16 | velhos hábitos

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setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. imaginar o desenho de palavras, a sensação de frases. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encapar os cadernos, com folhas de jornal e plástico transparente. etiquetá-los com o meu nome, do professor e a referida disciplina.
livro novo de poesias. era o nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton…
sentava-me na cama à noite e a leitura acontecia. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. domingo. noite. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário, por escrever somente, sem compromisso ou projeto de publicação, como fiz com reticências e septum.  escrever como quem dialoga com a pessoa de dentro. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas. como antes. escolhi um lugar. a mesa da cozinha. pensei o tempo. memórias. silêncios. barulhos. estranhezas. tudo fervilhando como a água na chaleira. xícara de chá. pequenos goles. e a velha sensação na pele. liquefazer-se. escrevi por escrever somente. vogais e consoantes engatadas umas as outras. frases inteiras. um comboio a percorrer trilhos.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. a aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo…
escrever um diário será uma aventura paralela à (re)escrita de Alice. que também  tem um diário de bordo. um caderno. vermelho. que estava guardado no fundo do baú a viver seu estado de espera.

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

21 comentários em “16 | velhos hábitos

  1. Ah, de repente me transportei para a grande mesa da cozinha da casa dos meus pais… Livros e cadernos espalhados e nós, os sete filhos, a tentar entender o que era de cada um. Encapar, nominar, admirar… Era uma celebração, porque era difícil ter tudo novinho. Éramos muitos e a conta da papelaria/livraria ficava alta. Até um certo tempo, conseguíamos reaproveitar os livros usados pelos mais velhos… Então, haja borracha. Depois de um dia inteiro de leitura teórica/acadêmica, encontrar sentidos do campo dos afetos foi prazeroso por demais. Só pra registrar, retomei o diário em setembro do ano passado.

  2. EI Lunna, estou nessa vibe também. Retomo aos poucos a escrita e comprei três cadernos para iniciar algumas histórias novas e dar sequência as antigas que se encontram estacionadas. Muito boa essa sensação de recomeços. Bjs

  3. Ah eu também sou amante viciada em papelaria e, o ritual de volta às aulas me era querido exatamente por isso, pensar na capa dos cadernos, encapar com primor, sentir o cheiro de livros novos… ainda adoro essa sensação, ainda que a faça de maneira um pouco distinta…
    Mas nunca escrevi um diário assim, que pegasse e dissesse, é esse o lugar. Sempre escrevi um rascunho ou outro da vida em cadernos que estavam à mão no momento em que as emoções pareciam me afogar… colocar as palavras pra fora funciona como emergir e engolfar o ar… talvez não naufragasse tanto se escrevesse desse modo, com mais frequência, quem vai saber…
    Não preciso nem dizer o quanto amei esse seu post, preciso?

    bisous

  4. Esses seus textos sempre me fazem pensar demais em tudo ao meu redor. Quando você citou a escola, eu me lembrei que realmente não era o meu lugar preferido. Eu gostava de estudar (algumas coisas), mas não gostava da escola. Tem muitas coisas que eu faço que são apenas “coisas” e não “coisas que eu gosto de fazer”. Faz parte.
    Sinceramente, acho que estou mais que ansiosa para que esse ano cabe. Todo inicio de ano eu me sinto renovada, e mais ou menos nessa época vou sentindo essa energia desaparecendo. Meu setembro esta muito cansativo, relativamente um mês bem normal, sem nada de muito extraordinário hihi.

    baci

  5. Oie, o meu Setembro está sendo muito bom até aqui. Estou conseguindo colocar coisas antigas em prática aqui em casa, algumas surpresas, mas o saldo está muito bom até aqui.
    Eu quando nova adorava essa parte da papelaria, era um momento muito especial e ainda hoje gosto muito.
    Eu tenho um diário bem fofinho, mas os meus escritos são mais para menina que escreve mesmo.

    Bjs

  6. Eu também amava o ritual das papelarias: escolher o caderno, as canetas. E a alegria de estrear um caderno novo? Sem igual. Carrego isso comigo até hoje, tanto que vivo comprando cadernos que ainda nem sei para quê vou usar. E concordo que as vezes é bom percorrer o mesmo caminho de novo. Esse final de setembro tem sido extremamente nostálgico para mim e ainda não consegui entender bem porque. E, veja a coincidência, há algumas semanas também recuperei o velho hábito de escrever um diário.

  7. Ritual de papelarias. Acho que todo mundo amava isso. Sobre meu setembro atual, foi uma mistura de “Deus me livre, quem me dera”. Corrido mas produtivo, dias sim, dias talvez…
    Adorei você ter compartilhado esse momento conosco.
    abrçs

  8. Ah, era melhor parte da escola, né? O material novinho, a oportunidade de escolher uma personalização nova pra ele, uma cor diferente da anterior, um desenho de capa diferente…
    Ansiosa para ver os materiais que sairão da sua Moleskine vermelha.

    Bacio

  9. Caríssima
    Eu adorava a escola e a época de comprar os materiais era a melhor do ano!
    Até hoje, compro material para os filhos e alguns pra mim..rs
    AMO papelaria, cadernos, diários e moleskines
    Também fiz muitos diários e estou ensaiando voltar a escrevê-los
    Amei o texto, como sempre
    Bacio

  10. Eu também gostava dessa época de cadernos e material escolar renovado. Consciente que não tínhamos uma boa situação financeira, conservava o máximo que podia os lápis de cor, preto e canetas. Minha mãe encapava com plástico os livros e os cadernos, igualmente e eu guardava os meus favoritos, geralmente os de Português, com trechos de livros, contos e poemas. Quase todos, incluindo os de História, Geografia e Biologia, já estavam todos lidos até a metade do ano. Os de exatas, no entanto, guardavam os seus segredos para mim pelo ano inteiro…

  11. Lunna!! Que lindo!!
    Eu me transportei para os meus tempos de menina e meus diários. Quantas saudades tive agora. Tempos bons, de meninices!!! E tudo devidamente registrado!
    Os diários não os faço mais, mas o ritual das papelarias, esse continua sempre!

    Adorei o texto!
    Bacio

  12. Eu também sou apaixonada por esse mundo de papeis…Como professora e mãe, sempre relembro, o momento de filha, quando ia com minha mãe comprar meus materiais…A parte mais gostosa do ano…Passei o gosto para minha filha, hoje dividimos as canetas, lapiseiras, borrachas…

    bisous

  13. Setembro, primavera. Flores? Nem sempre! Mas a vontade de escrever, a ânsia pelo querer, desvencilham-nos de caminhos antigos, e nos conduzem ao novo!
    Amo a surpresa que coloca em cada escrita, e sou grata pela oportunidade de ter participado da maratona!
    Beijos!

  14. Oi
    Eu também adoro escrever é durante muito tempo coloquei muitos textos pessoais no blog. Mas hoje coloco em livros mas transformados em poesias…

  15. Eu tenho um diário até hoje e isso me faz muito bem. Colocar ali tudo o que aconteceu e o que estou sentindo para depois olhar e ver minha evolução, é maravilhoso.
    Estou com um livro de poemas também e tem aguçado minha criatividade… olha, escrever é um ato revolucionário.

  16. Ah, eu também adorava a época de renovar o material escolar! Encapar cadernos com plástico quadriculado e depois outro transparente, etiquetar, escilher canetinhas…nossa, que momento gostoso! Eu nunca escrevi um diário, mas tinha uma agenda na adolescência onde costumava “desabafar”. É bom soltar os sentimentos em folhas de papel de vez em quando, pode ser libertador.

  17. Esse ritual de papelaria me traz lembranças tão boas! Eu adorava a escola mas gostava ainda mais da preparação do material escolar. Tanto que até hoje não posso ver um caderninho diferente, uma caneta, que já quero comprar. Escrever a mão é um hábito que nunca abandonei e acho que seguirei assim até o fim da vida. Quanto ao diário, é um hábito que eu venho tentando recuperar já tem um tempo. Mantive diários até uns 20 anos e depois aos poucos fui perdendo o costume. Há um ou dois anos venho retomando mas não de forma consistente, mas tudo bem, tenho gostado mesmo assim.

  18. Eu amava aquela época de comprar o material escolar, amo papelaria e afins. O cheirinho de material novo parece que dá um ânimo totalmente novo para começar o ano letivo 😀

  19. Eu adorava a escola, mas não a parte de comprar materiais – compras nunca foi a minha atividade favorita – Só depois dos trinta passei a ter uma certa paixão por cadernos, canetas… Antes, qualquer folha era lugar de poesia, lembro dos meus primeiros escritos no verso das cartelas do bingo que eu trabalhava…Enfim, preciso retomar velhos hábitos como o escrever diário. Tenho me sentido cansada e sem muita inspiração, devem ser os efeitos da primavera-verão que sempre me desanimam…
    Te ler é sempre um bálsamo
    Beijos

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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