nova Iorque — recuei… não por temê-la, mas por saber que certas figuras são apenas para o nosso imaginário.
Não sei o que há em mim que despertou o interesse da menina de olhos acastanhados, que enquanto degustava sua bebida — na mesa ao lado — se esticava por inteiro para saber o que eu fazia. Eu poderia imaginar milhares de motivos, mas me concentrei em percebê-la, como quem observa o próprio reflexo no espelho…
Retribui o sorriso que veio até mim, como fizeram comigo em outro tempo-vida — foi como agradecer a mim mesma, por me permitir alcançar alguém ontem-hoje… consciente de que certos momentos-encontros ecoam em nós e nos ajudam na delicada construção do Ser que seremos-somos.
…ao tocá-la com um gesto não calculado, toquei também a mim.

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

12 comentários em “29 | Nunca há uma só razão para essas coisas

  1. Como o “outro” nos deixa curiosa! Fiquei pensando como é difícil nos aproximar de alguém e o quanto nos perdemos por ceder ao medo ou o quanto ganhamos. Às vezes, eu tenho vontade de sumir ou de ser invisível…
    Eu não gosto de olhares, de ser vista, de ser descoberta. Eu não retribuiria o aceno, me levantaria e iria embora, mas acho que é diferente para um escritor que precisa de troca e a sua crônica ficou muito intensa e graças a um olhar eu te alcançou ontem e hoje.

    Abraços

  2. Que delícia de crônica, Catarina.
    Os paralelos entre o ontem e o hoje. Essa espécie de olhar a refletir o tempo e o espaço, a realidade entre mundos tão diferentes e ao mesmo tempo, tão iguais.
    Adorei. Adorei. Adorei

    bisous

  3. Crônica adorável. Me fez pensar em quantos olhares deixei virar paisagem de outros senários sem a devida atenção. Em um mundo quase sempre tão reativo é como se perdêssemos a capacidade de agir. Reagimos o tempo todo a quase tudo e as crianças talvez sejam a prova de nossa essência cheia de iniciativa mesmo onde ainda existe bastante insegurança, tão curiosas e aventureiras, e seu interesse ainda tão puro e livre de paradigmas ou julgamentos talvez seja um norte para valores perdidos.

  4. Ah que texto mais lindo. Acho que ele irá despertar todo o lado curioso das pessoas… eu era assim quando criança, e ainda sou. A gente nunca vai parar de tentar nos achar em outras pessoas.

  5. É curiosa e maravilhosa a maneira como o outro pode acabar afetando a gente – mesmo que de longe, só num olhar, ou algo parecido. Tem gente que causa conexão, talvez por algum motivo de só uma das partes, talvez por todos os motivos de ambas, sei lá! O importante é, se surgir o momento, deixar!

  6. Há poucas coisas mais intensas que uma boa troca de olhares – trocar olhares com crianças então é algo incrível! Às vezes me pego observando as pessoas, tentando imaginar-sentir suas histórias…

    Bisous

  7. Fiquei eu a imaginar o que pensou a menina ao te olhar.
    Sensacional a sua crônica, foi tão delicada e intensa ao mesmo tempo.
    um presente para esse começo de noite de um agosto que me atropelou e eu nem anotei a placa.

    beijocas

  8. Tão bom lê-la, Luna!
    “Certas figuras são apenas para o nosso imaginário”: concordo muitíssimo! é melhor mantê-las lá!
    Quanto à troca de olhares, há almas que se perdem e encontram por um momento num olhar. É um momento belo e que nos marca, apesar de tão breve!
    Bacio!

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